sexta-feira, 2 de junho de 2017

ADEUS, MENINOS

ADEUS, MENINOS (Au revoir les enfants, 1987, Nouvelles Éditions de Films (NEF)/MK2 Productions, 104min) Direção e roteiro: Louis Malle. Fotografia: Renato Berta. Montagem: Emanuelle Castro. Figurino: Corrine Jorry. Direção de arte: Willy Holt. Produção: Louis Malle. Elenco: Gaspard Manesse, Raphael Fejto, Francine Racette, Stanislas Carré de Malberg. Estreia: 31/8/87 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Roteiro Original

Quando tinha 11 anos de idade, o futuro cineasta Louis Malle frequentou uma escola católica para rapazes no interior da França. Era o auge da II Guerra Mundial, e o nazismo se espalhava com assustadora velocidade quando o garoto foi testemunha de um acontecimento que nunca mais lhe saiu da memória: tal acontecimento, sob a visão poética e romântica do adulto que Malle se tornou, resultou em uma de suas maiores obras-primas. Indicado aos Oscar de filme estrangeiro e roteiro original e vencedor de 7 César (o Oscar francês), "Adeus, meninos" é, ao mesmo tempo, um delicado retrato do amadurecimento de um menino e uma emocionante ode à amizade incondicional e à solidariedade humana. Triste mas jamais sentimentaloide, forte sem nunca apelar para a violência explícita, o filme de Malle esteve, por coincidência, em uma corrida pelo Oscar marcada por outros três filmes que viam a guerra sob a ótica infanto-juvenil: o britânico "Esperança e glória", de John Boorman, o épico "Império do Sol", dirigido por Steven Spielberg e o caloroso "A era do rádio", de Woody Allen.

Enquanto o filme de Boorman encontrava espaço até mesmo para uma leveza inesperada, a obra de Spielberg apostava nas lágrimas, e a comédia de Allen flertava abertamente com uma nostalgia bem-humorada, a história contada por Malle encontra um equilíbrio perfeito entre a crônica de uma rotina recheada de orações, aulas enfadonhas, rusgas juvenis e o despertar da sexualidade e o drama denso de um filme de guerra visto de fora do conflito, por personagens que só tinham contato com ela através de notícias de rádio, racionamento de alimentos e a constante tensão à espera de bombardeios. Internos por suas famílias até como um meio de distanciar-se ao máximo do conflito, os alunos da escola St. Jean de la Croix sentem-se, de forma um tanto torta, seguros em relação ao mundo exterior, dedicados que estão a manter-se ocupados com suas tarefas diárias. Sentindo-se abandonado pela família - apesar do irmão mais velho também estar matriculado na mesma escola - o introvertido Julien Quentin (Gaspard Manesse, o alter ego do cineasta) volta ao convívio dos colegas e professores em janeiro de 1944 e, apesar de tudo parecer exatamente como nos anos anteriores, ele sente uma aura cada vez mais densa a respeito do colaboracionismo francês em relação ao nazismo. Relativamente popular em sua classe, ele vê sua atenção atraída por um novo aluno, o calado Jean Bonnett (Raphael Fetjo). Percebendo o isolamento a que o garoto é submetido por ser protestante, Julien se aproxima dele e entre os dois nasce uma bela amizade - que fica ainda mais forte quando a verdade sobre Jean surge e, ao invés de separá-los, os une de vez.


Construindo sua narrativa através de pequenas anedotas cotidianas que vão se conectando para formar um mosaico que retrata com precisão e nostalgia um período poucas vezes tratado com carinho pelas memórias afetivas, Louis Malle convida a plateia a penetrar em um universo onde conceitos como amizade, lealdade, honra e ética estão apenas sendo descobertos e postos à prova. Sem preocupar-se em enfeitar seu filme com uma estética rebuscada, o cineasta francês prefere centralizar seus esforços em fortalecer seus personagens e o ambiente de paranoia em que eles se encontram. Apesar de deixar claro em vários momentos que a escola serve como um escudo contra o mundo exterior - e onde a maior preocupação é trocar alimentos por cigarros ou dedicar-se a leituras de teor erótico, proibidas pelos padres -, o roteiro tampouco se furta a expor, de maneira explícita, as relações humanas do lado de fora de suas paredes: a bela cena em que a mãe de Julien, ao lado dos filhos e de Jean, testemunha um ato de violento preconceito contra um senhor judeu em um restaurante, é exemplar nesse sentido, oferecendo aos rapazes uma aula prática de intolerância em tempos de guerra que nenhuma escola lhes seria capaz.

Dirigido com um misto de sobriedade e emoção, "Adeus, meninos" é um filme de tocar o coração. Estabelece aos poucos a rede de relacionamentos entre seus personagens e apresentando-os com fluida naturalidade - para, ao final, utilizá-los com maestria em um desfecho coerente e amargo, que empurra seus protagonistas em direção ao repentino amadurecimento. Por tratar-se de uma história real, tudo fica ainda mais comovente e arrasador, mas Malle é um cineasta elegante e discreto, que impede que sua bela obra se transforme em um clichê melodramático. É de estraçalhar os sentimentos, mas é, acima de tudo, um cinema espetacular, vivo, real e inesquecível. Um dos grandes filmes dos anos 80.

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