quarta-feira, 30 de junho de 2010

FLASHDANCE, EM RITMO DE EMBALO


FLASHDANCE, EM RITMO DE EMBALO (Flashdance, 1983, Paramount Pictures, 95min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Tom Hedley, Joe Eszterhas, história de Tom Hedley. Fotografia: Don Peterman. Montagem: Walt Mulconery, Bud Smith. Música: Giorgio Moroder. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Charles Rosen/Marvin March. Casting: Gretchen Rennell. Produção executiva: Peter Guber, Jon Peters. Produção: Jerry Bruckheimer, Don Simpson. Elenco: Jennifer Beals, Michael Nouri, Lilia Skala, Sunny Johnson. Estreia: 15/4/83

4 indicações ao Oscar: Fotografia, Montagem, Canção ("Flashdance... what a feeling", "Maniac")
Vencedor do Oscar de Canção ("Flashdance... what a feeling")
Vencedor de 2 Golden Globes: Trilha Sonora, Canção ("Flashdance... what a feeling")


É impressionante como, ao contrário da coragem e da ousadia do cinema americano dos anos 70, a filmografia da década de 80 conseguiu esvaziar - e muito - seu conteúdo psicológico e temático. Filmes como "Taxi driver" e "Amargo pesadelo" jamais teriam sido feitos se dependesse da visão oca de produtores como Don Simpson e Jerry Bruckheimer, que, na primeira metade da década entregaram aos frequentadores de cinema sucessos de bilheteria que não eram nada mais do que histórias de densidade dramática nulas embrulhadas em um visual atraente. Um exemplo claro disso é "Flashdance, em ritmo de embalo", que, apesar da fotografia caprichada e da trilha sonora pop cuidadosamente selecionada - e que vendeu mais de 700 mil cópias - é tão desprovido de inteligência que chega a ser constrangedor pensar que fez tanto sucesso.

"Flashdance" conta a história - se é que se pode chamar algo assim de história - de Alex Owens (Jennifer Beals com 18 anos que aparentam 25), uma jovem que sonha em ter uma carreira de dançarina e ganha a vida como soldadora (!!!). Incentivada por uma veterana bailarina, Hannah (Lilia Skala), e por uma dupla de amigos que aguardam o sucesso enquanto trabalham em bares e restaurantes, ela deseja inscrever-se em um curso profissionalizante. Enquanto isso não acontece ela inicia um romance com seu chefe, Nick Hurley (Michael Nouri). E o filme é só isso.


Quase metade do filme de Adrian Lyne (que se especializaria em projetos visualmente interessantes mas artisticamente capengas) é formado por sequências de dança, todas elas extremamente bem fotografadas, ainda que com a cara um tanto cafona dos anos 80. De cinco em cinco minutos a plateia é bombardeada com Beals e cia dançando de forma sexy em palcos, academias, em casa ou em ringues de patinação, ao som de uma trilha sonora marcante que apresenta inclusive a vencedora do Oscar cantada por Irene Cara. Os conflitos das personagens chegam a ser risíveis e é tudo tão, mas tão previsível e forçado que tem-se a impressão que o filme realmente não é pra ser levado a sério. Mas o problema é que é!

O roteiro de Joe Ezsterhas - que no início dos anos 90 ficaria rico com "Instinto selvagem" - não se dá ao trabalho de aprofundar nenhuma relação entre suas personagens, fazendo-as rasas e sem muito carisma. Nem mesmo a protagonista é suficientemente bela e/ou sensual para angariar a simpatia por méritos físicos. Não foi à toa que a carreira de Beals não decolou (sorte de Demi Moore, que quase ficou com o papel) e que Michael Nouri também não teve muito êxitos de bilheteria na sequência (e seu papel esteve em vias de ser interpretado por Kevin Costner...)

"Flashdance, em ritmo de embalo" é, na verdade, o tipo de filme que lembra uma época, que tem valor nostálgico, que serve de piada e que pode servir de telão de fundo em uma festa temática anos 80. Mas enquanto cinema não convence em momento algum. Pelo menos serviu de inspiração para Jennifer Lopez criar o vídeo-clipe "I'm glad", bem mais sensual e interessante.

terça-feira, 29 de junho de 2010

TOOTSIE


TOOTSIE (Tootsie, 1982, Columbia Pictures, 116min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Murray Schisgal, Larry Gelbart, história de Don McGuire e Larry Gelbart. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Fredrick Steinkamp, William Steinkamp. Música: Dave Grusin. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Peter Larkin/Tom Tonery. Casting: Toni Howard, Lynn Stalmaster. Produção executiva: Charles Evans. Produção: Sydney Pollack, Dick Richards. Elenco: Dustin Hoffman, Jessica Lange, Dabney Coleman, Teri Garr, Charles Durning, Sydney Pollack, Bill Murray, Geena Davis. Estreia: 17/12/82

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sydney Pollack), Ator (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Teri Garr, Jessica Lange), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Canção ("It might be you"), Som
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Jessica Lange)
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Ator/Comédia ou Musical (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Jessica Lange)


De um lado, uma história sobre um tenista que desiste da operação de mudança de sexo, contentando-se em vestir-se de mulher. Do outro, a história de um ator desempregado que encontra trabalho como atriz em uma telenovela. No meio disso tudo, a ideia do ator Dustin Hoffman de interpretar ao mesmo tempo um homem e uma mulher, vinda da época em que filmava "Kramer X Kramer". Dessa mistura de ideias surgiu uma das comédias mais brilhantes da década de 80, que misturava humor de vaudeville, romance, sátira ao feminismo e uma feroz crítica à futilidade do mundo teatral: "Tootsie", dirigida por Sydney Pollack e que recebeu generosas 10 indicações ao Oscar em 1982.

Hoffman, em mais uma brilhante interpretação, vive Michael Dorsey, um ator tão talentoso quanto genioso que atravessa um difícil período de dois anos sem trabalho. Insatisfeito com o emprego de garçom, ele sonha em produzir uma peça escrita por seu colega de apartamento, Jeff Slater (Bill Murray), mas não encontra quem queira lhe oferecer uma chance nos palcos, nem mesmo com a ajuda de seu agente (o diretor Sydney Pollack, com um segundo contra-cheque como ator). Ao acompanhar a amiga Sandy (Teri Garr) a uma audição, que vai escolher a atriz para participar de uma telenovela vespertina, ele tem ideia de vestir-se de mulher e tentar o papel. Com o nome de Dorothy Michaels, ele não apenas é contratado como torna-se um ícone dos novos direitos femininos ao enfrentar o domínio masculino no programa. Seu sucesso começa a incomodá-lo quando ele passa a ser assediado por Lesley (Charles Durning), o pai de sua colega de elenco, Julie Nichols (Jessica Lange), por quem ele se apaixona.


O quiproquó criado pelo roteiro indicado ao Oscar é de uma delícia shakespereana. Assim como em "A comédia dos erros", Michael/Dorothy se vê enredado em uma confusão que se complica a cada cena. Ao tentar aproximar-se de Julie, ele se afasta de Sandy, que tem por ele intenções bem pouco profissionais, e encara a rejeição ao ser confundida com uma lésbica. Não consegue sair do elenco da novela graças a seu êxito impressionante e um contrato milionário. E não consegue desvencilhar-se de Lesley sem revelar a ele sua verdadeira identidade. Inteligente, sarcástico e de um bom-humor contagiante, o script se aproveita do verdadeiro show de Hoffman, que pinta e borda em um papel que lhe proporciona todas as chances de mostrar - mais uma vez - seu imenso talento.

O trabalho de composição de Hoffman, aliás, é digno de figurar em qualquer antologia de grandes atuações do cinema. Não apenas o genial figurino de Ruth Morley e a maquiagem sutil mas eficaz, mas todo o conjunto criado pelo ator é impressionante. O tom da voz de Dorothy Michaels (para a qual Hoffman contou com o auxílio de Meryl Streep), seu sotaque, seu modo de andar fazem parte de um contexto que empurra o espectador em direção ao universo quase surreal proposto por Pollack. E o ator - que perdeu o Oscar para Ben Kingsley em "Gandhi" - tem a sorte suprema de contar com um elenco coadjuvante igualmente de se tirar o chapéu.

Em cena em "Tootsie", Dustin Hoffman é cercado por atores em dias inspirados, que pontuam com precisão seu espetáculo particular. Bill Murray - que improvisou todas as suas falas -, Charles Durning e Sydney Pollack estão em alguns de seus melhores momentos e Teri Garr demonstra um timing cômico irrepreensível. Jessica Lange, na pele da doce Julie Nichols teve ainda mais sorte e levou o Oscar de atriz coadjuvante no mesmo ano em que concorria também na categoria principal pelo filme "Frances". Donos de uma química perfeita, eles formam uma equipe vitoriosa que transformam o delicioso texto em uma delirante comédia romântica.

Aliás, é preciso dar grande crédito ao roteiro de "Tootsie". O seu perfeito equilíbrio entre piadas relacionadas ao mundo artístico e seu tom delicado de contar uma história de amor cativa a audiência sem apelar para risadas fáceis e nem mesmo para o piegas. É bastante sintomático, inclusive, que não haja, durante suas quase duas horas de duração, nenhum beijo entre seus protagonistas, o que não impede de forma alguma a credibilidade de seus sentimentos.

No fim das contas "Tootsie" continua se mantendo como uma das mais admiráveis comédias realizadas em Hollywood, capaz de encantar o público de hoje com a mesma sutileza de quase trinta anos atrás.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

APERTEM OS CINTOS, O PILOTO SUMIU 2


APERTEM OS CINTOS, O PILOTO SUMIU II (Airplane II: The Sequel, 1982, Paramount Pictures, 85min) Direção e roteiro: Ken Finkleman. Fotografia: Joe Biroc. Montagem: Tina Hirsch, Dennis Virkler. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Rosanna Norton. Direção de arte/cenários: William Sandell/Robert Gould. Casting: Lisa Freiberger. Produção: Howard W. Koch. Elenco: Robert Hays, Julie Hagerty, Lloyd Bridges, Peter Graves, William Shatner, Raymond Burr, Rip Torn. Estreia: 10/12/82

Entusiasmados com o enorme sucesso de seu filme "Apertem os cintos, o piloto sumiu", lançado em 1980, seu trio de diretores conhecido por ZAZ (Jerry Zucker, Jim Abrahams e David Zucker) imediatamente concordou com a ideia de uma sequência - fato que não era ainda a febre que é hoje. Quando eles desistiram do projeto, no entanto, a ideia não foi descartada. Com Ben Finkleman no comando, "Apertem os cintos 2" estreou com bem menos estardalhaço do que seu capítulo original, o que jogou no lixo a pretensão de uma trilogia. Apesar disso, seu fracasso comercial não deixa de ser injusto, uma vez que mantém o tom debochado e o humor nonsense do primeiro filme, ainda que sem os seus lampejos de criatividade e o senso de novidade. No final das contas, é um filme bastante divertido, um entretenimento passageiro capaz de animar uma tarde chuvosa sem exigir muito do cérebro.

