sexta-feira, 3 de março de 2017

FORA DE CONTROLE

FORA DE CONTROLE (Changing lanes, 2002, Paramount Pictures, 98min) Direção: Roger Michell. Roteiro: Chap Taylor, Michael Tolkin, estória de Chap Taylor. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: David Arnold. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Debra Schutt. Produção executiva: Ron Bozman, Adam Schroeder. Produção: Scott Rudin. Elenco: Samuel L. Jackson, Ben Affleck, Toni Collette, Sydney Pollack, Richard Jenkins, William Hurt, Amanda Peet, Dylan Baker. Estreia: 07/4/02

Doyle Gipson precisa chegar ao tribunal para provar ao juiz que acaba de dar entrada em uma casa onde seus filhos pequenos poderão morar com a mãe - o que evitaria que fossem de mudança com ela para longe de Nova York. Gavin Banek é um jovem e bem-sucedido advogado que também tem um compromisso importante, que fará com que sua firma (cujo principal sócio é seu sogro) assuma a administração de um fundo milionário de um cliente já morto. No meio do caminho, os dois carros batem um no outro e, na pressa, Banek deixa Gipson para trás, sem dar-lhe tempo de resolver seu grande problema - e, consequentemente, salvar-se da separação dos filhos. Porém, o destino não brinca em serviço: assim que chega no tribunal, Banek descobre que um importantíssimo documento (crucial para sua vitória) ficou nas mãos de Gipson - que, por sua vez, não tem a menor intenção de devolvê-lo antes que seu prejuízo seja sanado. Essa guerra de nervos, que retrata o tênue limite entre a civilidade e a barbárie, é o tema de "Fora de controle", dirigido por Roger Michell como seu projeto seguinte ao grande sucesso da comédia romântica "Um lugar chamado Notting Hill" (1999). Ao contrário do solar e delicado filme estrelado por Julia Roberts e Hugh Grant, porém, "Fora de controle" mostra um lado amargo, pessimista e cínico da humanidade - daí, talvez, o motivo de seu fracasso comercial nos EUA mesmo com o elenco liderado por Ben Affleck e Samuel L. Jackson. Mesmo conseguindo cobrir seu custo estimado de 45 milhões de dólares, o filme nem chegou à marca dos 70 milhões no mercado doméstico - o que também pode ser creditado ao marketing equivocado, que vendia um thriller dramático como um suspense de ação.

O trailer de "Fora de controle" realmente prometia à plateia uma trama eletrizante, com cenas repletas de tensão - e a presença de Ben Affleck, então um ator em ascensão e vindo direto de "Pearl Harbor" apenas aumentava essa impressão. O que Michell apresenta, no entanto, é um filme de ritmo bem mais lento do que o esperado, com uma pegada bem menos dinâmica e violenta do que se poderia supor. Não é um defeito - a narrativa é fluida e evita com inteligência o óbvio - mas de forma alguma se conecta com aqueles que procuram uma produção calcada em perseguições de carro, tiroteios ou a velha e boa troca de socos. A intenção do diretor (apoiado em um roteiro repleto de diálogos a respeito de ética, civilidade e tentativas de manter a esperança em um mundo com armadilhas à espreita em cada esquina) é fazer pensar, mais do que injetar adrenalina no espectador. Poderia ter dado mais certo se um dos protagonistas não fosse interpretado por Ben Affleck, notadamente um dos atores mais inexpressivos de sua geração - o que fica ainda mais evidente diante do show de seu parceiro de cena, o sempre espetacular Samuel L. Jackson.


Descoberto pelo público com sua atuação hipnotizante em "Pulp fiction: tempo de violência" (94), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante, Jackson teve, a partir de então, um novo recomeço de carreira - iniciada no começo dos anos 70 e finalmente reconhecida na década de 90, graças ao cineasta Spike Lee, que lhe deu o papel de um viciado em drogas no filme "Febre da selva" (91), responsável por um prêmio de coadjuvante no Festival de Cannes (uma categoria, aliás, criada exclusivamente naquela edição do Festival e nunca mais repetida). Parceiro constante também de Quentin Tarantino - seu trabalho em "Jackie Brown" (98) resultou em um prêmio no Festival de Berlim - e dono de um típico físico marcante, o ator empresta ao desiludido mas ainda esperançoso Doyle Gipson nuances que vão se avolumando com o desenrolar da narrativa: é um homem comum que se vê sem alternativa quando vê, diante de si, a possibilidade de perder tudo que lhe é mais caro. Jackson passeia com maestria entre diferentes estados de espírito - a esperança, a raiva, o desespero, a ternura, a angústia - e leva o público junto com ele por todo o caminho. O mesmo não acontece com Affleck - que ainda tem o azar de ter ficado com um personagem bem menos gostável.

Quando fez "Fora de controle", Affleck já era um nome conhecido dos cinéfilos, graças a filmes como "Gênio indomável" (que lhe deu o Oscar de roteiro original, dividido com o amigo Matt Damon), "Armageddon" (98), "Forças do destino" (99) e "Pearl Harbor" (2001), superprodução de Michael Bay que, ao invés de tornar-se um novo "Titanic", decepcionou crítica e público. Frequentado capas de revistas mais por seus casos amorosos - com as atrizes Gwyneth Paltrow e Jennifer Lopez - do que exatamente por seus dotes artísticos, Affleck é um ator que funciona razoavelmente quando bem dirigido, mas que, sob um comando menos rígido, demonstra toda a fragilidade de seu talento como ator. Roger Michell enquadra-se na segunda categoria, o que acaba por minar a potência de sua trama: quando os dois protagonistas estão juntos em cena, a fúria e o desespero de Jackson é palpável, mas tudo que vem de Affleck soa artificial e forçado. Não ajuda nem mesmo colocar como coadjuvantes atores excelentes como William Hurt, Richard Jenkins e Toni Collette (subaproveitada como uma colega de trabalho e ex-amante de Gavin): servindo apenas como peões em uma trama centrada basicamente no duelo entre os dois personagens centrais, eles não conseguem disfarçar o fato óbvio de que, com um ator com mais recursos para fazer frente à Samuel L. Jackson, nem mesmo o equívoco na hora de vender "Fora de controle" ao público seria um pecado tão mortal. Do jeito que está, o filme de Michell é um bom entretenimento, com qualidade dramática e uma história que faz pensar nos rumos de uma sociedade cada vez mais intolerante e sem empatia - mas é pouco diante do grande filme que poderia ter sido.

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