segunda-feira, 6 de março de 2017

O PESO DE UM PASSADO

O PESO DE UM PASSADO (Running on empty, 1988, Double Play, 120min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Naomi Foner. Fotografia: Gerry Fisher. Montagem: Andrew Mondshein. Música: Tony Mottola. Figurino: Anna Hill Johnstone. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Philip Smith. Produção executiva: Naomi Foner, Burtt Harris. Produção: Griffin Dunne, Amy Robinson. Elenco: Christine Lahti, Judd Hirsch, River Phoneix, Martha Plimpton, Jonas Abry, Ed Crowley. Estreia: 09/9/88

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (River Phoenix), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro 

Em 1983, o cineasta Sidney Lumet assinou o filme "Daniel", que, baseado em romance de E.L. Doctorow, inspirava-se na história real do casal Julius e Ethel Rosenberg, executado em 1953 nos EUA, acusado de traição. De uma certa forma, o tema voltou à tona na filmografia do diretor com "O peso de um passado", lançado cinco anos mais tarde e novamente com um foco mais familiar do que político. Se no filme estrelado por Timothy Hutton o protagonista embarcava em uma dolorosa jornada para descobrir os detalhes do processo que vitimou seus pais depois de uma tragédia que envolve sua irmã, na trama escrita por Naomi Foner o núcleo familiar formado por um par de militantes de esquerda e seus dois filhos precisa enfrentar uma temida realidade quando o passado começa a ameaçar o presente e o futuro - na figura de uma possível carreira musical para o talentoso primogênito, que coincidentemente está descobrindo o amor e a individualidade. Interpretado por um inspirado River Phoenix em vias de passar de promessa a ator consagrado ainda antes dos 20 anos de idade, o romântico e idealista Danny Pope acaba sendo o maior atrativo da produção, que apesar dos prêmios ao roteiro de Naomi Foner (e uma indicação ao Oscar da categoria), se ressente de um ritmo irregular e da demora em determinar seu foco.

O público demora um pouco a compreender a dinâmica da família Pope: tanto o pai, Arthur (Judd Hirsh) quanto a mãe, Annie (Christine Lahti) não demonstram claramente os motivos que os levam a mudar-se, juntamente com os filhos, a cada seis meses, deixando para trás identidades, rotinas e todos os vestígios de sua existência. Os filhos - o adolescente Danny e o pequeno Harry (Jonas Abry) - apenas seguem, sem questionar, as ordens paternas, impedidos de levar uma vida normal e dotada de qualquer aspecto de normalidade. É quando chegam em uma cidade do interior de Nova Jersey que as coisas começam a precipitar-se em suas vidas - e finalmente a plateia é informada sobre seu dramático passado, que remonta à 1971, quando, ainda jovens e esperançosos de modificar o mundo, Arthur e Annie explodiram um laboratório de napalm, atingindo um faxineiro que estava no local indevidamente. Desde então, foragidos, construíram uma vida em eterna fuga do FBI, jamais se permitindo permanecer na mesma cidade e com a mesma identidade por mais de poucos meses. De repente, como obra do destino, dois acontecimentos aleatórios ameaçam a rotina do grupo: o reaparecimento de Gus (L.M. Kit Carson), um antigo companheiro de lutas políticas e o nascimento da paixão entre Danny e Lorna (Martha Plimpton), filha de um professor de música que vê no rapaz o talento necessário para uma carreira como pianista - o que, logicamente, bate de frente com os planos a longo prazo do casal de foragidos.


Sem o brilhantismo de algumas de suas obras mais famosas - como "12 homens e uma sentença" (57) "Um dia de cão "(75), "Rede de intrigas" (76) e "O veredicto" (82), todos grandes filmes com aguda percepção da sociedade americana - Sidney Lumet não apresenta o mesmo brilhantismo em "O peso de um passado". Mesmo de posse de uma história de enorme potencial dramático, o veterano cineasta parece não sentir-se à vontade em explorar o romantismo da relação entre Danny e Lorna ou a rebeldia do rapaz quanto à imposição de uma vida nômade que finalmente passa a incomodá-lo. O tom morno da narrativa só é interrompido quando o roteiro abre espaço para o brilho de Christine Lahti, que acerta em cheio na construção de uma personagem que vai se revelando gradualmente ao espectador, até explodir em uma comovente cena em que encontra seu pai milionário, com quem rompeu ao unir-se a Arthur: é um momento de sensibilidade à flor da pele, que dialoga muito mais com a intensidade de River Phoenix do que com a frieza com que o filme vai acontecendo até então.

Indicado ao Oscar de coadjuvante - que perdeu para Kevin Kline por "Um peixe chamado Wanda" - o jovem Phoenix, que morreria precocemente poucos anos mais tarde, demonstra mais uma vez um carisma e uma naturalidade impressionantes, capazes de contagiar os colegas de cena e o público. De olhar doce e personalidade serena, ele oferece a seu personagem camadas intensas que contrastam saudavelmente com a quase frieza com que o filme é apresentado na grande maioria do tempo. Seus arroubos de espontaneidade garantem um acréscimo e tanto de interesse à uma trama que, apesar de relevante e naturalmente dramática, frequentemente entra em um estágio de monotonia e apatia que quase eclipsa suas qualidades - além de apresentar um protagonista tão chato quanto Arthur Pope, que nem mesmo o talento de Judd Hirsch consegue tornar simpático. Não é um dos melhores trabalhos de Sidney Lumet, mas graças a seu tema palpitante, a momentos pontuais de atuação de Lahti e ao carisma de Phoenix, prende a atenção até seu emocionante (ainda que um tanto abrupto) desfecho. Vale a pena dar uma chance.

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