Enquanto o filme original lidava com um envenamento alimentar que impedia a tripulação de um avião a continuar a viagem, obrigando um veterano de guerra a assumir o controle da aeronave, dessa vez a trama gira em torno do primeiro vôo comercial terrestre em direção à Lua. O protagonista do primeiro filme, Ted Striker (Robert Hays) se vê novamente no comando da situação quando uma pane na fiação do avião o força a reviver o pesadelo que de certa forma separou-o da mulher que ama, a comissária de bordo Elaine (Julie Hagerty), agora promovida a assistente de informática da nave e noiva de um comandante que deseja vê-la como dona de casa.


"Apertem os cintos, o piloto sumiu 2" é mais do mesmo. Piadas verbais intraduzíveis - e muitas vezes engraçadíssimas - dividem espaço com gags visuais que acontecem até mesmo em segundo plano. Atores conhecidos tiram sarro da própria imagem (Lloyd Bridges repete o papel do primeiro filme e William Shatner rouba a cena sempre que aparece). Situações absurdas se equilibram com piadas tão infames que chegam a ser brilhantes. E citações a sucessos de bilheteria estão presentes a toda hora (de cara nota-se referências a "ET", "Rocky", "Star wars", "Star trek" e "2001").

Mesmo que jamais possa ser considerado uma obra-prima - até mesmo porque, como já foi dito, não tem o mesmo sabor de novidade do primeiro filme - "Apertem os cintos 2" é um passatempo ligeiro que cumpre exatamente o que promete: boas risadas politicamente incorretas em pouco menos de uma hora e meia de duração.

domingo, 27 de junho de 2010

GANDHI


GANDHI (Gandhi, 1982, Columbia Pictures, 191min) Direção: Richard Attenborough. Roteiro: John Briley. Fotografia: Ronnie Taylor, Billy Williams. Montagem: John Bloom; Música: Ravi Shankar. Figurino: Bhanu Athaiya, John Mollo. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Michael Seirton. Casting: Susie Figgis. Produção executiva: Michael Stanley-Evans. Produção: Richard Attenborough. Elenco: Ben Kingsley, Candice Bergen, Edward Fox, John Gielgud, Trevor Howard, John Mills, Martin Sheen, Nigel Hawthorne. Estreia: 08/12/82

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Richard Attenborough), Ator (Ben Kingsley), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte, Maquiagem, Som
Vencedor de 8 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Richard Attenborough), Ator (Ben Kingsley), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de arte
Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme Estrangeiro, Ator/Drama (Ben Kingsley), Diretor (Richard Attenborough), Roteiro, Melhor Estreia Masculina (Ben Kingsley)


Mahatma ("Grande Espírito") Gandhi foi uma das personaliades mais fascinantes do mundo, um advogado inteligente e sensível que, baseado em sua filosofia de não-violência liderou a batalha pela independência da Índia das mãos do império britânico. Assassinado em 1948, tornou-se símbolo da luta pela paz e pela igualdade. E é a personagem principal da cinebiografia que, dirigida por Richard Attenborough, foi um dos maiores papa-Oscar da década de 80. Disputando o prêmio máximo com obras como "ET", de Steven Spielberg e "Tootsie", de Sydney Pollack (ambos grandes sucessos de bilheteria), "Gandhi" levou a a estatueta de Melhor Filme e foi premiado em outras sete categorias. Prova tanto do poder de seu gênero - cinebiografias épicas - em fascinar a Academia quanto da beleza e da importância de sua história.

Projeto de estimação do diretor inglês Attenborough (que dez anos mais tarde comandaria o menos bem-sucedido "Chaplin"), a biografia do pacifisita indiano não despertou muito interesse dos estúdios hollywoodianos, o que o obrigou a recorrer a artifícios variados, como vender sua parte dos direitos sobre a peça de teatro "A ratoeira", de Agatha Christie. Além de comprometer-se em dirigir outros dois filmes para o produtor Joseph E. Levine, ele contou com a ajuda do amigo e produtor executivo Jake Eberts e de companhias de cinema inglesas. O custo do filme, de 22 milhões de dólares foi coberto - principalmente depois dos Oscar, quando sua bilheteria chegou perto de 53 milhões. Comparando com "ET", por exemplo, que rendeu mais de 300 milhões não chega a ser uma marca impressionante, mas o é levando-se em consideração vários aspectos de sua natureza.



Primeiro, "Gandhi" não é um filme de puro entretenimento. Apesar de ser tranquilamente recomendável para qualquer idade, uma vez que não abusa de violência desnecessária nem tampouco utiliza de sexo e palavrões para conquistar uma audiência menos intelectualizada, o filme de Attenborough é bastante lento (dura mais de três horas), tem um assunto um bocado específico (e muitas vezes exige um certo conhecimento histórico do público) e foge do tradicional "final edificante e moralizador", uma vez que o filme todo passa uma mensagem de paz e tolerância. "Gandhi" é um filme adulto, feito para adultos e com intenções bem mais nobres do que simplesmente angariar fortunas. E nesse objetivo ele acerta magistralmente.

Tecnicamente "Gandhi" é uma maravilha. Belissimamente fotografado e com uma reconstituição histórica e épica impecáveis, é um trabalho cuidadoso, feito notadamente com um carinho e uma dedicação raras. Narrado de forma quase didática, a trajetória de seu protagonista em direção a uma Índia mais igualitária e menos opressiva tenta seduzir sua audiência pela beleza, pela delicadeza, pela sinceridade, e para isso conta com uma atuação irretocável de Ben Kingsley, ele próprio descendente de indianos. Ao ficar com o papel cobiçado por Alec Guinness, Anthony Hopkins, John Hurt e até mesmo Dustin Hoffman (!!) ele entregou uma interpretação quase mediúnica de Gandhi, um trabalho inesquecível e comovente.

"Gandhi" não é um filme perfeito. Muitas vezes um tanto cansativo - culpa talvez do roteiro que insiste em mostrar prisões e greves de fome de sua personagem central repetidas vezes -, é uma obra que exige de sua plateia uma dedicação e uma entrega maiores do que o que acontece normalmente. Mas é, sem sombra de dúvida, um filme que precisa ser visto e aplaudido, pelo que ele é e principalmente pela personalidade que retrata.

sábado, 26 de junho de 2010

BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDROIDES


BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDROIDES (Blade Runner, 1982, Warner Bros, 117min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Hampton Fancher, David Peoples, conto "Do androids dream of eletric sheep?", de Philip K. Dick. Fotografia: Jordan Cronenweth. Montagem: Gillian L. Hutsching. Música: Vangelis. Figurino: Michael Kaplan, Charles Knode. Direção de arte/cenários: Lawrence G. Paull/Linda DeScenna. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff. Produção executiva: Hampton Francher, Brian Kelly. Produção: Michael Deeley. Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, Daryl Hannah, M. Emmet Walsh, Joanna Cassidy. Estreia: 25/6/82

2 indicações ao Oscar: Direção de arte, Efeitos Visuais

Definitivamente, quando o assunto é cinema, o tempo é um santo remédio. Quando estreou nos EUA, em 1982, o filme "Blade Runner, o caçador de androides" foi um fiasco de bilheteria (mesmo estrelado pelo Indiana Jones em pessoa Harrison Ford) e praticamente expulso das salas de exibição devido a críticas negativas. Mesmo tornando-se cult por parte do público, entraria para a história como um dos maiores fracassos da história se, no final da década não fosse descoberta a cópia de uma outra versão do filme, sem as interferências do estúdio no trabalho de seu diretor, Ridley Scott. Essa nova versão tornou-se quase uma lenda urbana, e dez anos depois de sua estreia, voltou às telas de cinema e finalmente recebeu os aplausos que sempre mereceu. Hoje já é reconhecido como uma das obras-primas de seu gênero.

Gênero, aliás, é algo não extremamente rígido em se tratando de "Blade Runner". Apesar de ser nitidamente uma ficção científica - com tudo que isso lhe dá de direito - a visão de Scott (vindo direto do sucesso de "Alien, o oitavo passageiro") dialoga diretamente com os filmes noir que fizeram a glória do cinema americano dos anos 40. Tudo devido ao excelente roteiro inspirado livremente no conto "Do androis dream of eletric sheep?", de Philip K. Dick, que mistura elementos de uma trama policial a uma visão distópica da sociedade do futuro. Passado na Los Angeles de 2019 (ao contrário do conto original, que situava sua trama em 1992), "Blade Runner" mostra uma Terra ultrapovoada, úmida e claustrofóbica que há muito já coloniza outros planetas, através de escravos criados com as principais características humanas, mas com sua força e agilidade redobradas. Esses robôs são chamados "replicantes" e um motim deles deflagra uma caçada violenta e impiedosa, uma vez que suas mortes não são chamadas de assassinato e sim de "aposentadoria". Essa rebelião faz com que um grupo de replicantes volte à Terra e um antigo caçador de androides, Deckard (Harrison Ford) seja chamado para eliminá-los. Em seu caminho, ele conhece a bela Rachael (Sean Young), secretária da imponente Tyrrell Corporations - que fabrica os replicantes - e se apaixona por ela, mesmo sabendo que ela não é humana. Ao mesmo tempo que lida com isso, ele chega mais e mais perto do líder da rebelião dos robôs, o temido Roy Batty (Rutger Hauer) e passa a questionar sua missão.


O mais impressionante no resultado final de "Blade Runner" é que, qualquer que seja a versão a ser assistida ele continua sendo magicamente fascinante. A narração em off da versão lançada em 1982, mesmo sendo desprezada por Harrison Ford, acrescenta um toque a mais de noir à trama e só peca por seu final feliz exigido pela Warner. A versão do diretor é mais "artística", com o acréscimo de alguns detalhes que fomentam a discussão crucial do filme: afinal de contas Deckard era ou não um replicante, também? Nenhuma conclusão definitiva pode ser considerada, uma vez que nem mesmo os criadores do filme chegam a um consenso. É preciso ver, rever e examinar com cuidado cada cena criada por Scott e companhia para que se tente chegar a um veredicto. Mas será que isso realmente importa?

"Blade Runner", mais do que um filme sobre um homem caçando androides em um futuro nada auspicioso, é uma bela reflexão sobre os elementos que fazem o ser humano ser "humano", sobre a liberdade, sobre o amor e principalmente sobre a ambição dos homens em brincar de Deus. Ao inserir filosofia em uma trama que normalmente passaria como uma ficção científica com o objetivo de arrecadar fortunas, o inglês Ridley Scott brindou os fãs de cinema com um um filme de uma perenidade inegável. A bela trilha sonora de Vangelis, sua direção de arte high-tec mas nunca exagerada e a fotografia quase palpável de Jordan Cronenweth o elevam acima do corriqueiro. E não deixa de ser saudável perceber que, no mesmo ano em que "ET" - um filme puramente de entretenimento que utilizava elementos de ficção científica para emocionar sem exigir demais do cérebro - foi lançado, tenha chegado às telas um petardo como este, que não apenas faz pensar como ainda não busca a emoção fácil.

