quinta-feira, 2 de março de 2017

SABOTADOR (Saboteur, 1942, Universal Pictures, 109min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Peter Viertel, Joan Harrison, Dorothy Parker. Fotografia: Joseph Valentine. Montagem: Otto Ludwig. Música: Frank Skinner. Direção de arte/cenários: Jack Otterson/R.A. Gausman. Produção: Frank Lloyd. Elenco: Robert Cummings, Priscilla Lane, Otto Kruger, Alan Baxter, Clem Bevans, Norman Lloyd. Estreia: 22/4/42

Em 1941, Alfred Hitchcock já era um grande nome do cinema, tanto em termos de público quanto de prestígio: "Rebecca, a mulher inesquecível" tinha ganho o Oscar de melhor filme e "Suspeita" havia dado à Joan Fontaine uma estatueta de melhor atriz. Mesmo assim, com todo o prestígio de seu nome, ele ainda não podia mandar na própria carreira, e uma prova disso é "Sabotador". Emprestado por David O. Selznick a um produtor independente (que depois distribuiria o filme através da Universal Pictures), o cineasta teve que dirigir uma produção com uma atriz imposta contra a sua vontade (a insossa Priscilla Lane), um protagonista carismático mas longe de ser um astro com quem a plateia poderia realmente se importar (Robert Cummings no lugar de Henry Fonda e Gary Cooper, as primeiras escolhas do diretor) e uma história que lembrava seus anteriores "Os 39 degraus" (1935) e "Correspondente estrangeiro" (1940). Sem elementos que pudessem fazer dele mais uma obra-prima do mestre do suspense, "Sabotador" acabou ficando no meio-termo: tem muitas das qualidades que fazem de Hitchcock um mestre do gênero, mas está aquém de seus melhores trabalhos, em especial por algumas falhas pontuais que enfraquecem o resultado final.

Apesar de ter a escritora Dorothy Parker entre seus roteiristas, "Sabotador" pouco uso faz da ironia e das sutilezas que marcariam as carreiras tanto dela quanto do cineasta. Com uma narrativa convencional e uma estrutura que seria trabalhada com mais sofisticação dezessete anos depois, no bem mais popular "Intriga internacional", o quinto filme de Hitchcock em Hollywood tem um sério problema de ritmo - o que impede a total imersão da plateia nas desventuras do protagonista - e uma química ineficaz entre seus dois atores centrais, algo que nem mesmo o grande talento do diretor é capaz de disfarçar. Apesar de talentoso, Robert Cummings - que voltaria a trabalhar com Hitchcock em "Disque M para matar", de 1954 - não tinha, como o próprio mestre do suspense assumiu em suas conversas com François Truffaut, o peso necessário para dar a dimensão do drama de seu personagem, graças a um carisma mais adequado a produções leves e descompromissadas. Sabiamente acreditando que o protagonista merecia um ator de tintas mais trágicas (e também mais conhecido do público), Hitchcock percebeu ainda nas filmagens que seu filme não se tornaria um de seus melhores trabalhos - e ainda assim brinda o público com alguns momentos de pura magia cinematográfica.


Desde o início do filme, fica claro que a jornada será mais importante do que o destino, quando o senso visual de Hitchcock se sobrepõe à trama, simples e sem maiores novidades: depois de testemunhar um colega de trabalho ser vítima de um atentado e morrer queimado, o jovem Barry Keane (interpretado com garra por Robert Cummings) passa a ser considerado o principal suspeito do crime. Na sua tentativa desesperada de provar-se inocente, ele sai em fuga pelas estradas do país, contando com a ajuda (a princípio hesitante) de Patricia Martin (Priscilla Lane), por quem acaba se apaixonando. No caminho para descobrir o culpado pela tragédia que vitimou seu melhor amigo, Barry parte em busca de um misterioso Frank Fry (Norman Lloyd), com quem cruzou rapidamente antes do crime e que, segundo suas pistas, está em Nova York. Não demora para que, além da polícia, o rapaz passe a ter atrás de si também um grupo de sabotadores que, responsáveis pelo atentado, não desejam ter seus planos descobertos e frustrados - e assim, Barry se vê diante de gente poderosa e sem medo de matar para atingir seus objetivos.

Hitchcock, confirmando-se um diretor acima da média mesmo antes de tornar-se unanimidade, cria sequências mirabolantes mesmo diante de um roteiro quase pálido. O encontro de Keane com um homem cego - que ele acredita não saber de sua condição de foragido - e as cenas em que a dupla de protagonistas se vê em um vagão de trem ocupado por artistas de circo - mulher barbada, gêmeas siamesas, etc - são provas da criatividade quase sádica do cineasta, que insiste em jogar seu herói em situações aparentemente simples mas repletas de um perigo quase invisível. Uma festa cheia de convidados milionários pode não parecer uma armadilha das mais apavorantes, mas Hitchcock transforma uma delas em um assustador pesadelo. Uma visita à Estátua da Liberdade, em suas mãos, torna-se uma cena de suspense crescente - ainda que sem a mesma potência da sequência no Monte Rushmore, de "Intriga internacional". E até mesmo o encontro entre Barry e Patricia deixa no ar a dúvida se a moça é realmente de confiança - uma questão que felizmente é resolvida em pouco tempo e não deixa a história inchada demais de informações em seu desenvolvimento. No final das contas, "Sabotador" é um Hitchcock menor, mas ainda assim interessante o bastante para cativar o público e oferecer-lhe alguns momentos de extremo deleite e entretenimento de qualidade. Não há erro com o velho e bom mestre do suspense!

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