sábado, 10 de junho de 2017

BUBBLE

BUBBLE (The bubble/Ha-Buah, 2006, Uchovsky Fox/Metro Productions, 90min) Direção: Eytan Fox. Roteiro: Eytan Fox, Gal Uchovsky. Fotografia: Yaron Scharf. Montagem: Yosef Grunfeld, Yaniv Rize. Música: Ivri Lider. Figurino: Oren Dar. Direção de arte/cenários: Oren Dar, Ido Dolev. Produção executiva: Leon Edery, Moshe Edery, Micky Rabinovitz, David Silber. Produção: Ronen Ben-Tal, Amir Feingold, Gal Uchovsky. Elenco: Ohad Knoller, Yousef  'Joe' Sweid, Daniella Wircer, Alon Freidmann, Zohar Liba. Estreia: 29/6/06

Tel Aviv, a segunda maior cidade de Israel, é frequentemente descrita como uma cidade cosmopolita e à parte - dentro do possível - dos violentos conflitos raciais que dividem o país. Justamente por isso apelidada carinhosamente de "A bolha", ela é o cenário e personagem de "Bubble", elogiado drama do diretor Eytan Fox, conhecido do público desde seu belo e romântico "Delicada relação" (2002) - que acompanhava de forma sensível o amor entre dois soldados israelitas. Novamente voltando sua câmera para uma história de amor homossexual - dessa vez com contornos políticos um pouco mais definidos e uma preocupação social mais explícita -, Fox consegue ser ainda mais feliz: premiado em diversos festivais de cinema voltados à comunidade LGBT, "Bubble" é um filme de várias camadas, com personagens bem desenvolvidos e uma trama que mescla romantismo e realismo em doses exatas - e que não se furta a criticar, de forma contundente, a cultura de ódio que separa judeus e palestinos.

Se Tel Aviv é chamada de "A bolha", o mesmo nome pode ser aplicado ao apartamento de um trio de amigos que moram na cidade e tentam levar a vida sem envolver-se em questões políticas. Noam (Ohad Knoller) acaba de sair de seu serviço militar e trabalha como vendedor em uma loja de discos; Yali (Alon Friedman) é gerente de um bar de propriedade de um casal de lésbicas; e Lulu (Daniella Wircer) é desenhista de moda. Seu pacto de manter-se longe de qualquer assunto que possa lhes fazer sair de seu mundo particular, porém, é alterado quando Noam conhece Ashraf (Yousef "Joe" Sweid), um árabe que chega à cidade de forma clandestina em busca de trabalho. Empregado por Yali e apaixonado por Noam, o rapaz precisa não apenas esconder sua origem mas também despistar seu modo de vida da própria família, que, conservadora, tem até um casamento arranjado para ele. A situação dramática de Ashraf - cujo cunhado é um importante membro do Jihad - acaba atingindo a todos, que passam a viver em constante tensão, e a fortalecer a relação entre ele e Noam, que não aceita ver sua relação ameaçada por questões religiosas.


Ao cercar sua dupla de protagonistas por coadjuvantes com histórias e dramas particulares - Lulu não se conforma com a atitude de um ex-amante que a abandonou depois de sua primeira noite e não enxerga que é alvo do amor platônico de um amigo; Yali vive uma relação de desejo e repulsa por um militar que conheceu no trabalho; a irmã de Ashraf está em vias de casar-se e é alvo da intolerância dos soldados da fronteira - o roteiro de "Bubble" cria um panorama rico e profundo de diferentes estilos de vida que fazem de Tel Aviv uma cidade com vida própria. Ao contrapor a rotina rígida dos árabes ortodoxos com a juventude que frequenta raves e assume uma existência desprovida de preconceitos de raça e orientação sexual, Eytan Fox traça um painel universal, retratando um mundo onde o moderno convive (nem sempre de forma harmoniosa) com o tradicional, e pessoas são vistas unicamente por sua religião e não por suas personalidades - únicas e ao mesmo tempo tão semelhantes. Fox equilibra com inteligência momentos românticos com sequências de tensão e busca até mesmo inserir humor quando é possível, amparado por uma trilha sonora eclética (que conta com a brasileira Bebel Gilberto) e por atuações inspiradas.

Com uma química transbordante entre seus atores principais - que transmitem a exata noção de familiaridade e intimidade que o roteiro exige - e um ritmo que vai envolvendo o espectador gradativamente até o final inesperado, "Bubble" é uma obra que ultrapassa a delimitação de "filme gay" - por mais que seu casal protagonista seja de homossexuais e outros gays tenham importância crucial na narrativa, sua intenção é jogar luz em um tema cada vez mais premente na sociedade mundial: a intolerância. A violência que está impregnada em cada sequência do filme, sempre à espreita e à espera de explodir, é a violência que existe em qualquer parte do mundo, contra gays, negros, indígenas, mulheres e praticantes de qualquer religião que não seja a "correta". Em seu filme, Fox deixa claro que é impossível permanecer dentro de uma bolha, distante do mundo: há sempre uma fresta por onde a realidade penetra, para fazer seus estragos - ou para despertar o melhor de cada um. "Bubble" é um filme que faz refletir enquanto conta sua história, e se emociona é porque consegue cativar o espectador com personagens humanos, verossímeis e encantadores, que parecem de carne e osso e que podem morar na casa ao lado. É um filme a ser descoberto e admirado por qualquer um que acredite no amor e na solidariedade.

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