"Blade Runner" é, sim, uma obra-prima. Independente da leitura que se faça de suas intenções, é um filme que conseguiu sair do limbo dos fracassos comerciais para o paraíso do reconhecimento tardio. Afinal, nunca é tarde para reconhecer-se erros de julgamento...

sexta-feira, 25 de junho de 2010

ET, O EXTRA-TERRESTRE


ET, O EXTRATERRESTRE (ET, the extra-terrestrial, 1982, Universal Pictures, 115min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Melissa Mathison. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: Carol Littleton. Música: John Williams. Direção de arte/cenários: James D. Bissell/Jackie Carr. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff. Produção: Kathleen Kennedy, Steven Spielberg. Elenco: Henry Thomas, Dee Wallace, Drew Barrymore, C. Thomas Howell, Peter Coyote, Robert MacNaughton. Estreia: 11/6/82

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais
Vencedor de 4 Oscar: Trilha Sonora, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora


De vez em quando, para se gostar de um filme, é necessário deixar de lado a razão e embarcar na proposta do diretor. É o que acontece com “ET, o extra-terrestre”, sucesso absoluto de Steven Spielberg. Quem começar o filme esperando ver uma ficção científica com elocubrações filosóficas sobre a origem do universo, vai perder duas horas da vida. Mas quem entrar no espírito da coisa e baixar a guarda provavelmente sairá da sessão com lágrimas nos olhos e uma sensação de paz e serenidade no coração. Exagero? Vai dizer isso pras milhões de pessoas que lotaram os cinemas mundo afora e se emocionaram a valer com a história da amizade entre o menino Elliot (Henry Thomas) e seu extra-terrestre de estimação.

Elliot, o protagonista do filme, é uma criança como outra qualquer. Ainda sofrendo com a separação dos pais, ele sente-se rejeitado pelo irmão mais velho e, sem ter amigos da sua idade para brincar, ele encontra, na garagem de sua casa, um extra-terrestre que ficou na Terra por engano. A princípio temeroso, aos poucos o menino deixa-se levar pelo carinho que sente por ET e o apresenta a sua irmãzinha Gertie (Drew Barrymore) e ao resto de sua família. A coisa começa a ficar complicada quando agentes do governo descobrem a existência do ser alienígena e resolvem caçá-lo. É a partir daí que a genialidade de Spielberg se revela.


Ao eleger a inocência infantil como a maior qualidade que um ser humano ou extra-terrestre pode ter, o diretor optou por rotular os adultos (que, com exceção da mãe de Elliot não tem seus rostos mostrados até o terço final) como vilões e, sem que se perceba de imediato, o público já voltou à infância, está torcendo por Elliot e sua turma e de jeito nenhum fica questionando se bicicletas podem voar. Por um par de horas o público, da idade que for, volta a ser criança. E a câmera, sempre do ponto de vista infantil, só ajuda no efeito, assim como a inesquecível música de John Williams.

“ET” levou quatro Oscar pra casa: efeitos visuais, trilha sonora, efeitos sonoros e som. Não ficou com a estatueta de melhor filme, que foi parar nas mãos da “adulta e séria” cinebiografia de Mahatma Gandhi. Os fãs da pequena obra-prima de Spielberg, no entanto não se importam. Crianças, de idade e de alma, não se importam com prêmios e sim com o que fica em sua memória. E não há quem assista a “ET” e esqueça de sua bela história, que, a despeito dos inspirados efeitos especiais, se mantem como seu principal ingrediente.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

POLTERGEIST, O FENÔMENO


POLTERGEIST, O FENÔMENO (Poltergeist, 1982, MGM Pictures, 114min) Direção: Tobe Hopper. Roteiro: Steven Spielberg, Michael Grais, Mark Victor, história de Steven Spielberg. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Montagem: Michael Kahn. Música: Jerry Goldsmith. Direção de arte/cenários: James H. Spencer/Cheryal Kearney. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff. Produção: Frank Marshall, Steven Spielberg. Elenco: Jobeth Williams, Craig T. Nelson, Beatrice Straight, Heather O'Rourke, Dominique Dunne, Oliver Robins, Zelda Rubinstein. Estreia: 04/6/82

3 indicações ao Oscar: Trilha Sonora, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais

Houve uma época, nos primórdios de Hollywood em que quem dava as cartas era o produtor. Pois é o que parece acontecer em “Poltergeist, o fenômeno”. Mesmo sendo assinado pelo diretor Tobe Hopper, ele passa a nítida impressão de que é um produto típico de seu produtor, Steven Spielberg, na época colhendo os louros do sucesso de "Os caçadores da arca perdida" e em vias de estrear o ainda mais bem-sucedido "ET, o extra-terrestre". Quando o filme acaba, depois de duas horas de um ritmo acelerado e tenso, fica na cara quem foi que deu a palavra final em sua realização. Dono de um estilo facilmente identificável, Spielberg deixa sua marca inconfundível em cada momento do filme, um grande sucesso de bilheteria que busca sua maior inspiração nos antigos filmes de terror que contavam, como elemento central, com uma casa mal-assombrada.

Os protagonistas de "Poltergeist" são uma tipica família classe-média americana. O pai, Steven (Craig T. Nelson) trabalha em construção civil, e a mãe, Diane (Jobeth Williams) dedica-se ao lar e aos três filhos. Eles moram um bucólico subúrbio americano (primeiro sinal da presença de Spielberg na concepção do projeto) e são um exemplo perfeito de um núcleo familiar saudável e feliz - mesmo que, de vez em quando, os pais ainda tentem resgatar sua juventude através de baseados fumados sorrateiramente em seu quarto. A família Freeling vive suas vidas de forma tranquila e organizada até que acontecimentos sobrenaturais começam a surpreendê-los. Cadeiras passam a mover-se sozinhas, talheres entortam, portas se abrem sozinhas. A transição entre "interessante" e "apavorante" acontece quando, depois de uma noite de tempestade, a caçula da família, Carol Anne (Heather O'Rourke) desaparece misteriosamente e, para espanto geral, parece estar presa em uma outra dimensão, cujo canal de contato é o aparelho de televisão. Contando com a ajuda de parapsicólogos (entre eles a ótima veterana Beatrice Straight e a bizarra Zelda Rubinstein como Tangina), eles tentam recuperar a menina, enquanto revelações sobre a maneira como a casa foi construída explicam os motivos de toda a desgraça que se abate sobre a família.


Na verdade, "Poltergeist" É um filme de Steven Spielberg, que não pôde assiná-lo porque o sindicato dos diretores não permitia, na época de seu lançamento, que um cineasta trabalhasse em dois projetos simultaneamente - e "ET" estava sendo realizado ao mesmo tempo. Isso explica porque, por exemplo, apesar de ser um filme de terror na acepção mais clássica do termo, não haja, nele, nenhuma morte ou nenhuma cena excessivamente violenta. É um filme de terror feito para a família e, dentro desse universo um tanto limitado, uma pequena obra-prima.

Não há como negar que “Poltergeist” é um dos melhores filmes de terror dos anos 80. Seu clima soturno, sublinhado pela trilha sonora de Jerry Goldsmith, tem seus momentos de tensão valorizados pelos ótimos Jobeth Williams e Craig T. Nelson, escolhidos para o elenco por não serem astros e convencerem mais como gente normal - e é bom lembrar que a pequena Heather O'Rourke, que interpreta a inesquecível Carol Anne ficou com o papel porque a outra finalista, Drew Barrymore, não parecia tão angelical. Barrymore ficou com o papel de Gertie em "ET" e mantém uma carreira ativa. O'Rourke morreu em 1988, vítima de uma doença no intestino, dando seguimento a boatos que diziam que o filme estava amaldiçoado (boatos esses que começaram com o assassinato, aos 22 anos, meses depois da estreia, da atriz Dominique Dunne, que vivia a filha mais velha dos Freeling)

No entanto, há algo que incomoda em "Poltergeist": a profusão de efeitos especiais esvazia a trama desnecessariamente. A opção em contar visualmente o que poderia ter sido imaginado tem a cara de Spielberg e de certa forma diminui o impacto que a história interessante poderia ter se fosse menos explícita graficamente. Como está, “Poltergeist, o fenômeno” é um belo conto de terror, mas que não assusta mais do que um passeio de montanha-russa.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

NUM LAGO DOURADO


NUM LAGO DOURADO (On golden pond, 1981, Universal Pictures, 109min) Direção: Mark Rydell. Roteiro: Ernest Thompson, baseado em sua peça teatral homônima. Fotografia: Billy Williams. Montagem: Robert L. Wolfe. Música: Dave Grusin. Figurino: Dorothy Jeakins. Direção de arte/cenários: Stephen Grimes/Jane Bogart. Casting: Dianne Crittenden, Barry Primus. Produção: Bruce Gilbert. Elenco: Henry Fonda, Katharine Hepburn, Jane Fonda, Doug McKeon, Dabney Coleman. Estreia: 04/12/81

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mark Rydell), Ator (Henry Fonda), Atriz (Katharine Hepburn), Atriz Coadjuvante (Jane Fonda), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Som
Vencedor de 3 Oscar: Ator (Henry Fonda), Atriz (Katharine Hepburn), Roteiro Adaptado
Vencedor de 3 Golden Globes: Filme/Drama, Ator/Drama (Henry Fonda), Roteiro


Existem no mínimo dois motivos para que o filme "Num lago dourado" tenha sido feito. Primeiro, para registrar em película o emocionante encontro entre duas gerações de uma nobre linhagem do cinema americano (que vivem na tela um interessante paralelo do que viviam na realidade) e para dar a Henry Fonda, aos 76 anos de idade, sua maior chance de levar um Oscar. O primeiro objetivo foi atingido plenamente: ao lado da filha Jane, de forma comovente, o veterano ator exorcisa uma difícil relação familiar em frente à plateia de forma comovente. E no resultado do segundo motivo saiu-se ainda melhor: não só Fonda levou a estatueta como sua companheira de cena, Katharine Hepburn arrebatou seu quarto Oscar, estabelecendo um recorde que não dá sinais de ser batido tão cedo.

Escrito pelo dramaturgo Ernest Thompson baseado em sua peça teatral homônima, o roteiro de "Num lago dourado" versa sobre assuntos normalmente considerados venenos de bilheteria, como velhice, medo da morte e relações familiares problemáticas. Totalmente escorado no trabalho de atores e em seus diálogos bem escritos, em detrimento de efeitos visuais e piadas infames (que já na época de seu lançamento faziam a alegria dos estúdios), o filme de Mark Rydell conquista justamente pela simplicidade de seu enredo e pela felicidade na escalação de seu elenco. Ao contrário de aborrecer o público com falas inflamadas e lugares-comuns, "Num lago dourado" oferece à plateia um espetáculo de delicadeza e bom gosto, que exige apenas um mínimo de sensibilidade para emocionar a audiência sem apelar para golpes baixos.

