sábado, 17 de junho de 2017

CREED: NASCIDO PARA LUTAR

CREED: NASCIDO PARA LUTAR (Creed, 2015, MGM/Warner Bros/New Line Cinema, 133min) Direção: Ryan Coogler. Roteiro: Ryan Coogler, Aaron Covington, estória de Ryan Coogler, personagens criados por Sylvester Stallone. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Claudia Castello, Michael P. Shawver. Música: Ludwig Goransson. Figurino: Antoinette Messam, Emma Potter. Direção de arte/cenários: Hannah Beachler/Amanda Carroll. Produção executiva: Nicolas Stern. Produção: Robert Chartoff, William Chartoff, Sylvester Stallone, Kevin King-Templeton, Charles Winkler, David Winkler, Irwin Winkler. Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashad, Andre Ward, Tony Bellew. Estreia: 19/11/15

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Sylvester Stallone)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Sylvester Stallone)

Em 1977, "Rocky, um lutador" surpreendeu aos desavisados e saiu da cerimônia do Oscar com os prêmios de filme e direção - contra obras como "Taxi driver", "Rede de intrigas" e "Todos os homens do presidente". Desde então, seu criador e intérprete, Sylvester Stallone vem passando por altos e baixos, intercalando sucessos de bilheteria e crítica com bombas que quase acabaram com sua carreira. Para sua sorte, porém, seu personagem mais famoso - ao lado do questionável John Rambo - volta e meia ressurge para dar um novo gás à sua carreira. Em 2006, por exemplo, ele parecia ter encerrado sua trajetória, com o êxito quase inesperado de "Rocky Balboa", que ele mesmo estrelou e dirigiu e que arrecadou mais de 150 milhões de dólares mundo afora - provando que sua popularidade ainda estava longe de diminuir. Mas eis que, quase uma década mais tarde, um jovem cineasta negro chamado Ryan Coogler, aplaudido por um filme-denúncia de grande importância - "Fruitvale Station: a última parada" - resolveu que ainda não era hora de aposentar o icônico lutador. Depois de muito insistir com o próprio Stallone, Coogler finalmente o convenceu a abençoar o projeto de "Creed: nascido para matar" - onde Balboa, para surpresa de muitos, é um personagem coadjuvante. Tal demonstração de humildade do ator não passou despercebida - ele levou pra casa o Golden Globe, foi unanimemente elogiado pela imprensa e só não ganhou o Oscar porque Mark Rylance, de "Ponte dos espiões", lhe passou a perna na última hora.

Na verdade, o projeto de "Creed" surgiu antes mesmo da estreia de "Fruitvale Station" - e foi o sucesso do filme, baseado em uma história real, que fez com que o desejo de Ryan Coogler se tornasse realidade. A princípio relutantes em retornar ao universo de Rocky Balboa, tanto Sylvester Stallone quanto o produtor Irwin Winkler só aceitaram diante da ideia proposta pelo jovem diretor: contar não mais uma história sobre Balboa, mas sim utilizá-lo como uma ponte para a introdução de um outro personagem, consistente com a  mitologia dos filmes e de fácil comunicação até mesmo com a plateia que não foi criada tendo Rocky como referência cultural. Surgia assim a história de Adonis Creed, filho bastardo de um antigo rival e amigo do lutador, o igualmente memorável Apollo Creed (interpretado por Carl Weathers nos quatro primeiros capítulos da série), que aparece na vida de Rocky como uma lembrança do passado e inicia com ele uma relação de pai e filho que ajuda o aposentado atleta a enfrentar uma batalha ainda mais dolorosa e aparentemente invencível: um câncer.


A relação entre Creed e Balboa acabou sendo o principal atrativo para Stallone, que durante a pré-produção teve que lidar com um golpe dos mais devastadores: a morte de seu filho Sage, aos 36 anos de idade, vítima de um ataque cardíaco. Em uma ironia das mais cruéis, o veterano ator estava em vias de fazer um filme que tinha como um dos principais temas um relacionamento paternal e tinha sua vida pessoal virada do avesso com uma perda irreparável. Inteligente, Coogler usou tal tristeza a seu favor: não apenas fez o ator perceber que o trabalho lhe faria bem como explorou ao máximo o sentimento de finitude que ele vinha experimentando. O resultado não poderia ter sido melhor, e a crítica reconheceu: desde "Copland" (97), Stallone não recebia elogios tão calorosos a uma atuação, e a indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante (na condição inédita de favorito) apenas coroou um sucesso também comercial. Com uma renda de mais de 100 milhões de dólares apenas no mercado doméstico, "Creed" comprovou a perenidade de Rocky Balboa no coração do público.

Mas, apesar do apelo de Stallone junto às plateias, é injusto creditar apenas a ele o êxito de "Creed": com um roteiro que não tenta inventar a roda e faz uso apropriado de todos os clichês que fizeram da série um fenômeno cultural, Ryan Coogler  criou uma história universal de amor - aos amigos, à família, à namorada, ao esporte. E de quebra , acertou em cheio ao escolher seu ator principal. Carismático e talentoso, Michael B. Jordan já havia trabalhado com o diretor em "Fruitvale Station" - e foi responsável por boa parte da recepção positiva ao filme. Em "Creed" ele demonstra ainda mais poder de fogo ao dividir suas cenas com um monstro sagrado como Stallone e não se deixar eclipsar. Na pele de Adonis Creed, o jovem ator vai da fúria à tristeza, da solidão à paixão e do medo à ousadia em um piscar de olhos - e leva a plateia junto, até o final (quase previsível, mas ainda assim emocionante como nos melhores momentos dos filmes da série). Uma bem-vinda injeção de sangue novo em um personagem constantemente em reinvenção, "Creed: nascido para lutar" é um programa e tanto para os fãs - e até para aqueles raros espectadores que nunca ouviram falar em Rocky Balboa.

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