quinta-feira, 8 de junho de 2017

JANTAR COM BEATRIZ

JANTAR COM BEATRIZ (Beatriz at dinner, 2017, Bron Studios/Killer Films, 81min) Dieção: Miguel Arteta. Roteiro: Mike White. Fotografia: Wyatt Garfield. Montagem: Jay Deuby. Música: Mark Mothersbaugh. Figurino: Christina Blackaller. Direção de arte/cenários: Ashley Fenton, Madelaine Frezza. Produção executiva: Jason Cloth, Brad Feinstein, Lewis Hendler, Richard McConnell, Andrew Pollack, Alan Simpson, Jose Tamez, Paul Tennyson. Produção: Aaron L. Gilbert, David Hinojosa, Pamela Koffler, Christine Vachon. Elenco: Salma Hayek, John Lithgow, Connie Britton, Chloe Sevigny, Jay Duplass, Amy Landecker, David Warshofsky. Estreia: 23/01/17 (Festival de Sundance)

É uma pena que nem todos os bons filmes lançados no Festival de Sundance encontrem uma distribuição decente e tenham as mesmas chances das grandes produções hollywoodianas de chegar até o público - e às cerimônias de premiação, que afinal de contas lhes dariam o aval necessário para o sucesso comercial. Por causa do domínio de mercado dos blockbusters, por exemplo, filmes como "Jantar com Beatriz" ficam restritos a pequenas plateias mais antenadas e dispostas a procurar alternativas ao que é oferecido sem critério nas salas de exibição. Dirigido por Miguel Arteta - o cineasta porto-riquenho que proporcionou à Jennifer Aniston um de seus melhores papéis no cinema, em "Por um sentido na vida" (2002) - e estrelado por uma impressionante Salma Hayek, "Jantar com Beatriz" é uma obra concisa (pouco mais de 80 minutos de duração, contando com os créditos finais) e socialmente relevante, um filme que vai envolvendo o espectador gradualmente em um tom de suspense e imprevisibilidade do qual é impossível desvencilhar-se até a última (e melancólica) cena.

Completamente desprovida da sensualidade vulcânica que a elevou a um dos maiores símbolos sexuais do final da década de 90 - mais precisamente desde que encarou uma perigosa vampira em "Um drink no inferno" (96) - e muito mais consistente como atriz do que em seu trabalho que lhe rendeu uma indicação ao Oscar em 2003, por "Frida", Salma Hayek entrega, em "Jantar com Beatriz", uma atuação madura e minimalista, que reflete com inteligência um texto ácido e moralmente impactante sobre o estado político e social da era Trump - um momento crucial para os EUA e sua relação com o resto do mundo. Assumindo sem reservas sua origem mexicana, Hayek constrói uma protagonista cujas nuances cada vez mais complexas vão encontrando espaço no decorrer da narrativa, ora cruel, ora dotada de um humor cínico, característica do roteirista Mike White - criador da série "Enlightened", estrelada por Laura Dern em 2011. Conseguindo escapar inclusive de alguns momentos maniqueístas propostos por White, o desempenho de Hayek já seria motivo suficiente para garantir uma melhor carreira para o filme - mas há muito mais a se aplaudir.





Beatriz, a personagem de Hayek, é um primor: imigrante mexicana há décadas morando nos EUA, ela trabalha em um centro de medicina holística, como especialista em tratamentos alternativos. Desde as primeiras cenas fica clara a sua paixão pelos animais e pela natureza, sua calma e atitudes zen em relação à vida e tudo a seu redor. Como uma profissional dedicada e reconhecida, ela é amiga de Kathy (Connie Britton) - cuja filha ela ajudou a recuperar-se de um câncer há algum tempo -, e é nessa condição que ela se vê convidada a ficar em sua mansão para um jantar que será oferecido a um milionário que está fazendo negócios com seu marido, Grant (David Warshofsky). Com o carro estragado e aguardando o socorro de um conhecido, Beatriz aceita o convite - apesar de não estar devidamente vestida para tal - e não demora a perceber que não está em seu habitat natural. Simples e direta, sem afetações, ela tenta compreender a quase futilidade de Kathy (a quem ela realmente devota lealdade e amizade) quando na presença de um dos casais convidados à recepção, Alex (Jay Duplass) e Shannon (Chloe Sevigny). A chegada do homenageado, porém, é que irá deflagrar novos conflitos: o empresário Doug Strutt (John Lithgow) é a antítese de tudo em que Beatriz acredita, um homem frio e insensível, capaz de apelar para atos ilegais para aumentar sua fortuna e comandar caçadas na África pelo puro prazer de matar. A figura de Doug - em atuação inspirada de Lithgow - é que despertará em Beatriz, até então uma testemunha calada e um tanto ingênua dos assuntos tratados à mesa, uma angústia e uma fúria que terão desdobramentos surpreendentes.

Sem exagerar nas reviravoltas - o que daria ao filme um tom de melodrama barato - mas mantendo em suspenso toda e qualquer possibilidade de conflito, "Jantar com Beatriz" é um triunfo de concisão e objetividade. Por mais que suas cenas iniciais pareçam avulsas ou desnecessárias, são elas que vão costurando, com sutileza, todo o contorno da personalidade da protagonista - que conquista a simpatia do público justamente por lutar pelo que acredita mesmo diante de seus maiores oponentes. A câmera não se furta a mostrar Salma Hayek em close diversas vezes, como forma de sublinhar sua surpresa, seu choque, sua indignação frente a um universo que ela simplesmente não consegue (e nem pretende) compreender. Sua personagem, uma representante legítima do eterno conflito entre Davi e Golias, é um presente à atriz, e ela não foge da responsabilidade, entregando uma performance impecável - e levando a plateia a torcer por seus princípios e talvez até converter-se a eles. "Jantar com Beatriz" é um filme necessário, tocante e inteligente, que retrata como poucos o abismo social e ético que vem aumentando exponencialmente não apenas nos EUA, mas em todo o mundo. Uma obra imprescindível - ainda que termine de forma um tanto brusca e anticlimática.

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