A trama do filme se passa no verão em que Norman Thayler Jr (vivido com sutileza por Henry Fonda em seu último papel) completa 80 anos. Irascível, rabugento e sem maiores admirações pelos seres humanos em geral, ele chega até sua casa de verão com a dedicada esposa Ethel (Katharine Hepburn) pra comemorar seu aniversário e afastar-se do turbilhão da cidade grande. Logo em seguida sua única filha, Chelsea (Jane Fonda) também chega ao local, acompanhada do novo namorado, Bill Ray (Dabney Coleman) e do filho deste (Doug McKeon), um menino de 13 anos de idade, rebelde e pouco amistoso. Fica patente para os visitantes que a relação entre pai e filha não é das mais saudáveis, mas mesmo assim tudo transcorre dentro da normalidade. As coisas mudam de figura quando Chelsea pede aos pais que fiquem cuidando de seu futuro enteado enquanto ela viaja com Bill Ray. O que poderia ser uma temeridade, no entanto, acaba ajudando tanto o menino, que torna-se mais afável, quanto o próprio Norman, que vê no rapaz o neto que nunca teve.


A maior beleza de "Num lago dourado", além de sua fotografia deslumbrante, é a maneira com que o roteiro de Thompson trata suas personagens. Abdicando de qualquer condescendência, ele criou personagens dolorosamente reais, repletos das qualidades e defeitos de qualquer ser humano. Norman é um homem amargurado, chato, de uma misantropia quase patológica, mas ao mesmo tempo se envolve em uma relação de amizade e amor com um pré-adolescente que busca aceitação e carinho. E sua filha, uma mulher fechada em suas mágoas de infância tenta desesperadamente conquistar a admiração de um pai do qual nunca teve mais do que críticas. No meio deles, uma mãe carinhosa e amorosa que luta para uní-los através dos laços de sangue.

É inegável que "Num lago dourado" ganha muito com os embates verbais entre os dois Fonda de seu elenco, ambos vibrantes e à flor da pele. Mas é injusto não aplaudir também a química entre o bom e velho Henry e o menino Doug McKeon (que, a despeito de seu bom trabalho não conseguiu uma carreira decente em Hollywood): as cenas entre os dois transmitem uma ternura quase palpável, que emociona sem ser piegas. E emocionante, aliás, é um eufemismo para o que acontece quando Fonda e Katharine Hepburn estão juntos. O último ato do filme, em que o velho casa volta a ficar sozinho em casa depois da partida de seus convidados é de uma pungência ímpar. Sem recorrer a truques sujos para tentar a emoção do espectador, o texto de Thompson e a direção elegante de Mark Rydell atingem o máximo de beleza ao deixar que seus intérpretes brilhem ao máximo. E eles dão um show à parte, provando que talento definitivamente não envelhece.

    terça-feira, 22 de junho de 2010

    CORPOS ARDENTES


    CORPOS ARDENTES (Body heat, 1981, Warner Bros, 113min) Direção e roteiro: Lawrence Kasdan. Fotografia: Richard H. Kline. Montagem: Carol Littleton. Música: John Barry. Figurino: Renie Conley. Direção de arte/cenários: Bill Kenney/Rick T. Gentz. Casting: Wally Nicita. Produção: Fred T. Gallo. Elenco: William Hurt, Kathleen Turner, Richard Crenna, Mickey Rourke, Ted Danson, J.A. Preston, Kim Zimmer. Estreia: 28/8/81

    No início da década de 80, antes mesmo que o termo "erotic thriller" fosse cunhado e se tornasse quase um subgênero dentro da indústria hollywoodiana, o roteirista Lawrence Kasdan (autor de, entre outros, "Os caçadores da Arca perdida") incendiou o cinema americano com "Corpos ardentes", uma releitura de um estilo caro na década de 40 mas que estava sumido das telas há um bom tempo: os filmes noir. Ao acrescentar tórridas cenas de sexo a uma trama repleta de reviravoltas, sombras, personagens amorais e uma sedutora mulher fatal, o cineasta conseguiu, em sua estreia como diretor, ressuscitar um gênero considerado morto e revelar ao mundo a então estonteante Kathleen Turner.

    A trama de "Corpos ardentes" se passa em um escaldante verão na cidade litorânea de Miranda Beach, perto de Miami. É durante essa onda de calor intenso que o advogado mulherengo e pouco ético Ned Racine (William Hurt) conhece e fica fascinado pela bela Matty Walker (Kathleen Turner), uma mulher casada que o envolve facilmente com seu poder de sedução. Não demora muito e logo os dois estão vivendo um tórrido romance baseado em sexo e desejo desmedido. Quando resolvem se livrar do marido de Matty, planejam com cuidado seu assassinato. Logicamente, as coisas não saem como o esperado e Ned se vê no meio de uma perigosa trama que pode levá-lo à prisão.


    "Corpos ardentes" é um filme que merece ser visto e revisto. O roteiro de Kasdan consegue equilibrar um texto com diálogos saborosos, personagens bastante interessantes (inclusive um advogado dançarino vivido pelo novato Ted Danson e um especialista em explosivos interpretado por um jovem Mickey Rourke) e viradas qye prendem o espectador na poltrona sem apelar para cartas tiradas da manga. A fotografia calorosa transmite a exata noção das altas temperaturas que empurram suas personagens ao crime e à paixão, emulando com perfeição as principais características do estilo de cinema que legou à história clássicos como "Pacto de sangue", do genial Billy Wilder.

    A trilha sonora de John Barry, tonitruante e sempre presente nos momentos cruciais da trama também se destaca por nunca atrapalhar o desenvolvimento da história, por si só forte o suficiente para envolver a plateia. As personagens centrais, por sua vez, são sensacionais: Ned Racine é um advogado mau-caráter, blasé, cafajeste ao extremo e metido a don juan que acaba em uma teia que o joga em um pesadelo sem fim e Matty Walker é o sonho de qualquer atriz que saiba usar o corpo sem parecer vulgar e a voz de veludo sem soar clichê. Fria, calculista e extremamente envolvente, ela seduz não apenas Ned Racine, mas todo o público, que se deixa levar por seu belo sorriso. A cena em que William Hurt quebra uma janela apenas para beijá-la é o ápice de todo o tesão que Kasdan deseja transmitir em sua obra. À plateia resta apenas segurar a respiração.

    "Corpos ardentes" é um exemplar muito digno dos chamados "erotic thrillers", lançado em uma época em que as histórias e os climas eram mais importantes do que o sexo pelo sexo. A química entre William Hurt e Kathleen Turner é das mais fascinantes e é utilizada com generosidade por Kasdan, confiante no talento e no carisma do casal. Um filme que precisa ser redescoberto.

    segunda-feira, 21 de junho de 2010

    OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA


    OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA (Raiders of the lost ark, 1981, Paramount Pictures, 115min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Lawrence Kasdan, história de George Lucas e Philip Kaufman. Fotografia: Douglas Slocombe. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Deborah Nadoolman. Direção de arte/cenários: Norman Reynolds/Michael Ford. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Mary Selway. Produção executiva: Howard Kazanjian, George Lucas. Produção: Frank Marshall. Elenco: Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman, Ronald Lacey, John Rhys-Davies, Denholm Elliot, Alfred Molina. Estreia: 12/6/81

    8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som, Efeitos Visuais
    Vencedor de 4 Oscar: Montagem, Direção de arte, Som, Efeitos Visuais

    Quando criança, Steven Spielberg adorava aqueles filmes de ação em capítulos que passavam nos cinemas e que tinha como mocinho um herói imbatível e corajoso que vivia se metendo em situações impossíveis de contornar, mas dos quais, como personagem de cinema escapista que era, conseguia sair-se são e salvo. Foi pensando nesses super-heróis humanos e quase verdadeiros que Spielberg criou Indiana Jones, o protagonista de “Os caçadores da Arca Perdida”, filme que pode ser descrito sem medo como o melhor filme de ação de todos os tempos.

    Indiana Jones, vivido com propriedade e estilo por um Harrison Ford que ficou com o papel depois que Tom Selleck viu-se obrigado a declinar do mesmo por causa da série de TV “Magnum”, é um arqueólogo que complementa sua renda como professor universitário. Em 1936, conceituado em sua profissão, ele é procurado para encontrar a Arca da Aliança, que, segundo reza a lenda, abriga as Tábuas da Lei, ou seja, os Dez Mandamentos da lei de Deus. Tudo seria razoavelmente fácil se a Arca também não fosse cobiçada pelos nazistas, uma vez que o artefato religioso dá poderes totais a quem a possui. Contando com a ajuda de sua ex-namorada Marion (Karen Allen), que ainda nutre por ele um amor disfarçado de desprezo e raiva, Jones parte para o deserto da África em busca de sua missão. Na sua cola, seu maior rival, o ganancioso Belloq (Paul Freeman).

    Alucinante desde sua primeira seqüência, onde Spielberg apresenta o personagem de Jones e com um ritmo impecável, “Os caçadores da Arca Perdida” é o exemplo perfeito de um filme de aventura para toda a família. Sem deixar de preocupar-se com a qualidade do roteiro e com a história que é contada, o diretor mal dá tempo para o público respirar entre uma correria e outra e ainda entrega diálogos engraçados e bem escritos, cortesia de Lawrence Kasdan (diretor do noir “Corpos ardentes”). Contando ainda com efeitos visuais eficientes e utilizados nos momentos certos, Spielberg dá uma aula de como fazer entretenimento de qualidade sem deixar de lado inteligência e personalidade.

    É impressionante como Kasdan (que contou com uma pequena ajuda de George Lucas) e Spielberg conseguem captar a essência de um estilo próprio (os filmes seriados dos primórdios do cinema) e fazê-lo tornar-se de uma atemporalidade inquestionável. Dificilmente algum espectador de "Caçadores..." poderá reclamar de seu ritmo (uma vez que a ação não para em momento algum), de sua inteligência (a trama se sustentaria até mesmo como um filme de espionagem), de seu senso de humor (há piadas sutis realmente engraçadas e não forçadas) ou de seu visual (a produção é caprichada e de extremo bom-gosto). Até mesmo a violência da história é velada, o que o faz também indicado a um público bastante jovem (para o que o carisma de Ford, no papel mais marcante de sua carreira apenas colabora com uma felicidade ímpar).

    Indicado para o Oscar de melhor filme, “Caçadores da Arca Perdida” perdeu a estatueta para o inglês “Carruagens de fogo”, mas saiu da cerimônia com cinco prêmios, todos amplamente merecidos: direção de arte, montagem, som, efeitos sonoros e efeitos visuais. Cinema escapista de primeira linha, a aventura de Indiana Jones merece o sucesso que fez. Pena que nem todos filmes de ação são assim

    domingo, 20 de junho de 2010

    TOURO INDOMÁVEL


    TOURO INDOMÁVEL (Raging bull, 1980, United Artists, 129min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Paul Schrader, Mardik Martin, baseado no livro de Jake LaMotta, com Joseph Carter e Peter Savage. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: John Boxer, Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Phil Abramson, Fred Weiler. Casting: Cis Corman. Produção: Robert Chartoff, Irwin Winkler. Elenco: Robert DeNiro, Joe Pesci, Cathy Moriarty, Frank Vincent. Estreia: 19/12/80

    8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator (Robert DeNiro), Ator Coadjuvante (Joe Pesci), Atriz Coadjuvante (Cathy Moriarty), Fotografia, Montagem, Som
    Vencedor de 2 Oscar: Ator (Robert DeNiro), Montagem
    Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Robert DeNiro)


    O cineasta Martin Scorsese declarou em várias entrevistas que não entende absolutamente nada sobre boxe. A julgar por “Touro indomável”, sua cinebiografia do lutador peso-médio Jake La Motta, isso não faz a menor diferença. Se tivesse sido dirigido por um expert no esporte, o filme dificilmente seria tão bom. E se tivesse outro diretor no comando provavelmente não teria Robert De Niro como protagonista. E é aí que está a grande diferença entre um filme sobre esporte e uma obra-prima sobre a auto-destruição que Scorsese entregou ao público.

