quinta-feira, 1 de junho de 2017

À MEIA-LUZ

À MEIA-LUZ (Gaslight, 1944, MGM, 114min) Direção: George Cukor. Roteiro: John Van Druten, Walter Reisch, John L. Balderston, peça teatral de Patrick Hamilton. Fotografia: Joseph Ruttenberg. Montagem: Ralph E. Winters. Música: Arthur Hornblow Jr.. Figurino: Irene. Direção de arte/cenários: Cedric Gibbons/Edwin B. Willis. Produção: Arthur Hornblow Jr.. Elenco: Charles Boyer, Ingrid Bergman, Joseph Cotten, May Whitty, Angela Lansbury. Estreia: 04/5/44

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Charles Boyer), Atriz (Ingrid Bergman), Atriz Coadjuvante (Angela Lansbury), Roteiro, Fotografia em preto-e-branco, Direção de Arte/Cenários em preto-e-branco
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Ingrid Bergman), Direção de Arte/Cenários em preto-e-branco
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz (Ingrid Bergman) 

A trama, adaptada de uma peça teatral escrita por Patrick Hamilton, gira em torno de um assassinato cujos fantasmas atormentam uma jovem recém-casada. A atriz principal é Ingrid Bergman - estrela de "Interlúdio" e "Quando fala o coração". A fotografia e a direção de arte são parte integrante da atmosfera claustrofóbica e tensa da ação. Mas "À meia-luz", apesar de parecer, não é um filme de Alfred Hitchcock. E nem mesmo seu diretor, George Cukor, é Hitchcock. Enquanto o mestre do suspense explorava com maestria as engrenagens que faziam a plateia grudar na poltrona em antecipação às próximas cenas, Cukor era um cineasta dedicado aos atores - ou, ainda mais especificamente, às atrizes. Sensível às nuances femininas de seus trabalhos, forjou alguns dos maiores clássicos de Katharine Hepburn - "Núpcias de escândalo" (40) e "A costela de Adão" (49) - e dirigiu nomes como Audrey Hepburn, Marilyn Monroe e Judy Holiday - foi por suas mãos que ela tirou o Oscar de Bette Davis e Gloria Swanson por seu desempenho em "Nascida ontem" (50). E em 1944, conduziu Ingrid Bergman à sua primeira estatueta dourada justamente por esse remake de um filme inglês, lançado em 1940 - e que foi devidamente destruído pela MGM para evitar qualquer spoiler a respeito de seu enredo (o pouco que restou só escapou da destruição por mero acaso: o nome da etiqueta que o identificava era "Angel's Street", título da peça em que se baseava).

A atuação de Bergman, aliás, é o maior destaque de "À meia-luz", um filme de ritmo irregular que se sustenta basicamente no clima proposto pela fotografia e pela direção de arte também premiada com um Oscar. Bergman vive Paula, uma jovem que abandona uma promissora carreira de cantora lírica na Itália para se casar com Gregory Anton (Charles Boyer), um gentil e sedutor britânico que não demora em convencê-la a voltar para Londres e levá-lo a morar com ela na casa onde, dez anos antes, sua tia foi estrangulada por alguém que, a despeito das investigações policiais, conseguiu sair impune. Tão logo retorna à casa onde ela mesma vivia com a tia, Paula percebe que as coisas não estão tão bem quanto deveriam: quedas de luz bruscas, fotos desaparecidas e sons misteriosos são ouvidos frequentemente, e para seu desespero ficar ainda maior, Gregory insiste que é tudo fruto de sua imaginação. Praticamente isolada do mundo e dos vizinhos, Paula não conta com o apoio nem mesmo das criadas - em especial a insolente Nancy (Angela Lansbury, aos 17 anos, estreando no cinema e de cara indicada ao Oscar de coadjuvante).



George Cukor deixa bem evidente, já no primeiro ato de seu filme, que Paula é, na verdade, vítima de uma armação de seu marido - apenas os motivos é que vão sendo revelados aos poucos, graças à intervenção de Brian Cameron (Joseph Cotten), que, de posse dos relatórios policiais do caso de homicídio ocorrido anos antes, desconfia que há algo de errado na relação do recluso casal. Enquanto Cameron investiga os fatos, ao público cabe testemunhar o martírio de Paula em direção à insanidade - emocionalmente abalada, ela passa a acreditar que está realmente fora de seu juízo perfeito. Para criar esse efeito de paranoia, Cukor não hesita em explorar ao máximo o clima de tensão proposto pela trama, enfatizado pela trilha sonora opressiva e pelas interpretações dúbias de Boyer e Angela Lansbury - uma jovem empregada que pode ou não ter relação com o estado de nervos da patroa. Bergman se entrega de corpo e alma a seu trabalho como Paula, uma mulher frágil que a levou a estudar o comportamento de mulheres internadas em instituições psiquiátricas - e que justificou sua vitória junto à Academia, contra a então favorita Barbara Stanwyck, cotada pelo clássico "Pacto de sangue", de Billy Wilder.

Uma mescla nem sempre bem-sucedida de drama e suspense, "À meia-luz" mais uma vez demonstra o talento de George Cukor em arrancar desempenhos notáveis de suas atrizes, mas, ao mesmo tempo, falha em construir toda a tensão que o enredo - cheio de possibilidades - oferece. Toda vez que o filme se concentra no desespero de Paula, ele cresce e envolve o espectador em sua crescente onda de pânico. Infelizmente, não há muita química entre Ingrid Bergman e Joseph Cotten, cujo personagem parece estar em cena unicamente para desvendar o crime cometido nas primeiras cenas e desmascarar (ou não) Gregory Anton - que, na pele de Charles Boyer, jamais conquista a simpatia do público e impede o que deveria ser um ponto crucial do suspense: afinal de contas, ele é ou não culpado de alguma coisa? E, se sim, por que? Essa falha comprometedora prejudica muito o resultado final, mas ainda assim "À meia-luz" é uma obra acima da média, que comprova a versatilidade de Ingrid Bergman, poucos anos antes que o escândalo de seu romance com o cineasta Roberto Rossellini a afastasse de Hollywood. Uma grande atriz em um papel sob medida.

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