terça-feira, 7 de outubro de 2014

UM ASSALTANTE BEM TRAPALHÃO

UM ASSALTANTE BEM TRAPALHÃO (Take the money and run, 1969, Palomar Pictures, 85min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Mickey Rose. Fotografia: Lester Shorr. Montagem: Paul Jordan, Ron Kalish. Música: Marvin Hamlisch. Direção de arte/cenários: Fred Harpman/Marvin March. Produção executiva: Sidney Glazier. Produção: Charles H. Joffe. Elenco: Woody Allen, Janet Margolin, Marcel Hillaire, Jacquelyn Hyde, Lonny Chapman. Estreia: 18/8/69

Woody Allen não era nenhum novato nas telas de cinema quando dirigiu seu primeiro longa-metragem, em 1969. Seu inconfundível rosto já havia sido visto em "Qque é que há, gatinha?" (65) - cujo roteiro ele também escreveu - e "Cassino Royale" (a versão cômica de 1967, não o filme de James Bond estrelado por Daniel Craig). Insatisfeito com ambas as experiências, ele resolveu que era hora de fazer o seu próprio filme. Com a recusa de seu ídolo Jerry Lewis em dirigir "Um assaltante bem trapalhão" (título genérico que lembra os filmes de Renato Aragão), o comediante de stand-up deu então seu primeiro passo em direção a uma carreira brilhante de cineasta. E quem hoje acusa seu humor de ser elitista ou sofisticado demais para o grande público tem a obrigação de dar ao menos uma olhada em sua estreia atrás das câmeras: ao mesmo tempo que faz rir com um instantâneo humor visual, Allen também brinda o espectador com tiradas hilariantes, em especial com a narração em off, que dá ao filme a honra de ser o primeiro "mockumentary" (falso documentário) lançado em grande escala nos cinemas - e que alcançaria um de seus maiores representantes em outro filme do mesmo diretor, o genial "Zelig" (83).

Dividindo com o protagonista a sua própria data de nascimento (01 de dezembro de 1935), Allen conta a errante trajetória de Virgil Starkwell (vivido por ele mesmo) no crime, através de depoimentos de seus pais (escondidos atrás de máscaras de Groucho Marx por causa da vergonha que sentem do filho bandido), professores e de várias pessoas que passaram por sua vida, como médicos psiquiatras e diretores de presídio. A narrativa começa com a infância de Starkwell, que iniciou-se na vida de fora-da-lei roubando balas e se mantém até seus dias como uma mente criminosa mais sofisticada (ou o mais perto disso), quando resolve passar a assaltar bancos. Logicamente, sob o ponto de vista satírico de Allen, todo o caminho do aspirante a meliante esbarra em situações surreais - como o medicamento em teste que como efeito colateral transforma o paciente em rabino - e vira do avesso até mesmo as convenções românticas (Starkwell se apaixona ao tentar roubar uma bolsa e nem mesmo apaixonado abandona seus intentos por um bom tempo).

Criando seu filme em formas de sketchs cômicos unidos por uma história bastante tênue - que, segundo o cineasta, foi salvo pela edição inteligente de Ralph Rosenblum, que tornou-se um colaborador assíduo em suas obras seguintes - Allen demonstra já em seu primeiro trabalho atrás das câmeras o gosto pelo humor sardônico, de situações normais transformadas em momentos de grande resultado histriônico. "Um assaltante bem trapalhão" não é uma comédia de altas gargalhadas - como não o é a maioria dos trabalhos do diretor - e sim um filme que extrai sua graça do absurdo do dia-a-dia. Sem apelar para piadas de baixo calão ou para o humor escatológico, Allen faz rir com coisas simples - o assalto ao banco, por exemplo, que é barrado pela burocracia e pela letra ilegível de seu bilhete ameaçador, ou a fuga com um revólver feito de sabão que é frustrada pela chuva que o dissolve na hora H - e tira proveito de sua persona naturalmente desajeitada para conquistar a empatia do público.

"Um assaltante bem trapalhão" não é uma obra-prima. Marinheiro de primeira viagem, Allen ainda não havia burilado suficientemente seu estilo de humor e cinema - coisa que progressivamente faria até a consagração com os Oscar de filme, direção e roteiro de "Noivo neurótico, noiva nervosa", oito anos mais tarde. Mas em seu cerne já estão explícitas muitas das características que lhe seriam a marca registrada daí em diante, como o senso de humor inteligente e irônico, o despojamento no modo de filmar e a tendência a ridicularizar temas até então tidos como intocáveis pela comédia, como a psicanálise (tema frequente de vários futuros filmes) e a família. Desde então, tendo mudado o final previsto para sua história - substituindo o trágico pelo engraçado por sugestão do editor - o cineasta nova-iorquino oficializou um gênero em si: seus filmes não são comédias, dramas ou musicais, são "filmes de Woody Allen". Os cinéfilos de bom-gosto agradecem.

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