    Jake La Motta é um personagem real. Criado no Bronx, assim como Scorsese e o astro De Niro, ele viveu seu auge nos ringues no final dos anos 40 e início dos 50, até começar um processo de auto-destruição que o levou a ser preso por sedução de uma menor de idade e acabar seus dias de glória como comediante em bares de segunda classe. A sua história interessou Robert De Niro, que levou seis anos para convencer Scorsese a filmar sua trajetória. A espera valeu a pena. Poucas vezes foi vista na tela uma obra tão visceral, cruel e energética como “Touro indomável”.


    Na pele de La Motta, De Niro desaparece. O que se vê em cena não é um ator no auge de seu domínio técnico e emocional, que engordou mais de vinte quilos para ilustrar a decadência física de seu personagem. O que se vê é um homem emocionalmente frágil e inseguro, capaz de espancar o próprio irmão (Joe Pesci, impressionante) e a mulher (a estreante Cathy Moriarty, indicada ao Oscar) por duvidar de sua fidelidade e entregar uma luta para depois chorar inconsolável ao perceber seu erro. Ao sumir sob a pele de La Motta o ator preferido do cineasta Scorsese dá uma aula de interpretação, premiada merecidamente com o Oscar.

    Quem também ganhou o Oscar foi a edição, perfeita, de Thelma Schoonmaker. Ágil quando necessária, quase contemplativa em outros momentos, a montagem de Schoonmaker ajuda o cineasta a contar sua história, utilizando para isso a fotografia em preto-e-branco nunca aquém de espetacular do veterano Michael Chapman, que perdeu injustamente a estatueta. Nas mãos de Schoonmaker e Chapman, o sangue jorra dos corpos dos lutadores de forma poética, mas ainda de uma violência cruel. Somada à fotografia e à edição, a direção de Scorsese beira o sublime. Nenhuma cena é desnecessária, nenhum ângulo é por acaso, nenhum diálogo é jogado sem uma função específica, mesmo quando improvisado por seus atores. Ao comparar um homem em crise com sua auto-estima a um animal enjaulado, em uma das cenas finais de seu filme, Scorsese mostra que não é preciso saber sobre boxe para se contar uma história universal de perda, insegurança e violência, principalmente quando esta é parte intregrante de uma complexa personalidade. Uma obra-prima inigualável e um dos, senão o melhor, filmes do diretor.

    sábado, 19 de junho de 2010

    EM ALGUM LUGAR DO PASSADO


    EM ALGUM LUGAR DO PASSADO (Somewhere in time, 1980, Universal Pictures, 103min) Direção: Jeannot Szwarc. Roteiro: Richard Matheson, romance "Bid time return", de sua autoria. Fotografia: Isidore Mankofsky. Montagem: Jeff Gourson. Música: John Barry. Figurino: Jean-Pierre Dorleac. Direção de arte/cenários: Seymour Klate/Mary Ann Biddle. Casting: Jennifer Shull. Produção: Stephen Deutsch. Elenco: Christopher Reeve, Jane Seymour, Christopher Plummer, Teresa Wright, Bill Erwin, Susan French, William H. Macy. Estreia: 03/10/80

    Indicado ao Oscar de Figurino

    Tentando provar que não era ator de um personagem só – e no caso um personagem marcante como o Superman – Christopher Reeve embarcou em "Em algum lugar do passado", um projeto romântico baseado em um livro de Richard Matheson, mais conhecido como autor de livros de ficção científica como o best-seller “Eu sou a lenda”. Talvez devido a seu carisma e à atmosfera emotiva do filme, Reeve se deu bem. “Em algum lugar do passado” não foi um grande sucesso de bilheteria, mas emocionou - e continua a emocionar - milhares de pessoas pelo mundo, depois de descoberto com o advento do vídeo-cassete.

    A história começa em 1972 quando o dramaturgo Richard Collier (vivido com sensibilidade por um Reeve frágil e passional), começando a colher os louros de seu talento, recebe a visita misteriosa de uma senhora de idade que lhe presenteia com um relógio de bolso e pronuncia a inesperada frase: “Volte pra mim”. Oito anos depois, Collier, em crise de criatividade e saindo de um relacionamento, resolve dar um tempo do agito de sua vida profissional e se hospeda em um hotel antigo e tradicional que, no passado, teve até mesmo um teatro, onde se apresentou, em 1912, a lendária Elise McKenna (a bela Jane Seymour). Encantado com a fotografia da atriz, Collier começa a investigar a vida e a carreira de McKenna e reconhece em uma foto da atriz pouco antes da sua morte como a senhora que lhe deu o relógio. Intrigado com a possibilidade de viagens no tempo defendidas por um antigo professor, Collier faz uma regressão ao passado com a intenção de encontrá-la. Uma vez no passado, os dois se apaixonam, mas têm que enfrentar a possessividade do empresário de McKenna, o autoritário William Robinson (Christopher Plummer) e o fato de que estão separados por quase um século.


    A atmosfera criada pela fotografia delicada e a trilha sonora comovente é o maior trunfo de "Em algum lugar do passado". Mesmo que trilhe caminhos difíceis em seu roteiro (que beira a inverossimilhança em inúmeros momentos), o roteiro escrito pelo próprio autor do romance nunca trata o espectador como desprovido de inteligência. A paixão avassaladora entre os protagonistas, por exemplo, é tão centrada na química entre seus atores centrais e na crença de sua veracidade que não resta à audiência senão entregar-se de olhos fechados a ela. E o amor não é assim mesmo, afinal de contas?

    Não há nada em “Em algum lugar do passado” que surpreenda ou seja inédito em termos de romance, talvez com exceção do tema “viagem no tempo”. Mesmo assim, o clima nostálgico, acentuado pela belíssima peça musical de Rachmanioff prende a atenção e leva a um final inesperado. Ainda que tenha alguns furos no roteiro, comuns em obras com temática semelhante, o filme de Jeannot Szwarc entrega a seu público exatamente o que promete e pode arrancar algumas lágrimas dos mais sensíveis. E Christopher Reeve demonstra que tinha talento suficiente para não ficar preso ao mesmo papel pelo resto da sua carreira. O que mais se pode pedir de um filme romântico?

    sexta-feira, 18 de junho de 2010

    MEMÓRIAS


    MEMÓRIAS (Stardust memories, 1980, United Artists, 89min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Santo Loquasto. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Steven Jordan. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Charlotte Rampling, Jessica Harper, Marie-Christine Barrault, Tony Roberts. Estreia: 26/9/80

    Há quem ache que a filmografia de Woody Allen é hermética. Até mesmo suas comédias mais populares e simples esbarram nessa crítica infundada de seus detratores, que não veem em sua obra concessões ao comercial (o que, diga-se de passagem, faz com que seu trabalho sempre esteja patamares acima do convencional). Mas quem acha que coisas como "Noivo neurótico, noiva nervosa" são de difícil assimilação (talvez por sua inteligência e seu sarcasmo) deve ficar com o cérebro inchado ao assistir "Memórias", que, assim como "Interiores" não deixa espaço para simplificações banais. Talvez seja, sim, um tanto hermético. Mas, mais do que isso, é engraçadíssimo.

    Decepcionado com artigos escritos sobre ele na imprensa e com a apática recepção da Academia de Hollywood a seu primeiro filme "sério", o drama "Interiores", Allen escreveu um roteiro ácido e crítico sobre a relação entre cineastas e jornalistas, bem como seu problemático relacionamento com o público. Ainda que o diretor negue veemente as origens autobriográficas de seu filme, é impossível não perceber nele algumas de suas mais marcantes características. E são justamente essas pequenas piadas internas que fazem de "Memórias" um dos filmes mais interessantes de Allen - não coincidentemente um de seus preferidos.

    Em "Memórias", Allen interpreta Sandy Bates, um cineasta famoso por suas comédias de sucesso que recebe com surpresa a péssima recepção a seu primeiro trabalho dramático. Convidado para participar de uma espécie de retrospectiva de sua carreira em um festival de cinema, ele aproveita a oportunidade para refletir sobre seu legado artístico e sobre sua vida pessoal, seja nas lembranças de sua infância ou dos fracassados relacionamentos amorosos, principalmente com uma atriz psicologicamente desequilibrada, Dorrie (Charlotte Hampling). Perseguido por fãs, ele mal tem tempo para dedicar a sua nova namorada, a francesa Isobel (Marie-Christine Barrault), que acaba de deixar o marido por ele.


    "Memórias" impressiona desde sua primeira sequência, claramente inspirada em "Fellini 8 1/2": em um opressivo preto-e-branco, um homem (vivido também por Allen) tenta desesperadamente sair de um trem em movimento, sendo impedido por um grupo de pessoas com feições bizarras e excêntricas (no trem ao lado, acenando para ele está uma jovem Sharon Stone estreando no cinema). A partir dessa cena - que é bem possível que tenha sido a responsável pela disseminação de que a obra do cineasta é "difícil" - Allen joga com uma espécie de metalinguagem ao mesmo tempo irônica e melancólica. É impossível não rir com alguns dos diálogos mais inspirados de sua carreira, assim como é bem pouco producente tentar evitar as comparações com a realidade vivida por ele e outros artistas que tentam sair do lugar-comum. É sintomático, inclusive, que o filme se encerre com comentários das personagens a respeito do "filme dentro do filme". Allen brinca com coisa séria, e os fãs agradecem.

    Claramente felliniano (assim como "Interiores" era obviamente bergmaniano), "Memórias" tem uma fotografia inspirada de Gordon Willis (já habituado ao trabalho de Allen), que sufoca, brinca e encanta na medida certa. A química entre Allen e Charlotte Hampling funciona às mil maravilhas, proporcionando aos dois algumas das cenas mais bonitas do filme (e, segundo reza a lenda, a personagem de Hampling foi inspirada na primeira mulher do diretor, Louise Lasser). Ao equilibrar um humor dos mais inteligentes a uma crítica feroz ao "sistema", "Memórias" atinge um nível de qualidade ímpar na obra de Allen, ainda que seja um de seus filmes menos famosos.

    Apesar de não ser tão premiado quanto "Noivo neurótico..." ou tão querido pelo público quanto "Manhattan", "Memórias" merece figurar entre os melhores filmes de Woody Allen, principalmente devido a suas entrelinhas nem tão disfarçadas assim. Coisa de gênio!

    quinta-feira, 17 de junho de 2010

    A LAGOA AZUL


    A LAGOA AZUL (The blue lagoon, 1980, Columbia Pictures, 104min) Direção e produção: Randal Kleiser. Roteiro: Douglas Day Stewart, romance de Henry De Vere Stacpoole. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Robert Gordon. Música: Basil Poledouris. Figurino: Jean-Pierre Dorléac. Direção de arte: Jon Dowding. Casting: Vic Ramos. Elenco: Brooke Shields, Christopher Atkins, Leo McKern. Estreia: 05/7/80

    Indicado ao Oscar de Fotografia


    Existem filmes que, a despeito de seus óbvios defeitos, conquistam uma espécie de lugar de honra no coração do espectador por motivos os mais diversos. E certamente não é por suas qualidades artísticas (ou a falta delas) que "A lagoa azul" sobrevive firme e forte na memória do público. Baseado em um romance pouco famoso de Henry De Vere Stacpoole (ele mesmo um ilustre desconhecido), o filme de Randal Kleiser (de "Grease") é uma história sobre amor, inocência e amizade repleta de clichês e inverossimilhanças, mas que conquista por sua extrema ingenuidade e fotogenia. Pode até não ter conteúdo, mas é muito bonito de se ver.

    Durante uma viagem de navio em direção a San Francisco, um naufrágio acontece, obrigando duas crianças e um velho marinheiro a atracarem em uma paradisíaca ilha deserta. Depois que o homem mais velho morre ao tentar desbravar o outro lado da ilha, o pequeno casal se vê obrigado a aprender a sobreviver sozinho. Pescando, caçando e construindo suas próprias moradas, logo eles passam a considerar-se em casa. Anos depois, ao atingir a adolescência, no entanto, as coisas começam a mudar. Percebendo as alterações em seus corpos, o jovem Richard (Christopher Atkins) e a bela Emmeline (Brooke Shields) passam a sentir-se atraídos um pelo outro, mesmo que não tenham a menor noção de como agir. Guiados apenas por seus instintos, eles iniciam uma terna história de amor.


    Logo que começou a produção de "A lagoa azul" Kleiser tinha a intenção de fazer o filme todo com seus atores nus. Sua decisão foi mudada quando, devido a essa exigência, duas atrizes quase contratadas - Diane Lane e Jennifer Jason Leigh - pularam fora. A partir daí, até que Brooke Shields (no auge da beleza juvenil e vindo da polêmica de "Pretty baby", de Louis Malle) assinasse para viver a doce e bela Emmeline praticamente toda e qualquer atriz da idade apropriada foi testada e/ou convidada para o papel. Exagero? Segue a lista para provar a afirmação: Kelly Preston, Linda Blair, Tatum O'Neal, Jodie Foster, Kim Basinger, Ellen Barkin, Jamie Lee Curtis, Bridget Fonda, Melanie Griffith, Anjelica Huston (!!!), Mariel Hemingway, Sarah Jessica Parker (Carrie Bradshaw em pessoa), Michelle Pfeiffer, Sean Young, Daryl Hannah, Rosanna Arquette, Carrie Fisher, Debra Winger, Kathleen Turner, Isabelle Adjani e Amy Irving. A julgar pela variedade de tipos físicos, idades e personalidades das atrizes consideradas é de se admirar que houvesse um roteiro escrito antes das filmagens começarem.

    Roteiro, aliás, é quase luxo no filme de Kleiser. Não há complexidade psicológica em suas personagens, nem momentos dramáticos de maior substância. O romance entre os protagonistas (e quase únicas personagens), ao invés de ser um estudo sobre o dominio dos instintos sobre a razão, é apenas uma história de amor bobinha entre um rapaz de belo corpo e uma moça linda mas um tanto insossa. Fica difícil imaginar como seria o resultado final se Sean Penn tivesse ficado com o papel central masculino. Apesar de menos atraente que Christopher Atkins, Penn tem um talento e uma personalidade que provavelmente elevariam o filme a alguns patamares acima do corriqueiro. Mas aí já é elocubrar em cima de possibilidades, assim como o seria tentar visualizar Richard Gere, Sylvester Stallone ou John Belushi vestidos de tanguinha em um cenário paradisíaco.

    Filmado nas Ilhas Fiji, "A lagoa azul" conta com uma fotografia caprichada de Nestor Almendros, merecidamente indicada ao Oscar e que deslumbra qualquer espectador. É bem possivel que seja a maior qualidade artística do filme, que normalmente se perde em suas intenções de emocionar. Não é à toa que, mesmo falando sobre sexo (ainda que de forma sensível e delicada) formou uma geração inteira que o assistiu nas constantes reprises vespertinas na televisão. O casal formado por Christopher Atkins e Brooke Shields será sempre lembrado por seu público, mesmo que seu trabalho esteja muito aquém do que pode ser considerado bom cinema.

    quarta-feira, 16 de junho de 2010

    APERTEM OS CINTOS... O PILOTO SUMIU


    APERTEM OS CINTOS, O PILOTO SUMIU... (Airplane, 1980, Paramount Pictures, 88 min) Direção e roteiro: Jim Abrahams, David Zucker, Jerry Zucker. Fotografia: Joseph Biroc. Montagem: Patrick Kennedy. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Rosanna Norton. Direção de arte/cenários: Ward Preston/Anne D. McCulley. Casting: Joel Thurm. Produção executiva: Jim Abrahams, David Zucker, Jerry Zucker. Produção: Jon Davidson, Howard W. Koch. Elenco: Robert Hays, Julie Hagerty, Leslie Nielsen, Lloyd Bridges, Robert Stack, Peter Grave, Kareem Abdul-Jabbar. Estreia: 02/7/80

    Se hoje existem filmes como a série "Todo mundo em pânico" isso se deve - pro bem ou pro mal - graças a um trio de diretores que, no início dos anos 80 quebrou todas as regras pré-estabelecidas de como se fazer uma comédia. Ao contrário do humor sofisticado de Woody Allen, por exemplo, as piadas de quase mau-gosto de "Apertem os cintos, o piloto sumiu" abriram a porta para uma nova estética no gênero. E nem mesmo os mais exigentes podem negar que, deixando de lado exigências intelectuais, o filme de Jerry Zucker, John Abrahams e David Zucker (mais conhecidos como o trio ZAZ) é um dos mais engraçados produtos hollywoodianos de sua época ou de qualquer outra.

    Inspirado nos inúmeros filmes-desastre lançados no final da década de 70, "Apertem os cintos..." utiliza um roteiro do escritor Arthur Hailey como base para a destruição sistemática de todos e quaisquer clichês que abundam no gênero. Tudo começa quando o jovem Ted Striker (Robert Hays em um papel em que até David Letterman foi testado) embarca em um avião com o objetivo de discutir a relação com a ex-namorada Elaine (Julie Hagerty), comissária de bordo. Traumatizado com sua experiência na guerra, ele se vê obrigado a assumir a pilotagem do avião quando a tripulação fica seriamente doente.


    Com esse fiapo de história, o trio de diretores mais insano que se tem notícia usa e abusa do nonsense, das piadas de duplo-sentido e das mais bobas e absurdas piadas. Ao contar com atores até então considerados dramáticos, como Lloyd Bridges, Leslie Nielsen e Robert Stack (que até indicado ao Oscar havia sido nos anos 50), os cineastas construiram um clima sério para então demolí-lo sem dó nem piedade. Tudo que se vê nas tragédias cinematográficas está retratado em "Apertem os cintos...", mas da maneira menos convencional possível: a menina que precisa de um transplante de coração, a família certinha, os oficiais rancorosos, o médico prestativo... Nas mãos dos roteiristas, tudo vira motivo de piada, sem importar-se com o politicamente correto (o comandante, por exemplo, dá claros sinais de pedofilia). Na pele do protagonista Ted Striker, Hays tem a cara apatetada necessária para conviver com os absurdos que acontecem à sua volta sem perceber que está em uma comédia (mais ou menos como aconteceria com Leslie Nielsen na trilogia "Corra que a polícia vem aí", alguns anos depois). Sua química com Julie Hagerty é, certamente, um dos motivos do sucesso do filme, que gerou uma continuação inferior mas ainda assim com bons momentos.

    "Apertem os cintos, o piloto sumiu" é o tipo de filme que precisa ser visto várias vezes. Não que tenha complexidades psicológicas que demandem atenção redobrada, mas apresenta tanta besteira junto que é difícil captá-las em uma única sessão. E além do mais, é diversão garantida para uma tarde modorrenta de quarta-feira.

    terça-feira, 15 de junho de 2010

    O ILUMINADO


    O ILUMINADO (The shining, 1980, Warner Bros, 143min) Direção e produção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick, Diane Johnson, romance de Stephen King. Fotografia: John Alcott. Montagem: Ray Lovejoy. Música: Wendy Carlos, Rachel Elkind. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Roy Walker/Les Tomkins. Casting: James Liggat. Produção executiva: Jan Harlan. Elenco: Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd, Scatman Crothers, Philip Stone. Estreia: 23/5/80

    Stanley Kubrick era definitivamente um sujeito estranho! Interessado em adaptar para o cinema o romance "O iluminado", de Stephen King, ele aproximou-se do escritor de forma bastante bizarra; telefonou para ele certa manhã, cedíssimo, e, depois de identificar-se, começou a conversar sobre histórias de fantasmas e vida após a morte. Tempos depois, ainda envolvido com a feitura do filme, ele mantinha a rotina de ligar para King, vez ou outra, para fazer-lhe perguntas do tipo: "Você acredita em Deus?"

    Apesar do contato direto que tinha com o autor de clássicos da literatura de terror como "Carrie,a estranha" e "Cujo", o cineasta inglês não hesitou em afastá-lo de sua versão da apavorante história do escritor Jack Torrance e seus fantasmas. Considerando que o roteiro era fiel demais ao livro - que o desgostava por ser extremamente preso ao gênero terror - ele contratou a mestra em estudos góticos Diane Johnson para reescrevê-lo. King não gostou nada da ideia e quase duas décadas depois foi o autor do roteiro de uma minissérie feita para a TV, onde pode expressar sua própria visão da obra. Entre suas principais reclamações estava a mudança radical na personalidade de Wendy Torrance, a esposa do protagonista; enquanto no livro ela era descrita como uma mulher bela e com a aparência de nunca ter passado dificuldades na vida (e aí se encaixaria Jessica Lange, proposta por Jack Nicholson), na versão cinematográfica o papel ficou com Shelley Duvall, que encarnou uma apavorada e frágil dona-de-casa tendo que lidar com a loucura do marido sem a menor preparação para isso. Os elogios de Nicholson a sua atuação, no entanto, não a impediram de ser indicada ao Framboesa de Ouro de pior atriz do ano. Como se vê, a unanimidade passou longe desse trabalho do autor de "2001, uma odisséia no espaço".

    "O iluminado" começa quando o aspirante a escritor Jack Torrance (Jack Nicholson em um dos papéis mais importantes de sua carreira) aceita o emprego de zelador de inverno do Overlook Hotel, hotel de luxo que fica totalmente vazio fora da temporada de férias. Com a intenção de concentrar-se em seu livro, ele se muda com a esposa, Wendy (Shelley Duvall) e o filho pequeno Danny (Danny Lloyd) para a imensa propriedade, isolada da civilização exceto por contatos através de rádio. Enquanto os dias passam, Wendy e o pequeno Danny sentem que Jack começa a afastar-se deles. A princípio julgando que tudo é apenas culpa de um bloqueio criativo, ela não percebe que até mesmo o menino anda passando por maus momentos: dotado de um dom que o faz ser chamado de "iluminado", ele tem visões aterradoras de duas meninas gêmeas que foram assassinadas pelo próprio pai a golpes de machado. Aos poucos, Torrance também começa a demonstrar um comportamento assustador, que o leva a querer matar a mulher e o filho.

    Apesar das tentativas de Kubrick em evitar que sua obra ficasse rotulada como "filme de terror" é impossível negar que o resultado final não deixa dúvidas quanto ao seu gênero. Dono de cenas de arrepiar até mesmo os mais escolados fãs do estilo, "O iluminado" tem a seu favor o talento e o senso estético apurado de seu diretor. Em mãos menos criativas, a história de Jack Torrance cairia facilmente na vala comum dos sustos fáceis e matança generalizada (apesar de todo o clima angustiante que vai crescendo no decorrer do filme, apenas uma morte aparece frente aos olhos do espectador...) Comandada pelo perfeccionista Kubrick, no entanto, tudo muda de figura, a começar pela escalação do elenco.

    Jack Nicholson, na pele do protagonista encontrou um dos papéis pelos quais ficaria marcado para sempre. Frequentemente exagerado em sua composição - o que é adequado à visão do cineasta -, o ator (na época já oscarizado por "Um estranho no ninho") ficou com o papel depois que o diretor descartou Jon Voight (escolhido por King, mas rejeitado por ser "normal" demais), Robert DeNiro (considerado "psicótico de menos" apesar de sua performance em "Taxi driver") e Robin Williams ("psicótico demais" por sua atuação na série de TV "Mork & Mindy"). Esgotado pela obsessão do diretor em atingir a perfeição - alguns takes foram repetidos nada menos que 148 vezes - o ator nem lia o roteiro do filme a não ser pouco antes das filmagens, já que mudanças eram feitas constantemente. Previsto para durar 17 semanas, o cronograma inicial logo foi deixado de lado: as filmagens duraram quase um ano, o que atrasou o início da produção de filmes como "Reds" e "Caçadores da arca perdida", que teriam cenas filmadas no mesmo estúdio. E isso sem falar em algumas dores de cabeça menores.

    Danny Lloyd, que vive o iluminado do título, por exemplo, não tinha idade suficiente nem mesmo para assistir ao que estava fazendo (imaginando-se fazendo um drama, Lloyd só conferiu o filme pronto aos 17 anos de idade, mais de uma década depois). Harry Dean Stanton, que viveria o garçom que conversa com o protagonista, foi substituído porque não conseguiu terminar de fazer "Alien" a tempo. E a mania de perfeição de Kubrick chegou ao extremo de confeccionar, página por página, o "livro" escrito por Torrance em uma das cenas climáticas.

    Recebido com duras críticas à época de seu lançamento, "O iluminado" hoje é uma referência quando se fala em filmes de terror (apesar das negativas de seu diretor em classificá-lo dessa maneira). É difícil manter-se totalmente apático ao clima imposto pela direção rígida, pela edição detalhada, pela música assombrosa e principalmente pelo que é muito mais sugerido do que mostrado. Stanley Kubrick pode até não ser o gênio que apregoam aos quatro ventos, mas seu domínio da técnica de contar uma história é de admirar consideravelmente.

    domingo, 13 de junho de 2010

    FAMA


    FAMA (Fame, 1980, MGM Pictures, 134min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Christopher Gore. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Michael Gore. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kirland/George DeTitta. Casting: Howard Feuer, Jeremy Ritzer. Produção: David De Silva, Alan Marshall. Elenco: Irene Cara, Eddie Barth, Lee Curreri, Laura Dean, Antonia Franceschi, Paul McCrane. Estreia: 16/5/80

    6 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("Fame", "Out here on my own"), Som
    Vencedor de 2 Oscar: Trilha Sonora Original, Canção ("Fame")
    Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção ("Fame")


    A High School for the Performing Arts, em Nova York, é uma das mais prestigiadas escolas de arte dos EUA. E é também o cenário desse musical energético, forte e empolgante do diretor inglês Alan Parker, que aqui deixa de lado o tom depressivo de seu bem-sucedido “Expresso da meia-noite” para embarcar no sonho de um punhado de jovens em busca da fama do título.

    O roteiro, escrito por Christopher Gore, cujo irmão Michael compôs a dançante trilha sonora, que inclui a vencedora do Oscar “Fame”, concentra-se em meia dúzia de estudantes, que, a despeito de seu talento, enfrentam sérios problemas pessoais no caminho rumo ao estrelato. A ambiciosa cantora Coco (Irene Cara, que canta a música-tema do filme) sonha em ver seu nome nas marquises, mas acaba descobrindo da pior maneira possível que não é somente uma bela voz que basta para se ter sucesso; o jovem Montgomery (Paul McCrane) quer ser ator, mas tem primeiro que aceitar sua homossexualidade, descoberta quando se apaixonou pelo tearapeuta; a judia Doris (Maureen Teefy) precisa superar sua quase dependência da mãe superprotetora, o que começa a acontecer quando se envolve com o aspirante a humorista Ralph (Barry Miller), que tenta esconder sua origem paupérrima sob uma constante chuva de piadas. Para finalizar o grupo de estudantes está a milionária que sonha em ser bailarina (Laura Dean) e se apaixona por um dançarino negro, o rebelde Leroy (Gene Anthony Ray) e o descendente de italianos Bruno Martelli (Lee Curreri), que luta para ser músico mesmo sendo fã de sintetizadores musicais.


    Mesmo sem conseguir fugir de alguns clichês, o filme de Parker tem a seu favor a edição ágil de Gerry Hambling, seu habitual colaborador, que divide a ação em tempos quase iguais a seus sonhadores personagens, defendidos por atores amadores. Se por um lado o filme ganha por isso, com um frescor e um realismo raros, perde pela inexperiência de seus intérpretes, nem todos com o carisma e/ou a competência necessários para acompanhar as idas e vindas do roteiro. Sorte que Alan Parker é um diretor de primeira grandeza, que tira leite de pedra em muitos momentos.

    Mesmo quando o clima pesa, no terço final da obra, o diretor consegue driblar a lágrima fácil, mantendo sua câmera tão distante quanto uma observadora passiva dos dramas que se desenrolam a sua frente. Até mesmo os números musicais fogem do marasmo, imprimindo ao filme uma marca bastante interessante: longe de ser um musical enfadonho, com personagens cantando 90% do tempo, “Fama” é um filho bastardo do gênero, utilizando as ótimas canções de Michael Gore como comentários da ação e não parte integrante dela.

    Ainda que se estenda um pouco demais em seu final, “Fama” é o filme certo na hora certa e provavelmente é um dos musicais essenciais de seu tempo.

    sábado, 12 de junho de 2010

    MUITO ALÉM DO JARDIM


    MUITO ALÉM DO JARDIM (Being there, 1979, United Artists, 130min) Direção: Hal Ashby. Roteiro: Jerzy Kosinski, romance de sua autoria. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Don Zimmerman. Música: Johnny Mandel. Figurino: May Routh. Direção de arte/cenários: James Schoppe/Robert Benton. Casting: Lynn Stalmaster. Produção executiva: Jack Schwartzman. Produção: Andrew Braunsberg. Elenco: Peter Sellers, Shirley MacLaine, Melvyn Douglas, Jack Warden, Richard Dysart. Estreia: 19/12/79

    2 indicações ao Oscar: Ator (Peter Sellers), Ator Coadjuvante (Melvyn Douglas)
    Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Melvyn Douglas)
    Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator/Comédia ou Musical (Peter Sellers), Coadjuvante (Melvyn Douglas)


    Considerado por muitos como um dos maiores gênios do humor no cinema, o inglês Peter Sellers passava por uma fase difícil de sua carreira nos anos 70. Depois de muito sucesso com a série de filmes da "Pantera cor-de-rosa" (iniciada em 1964 e retomada com sucesso em 1975, 76 e 78) ele demorou anos para convencer um estúdio a realizar um de seus projetos de estimação, a adaptação para o cinema do romance "Being there", de Jerzy Kosinski. Foi apenas com sua ressurreição comercial (com o filme "A vingança da pantera cor-de-rosa") que ele finalmente conseguiu tirar do papel a melancólica e quase surreal história de um jardineiro tido como gênio. Elogiado unaninemente pela crítica, o filme do autoral Hal Ashby acabou tornando-se um dos últimos trabalhos do genial ator, que morreu menos de um ano depois da estreia do filme nos cinemas americanos. Seu canto do cisne lhe deu uma última e merecida indicação ao Oscar de melhor ator.

    Em uma inspirada e cuidadosa atuação, Sellers vive, em "Muito além do jardim" , uma das personagens mais sensíveis de sua carreira. Chance é um jardineiro quase obtuso, um homem que vive cercado de suas plantas e de seu aparelho de televisão, as duas paixões de sua vida. Chance não sabe ler, nem escrever nem manter uma conversa mais articulada, além de não ter nenhum registro oficial e não tem a menor noção de uma existência fora da mansão onde foi criado. Quando seu patrão morre, ele se vê, inesperadamente, frente a um universo absolutamente novo e com o qual não tem a menor noção de como lidar. Por obra do acaso, ele é atropelado pela limousine de Eve Rand (Shirley MacLaine), a esposa de um industrial milionário que está às portas da morte. Levado para o casarão onde o casal mora, servido por inúmeros empregados, ele conquista a todos com seu jeito calado e discreto. Suas frases - todas tiradas de programas de TV - e até mesmo seu silêncio constrangido são tidos como geniais tanto por Eve e seu marido Benjamin (Melvyn Douglas) quanto pelo próprio presidente dos EUA (Jack Warden), amigo da família. Aos poucos, Chance começa a influenciar a todos a sua volta, inclusive despertando a paixão de uma carente Eve.


    "Muito além do jardim" é uma espécie de precursor de "Forrest Gump", uma vez que assim como no filme de Robert Zemeckis, o protagonista é um homem de QI abaixo do normal que consegue atingir um nível de sucesso inesperado. Ao contrário da obra estrelada por Tom Hanks, no entanto, o humor do filme de Ashby é muito menos óbvio, menos popular, digamos assim. Ao optar por um estilo mais sóbrio de fazer comédia, o roteiro escrito pelo mesmo autor do romance que o originou, Jerzy Kosinski, foge das gargalhadas e percorre um caminho mais denso e crítico. Simbólico ao extremo, é um trabalho tão rico em possibilidades de compreensão que dificilmente estaria em uma lista das maiores bilheterias da história. Quem se dispuser a assistí-lo, no entanto, pode ter uma grata surpresa.

    Não é preciso dizer que o ritmo imposto por Ashby à sua narrativa é menos ágil do que se espera de uma comédia. Devagar e sem impor ao público uma edição veloz, ele dá a exata noção do comportamento de seu protagonista, um homem preso a um mundo particular, com seus próprios interesses e que é totalmente alheio ao que se passa a seu redor. Ironia é a palavra que melhor define o humor de "Muito além do jardim", que critica de forma não muito velada a mediocridade americana (e por que não mundial?) quando o assunto é escolher seus gurus e/ou ídolos. Buscando inspiração em "O idiota", de Dostoievsky, o filme final de Peter Sellers é uma espécie de alerta contra o conformismo, mas realizado de forma elegante e altamente simbólica.

    "Muito além do jardim" não é um filme que seja citado corriqueiramente nas listas dos melhores, nem da crítica (que o elogiou muito em seu lançamento) e tampouco do público, que praticamente o relegou a um quase esquecimento. Mas tem uma inteligência e uma sutilezas raras, além de ser um belo testamento legado por um dos grandes atores de sua geração.

    sexta-feira, 11 de junho de 2010

    KRAMER X KRAMER


    KRAMER X KRAMER (Kramer vs Kramer, 1979, Columbia Pictures, 105min) Direção: Robert Benton. Roteiro: Robert Benton, romance de Avery Corman. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Gerald B. Greenberg. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Paul Sylbert/Alan Hicks. Casting: Shirley Rich. Produção: Stanley R. Jaffe. Elenco: Dustin Hoffman, Meryl Streep, Justin Henry, Jane Alexander, Jobeth Williams, Howard Duff, George Coe. Estreia: 19/12/79

    9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Benton), Ator (Dustin Hoffman), Ator Coadjuvante (Justin Henry), Atriz Coadjuvante (Jane Alexander, Meryl Streep), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem
    Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Benton), Ator (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro Adaptado
    Vencedor de 4 Golden Globes: Filme/Drama, Ator/Drama (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro


    Não é difícil de entender os motivos que levaram “Kramer X Kramer” a ser o grande vencedor do Oscar 79, disputando o prêmio com filmes marcantes e inovadores, como “Apocalypse now”, de Francis Ford Coppola. Bonito mas esquemático e quadradão ao extremo, o melodrama de Robert Benton apela para o que o moralista público americano mais procura em um entretenimento familiar: valores elevados, personagens com os quais possa se identificar e, mais ainda, um final de levar às lágrimas. E daí se “Apocalypse now” é considerado uma obra-prima sufocante e criativa se “Kramer X Kramer” emociona e faz uma análise do momento social do mundo ocidental?

    Análise social, sim. Ainda que timidamente, o filme, inspirado no romance homônimo de Avery Corman investiga e mostra como os valores familiares estavam mudando na América, onde o imediatismo e a busca pela satisfação pessoal estavam em vias de tornar-se moeda corrente. O filme ousa criticar esse desejo desenfreado pelo sucesso na figura de Joanna Kramer (uma espetacular Meryl Streep, merecidamente premiada com o Oscar de atriz coadjuvante), uma dona de casa dedicada que, em um impulso irrefreável, resolve abandonar o marido e o filho pequeno para partir em busca de realização profissional. Sua saída de cena deixa o seu atônito ex-cônjuge Ted (Dustin Hoffman, perfeito em sua caracterização de homem comum, bem longe do Ratzo de “Perdidos na noite”) em maus lençóis. Acostumado a encontrar seu pequeno filho Billy (Justin Henry) apenas na hora de acordar e dormir, ele de repente se vê com a obrigação de transformar-se em pai e mãe em tempo quase integral, justamente quando está atingindo um ponto crucial em sua carreira em publicidade. Lidar com o sentimento de abandono, seu e do pequeno garoto de oito anos, trabalhar com dedicação, cuidar dos deveres de casa e afins parecem não ser o que o pobre Ted esperava. Mas ele precisa ir adiante e conquistar a confiança do filho, dos amigos e dos chefes, além de se envolver romanticamente com uma colega de trabalho. E não é que justamente quando ele encontra um equilíbrio nessa difícil equação ele é surpreendido com a volta de Joanna? Feliz e satisfeita com sua nova vida, a vilã da vez quer a guarda do menino de volta.


    A estrutura de “Kramer X Kramer” chega a ser simplória. Depois de sofrer com as tentativas de aproximar-se do seu pequeno rebento, o antes egoísta e auto-centrado Ted, que considerava papel de pai apenas suprir a família, transformou-se em um homem maduro, preocupado com a educação da criança e entrando em pânico com seus acidentes infantis. Sua ex-mulher, apesar de o roteiro tentar explicar suas razões, surge quase que como a destruidora da felicidade de pai e filho, duas vezes, na separação e no regresso. E o final, quase clichê, faz o público chorar e se perguntar se o mais importante é a família ou o trabalho. Mais Academia de Hollywood impossível.

    Quando assumiu o papel de Ted Kramer, depois que James Caan pulou fora do projeto, Dustin Hoffman também estava passando por um doloroso e sofrido divórcio (e não o são todos?) e ajudou tanto o roteirista e diretor Robert Benton no processo de filmagens que chegou-se a cogitar sua inclusão nos créditos como co-roteirista. Muitas de suas cenas com Justin Henry (em uma atuação enternecedora) foram improvisadas, o que explica a química perfeita entre os dois. E Meryl Streep... bem, Meryl Streep é um caso a parte.

    Assumindo um papel que originalmente não seria dela (a pantera Kate Jackson interpretaria Joanna Kramer, mas não pode livrar-se dos compromissos da tevê), Streep demonstra a segurança e o carisma de uma veterana. Escalada para fazer o pequeno papel da colega de trabalho com quem Ted tem uma aventura (e que foi interpretada por Jobeth Williams), ela dividiu seu tempo entre o filme de Benton e "Manhattan", de Woody Allen, onde interpretava sua ex-mulher lésbica. Inteligente e sensível, escreveu boa parte do discurso de sua personagem no tribunal, conquistou as plateias e levou o Oscar. O resto é história.

    Para fugir da esfera trivial de dramas familiares, “Kramer X Kramer” conta com algo que faz toda a diferença: sua equipe. A fotografia do experiente Nestor Almendros mostra uma Nova York fotogênica e melancólica, exatamente como os sentimentos de Ted. O roteiro, escrito pelo próprio diretor, se equilibra entre o clichê e um surpreendente bom humor, com diálogos felizes e inteligentes, nunca rasos ou desnecessários. E o elenco cumpre sua parte com louvor. Dustin Hoffman e Meryl Streep levaram merecidos Oscar pra casa e o garoto Justin Henry demonstra uma segurança ímpar, mesmo contracenando com gente do calibre de Hoffman e Streep. Pode ser sentimental e piegas, mas “Kramer X Kramer” é um perfeito filme para assistir com a família e derramar algumas tímidas lágrimas. É pouco provável que o mesmo pudesse ser dito de “Apocalypse now”.

    quinta-feira, 10 de junho de 2010

    A ROSA


    A ROSA (The rose, 1979, 20th Century Fox, 125min) Direção: Mark Rydell. Roteiro: Bo Goldman, Bill Kerby, história de Bill Kerby. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: C. Timothy O'Meara, Robert L. Wolfe. Música: Paul A. Rotchild. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Richard Macdonald/Bruce Weintraub. Casting: Lynn Stalmaster. Produção executiva: Tony Ray. Produção: Aaron Russo, Marvin Worth. Elenco: Bette Midler, Alan Bates, Frederic Forrest, Harry Dean Stanton. Estreia: 07/11/79

    4 indicações ao Oscar: Atriz (Bette Midler), Ator Coadjuvante (Frederic Forrest), Montagem, Som
    Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Bette Midler), Canção ("The rose"), Estreia Feminina (Bette Midler)


    Antes de consagrar-se nos anos 80 como humorista, em comédias como "Por favor, matem minha mulher" e "Cuidado com as gêmeas", Bette Midler foi levada muito a sério como intérprete dramática. Por sua atuação no drama musical "A rosa" ela recebeu um Golden Globe e foi indicada pela primeira vez ao Oscar de melhor atriz. Dirigida pelo mesmo Mark Rydell que em 1991 comandaria o fracasso de bilheteria "Para eles, com muito amor" - que lhe deu sua segunda indicação ao prêmio da Academia - "A rosa" é uma versão romanceada e bem disfarçada da vida da cantora Janis Joplin - ou pelo menos era pra ser assim na primeira versão do roteiro.

    Quando Midler foi convidada para protagonizar o filme - uma condição imposta por Rydell - a trama ainda se chamava "The pearl" e era bastante baseada na vida desregrada e na morte de Joplin (falecida em 1970 de overdose de heroína). Acreditando que ainda era muito cedo para que a cantora tivesse um filme inspirado em sua vida, a atriz (ainda desconhecida do grande público e que cantava em bares) insistiu em que o roteiro fosse mudado. Aos poucos, a trama de "The pearl" transformou-se em "A rosa" e marcou o início do sucesso de Bette Midler em Hollywood.

    Ela vive Mary Rose Foster, também conhecida como "a rosa", uma cantora de rock que não sabe lidar com o sucesso que faz. Explorada pelo empresário (Alan Bates), viciada em barbitúricos e carente ao extremo, ela tem como maior orgulho de sua vida ter saído da pequena cidade onde nasceu - e onde pretende encerrar a maior turné de sua carreira. Auto-destrutiva, agressiva e emocionalmente instável, ela vê a chance de voltar a ser feliz quando conhece o jovem Huston Dyer (Frederic Forrest), mas a sua própria personalidade bipolar ameaça afastá-la dele.


    Apesar de não apresentar novidades ao gênero "biografia musical" (ainda que fictícia), o roteiro de "A rosa" tampouco deixa de oferecer o que se espera de um filme com suas pretensões. Os números musicais são extremamente eficientes (cortesia de uma inspirada fotografia de Vilmos Zsigmond) e os dramas existencias de sua protagonista, ainda que soem verossímeis, nunca chegam a incomodar o público médio - leia-se "nada de exageros nas cenas de uso de drogas nem muito menos na linguagem e nas cenas de sexo". Não deixa de ser um paradoxo um filme sobre uma roqueira que tenta fugir dos padrões seja tão quadrado, mas toda e qualquer frustração a respeito de sua censura quase livre fica bem menor ao testemunhar-se a performance de Midler.

    Na pele da protagonista absoluta de "A rosa", Bette Midler justifica plenamente os prêmios que abocanhou na temporada 1979. Sua entrega à complexa personalidade de Rose é a melhor e mais arrebatadora surpresa do filme de Rydell. Tanto nas cenas mais dramáticas quanto nas performances musicais, Midler extravasa um talento inquestionável e seduz a audiência com um trabalho fabuloso que apenas comprova o seu talento hoje em dia relegado a um quase anonimato. Coisas de Hollywood!