sexta-feira, 3 de outubro de 2014

JULES E JIM, UMA MULHER PARA DOIS

JULES E JIM, UMA MULHER PARA DOIS (Jules et Jim, 1962, Les Films du Carrosse, 105min) Direção: François Truffaut. Roteiro: François Truffaut, Jean Gruault, romance de Henri-Pierre Roché. Fotografia: Raoul Coutard. Montagem: Claudine Bouché. Música: Georges Delerue. Figurino/Direção de arte: Fred Capel. Produção executiva: Marcel Berbert. Produção: François Truffaut. Elenco: Jeanne Moreau, Oskar Werner, Henri Serre, Vanna Urbino, Bassiak, Sabine Haudepin. Estreia: 23/01/62

Em seu filme "Uma mulher é uma mulher", lançado em 1961, o cineasta Jean-Luc Godard - que, assim como François Truffaut era um dos críticos da prestigiosa revista "Cahiers du Cinéma" - faz com que o personagem vivido por Jean-Paul Belmondo encontre com a atriz Jeanne Moureau (no papel dela mesma) e pergunte a ela "Como está indo 'Jules e Jim'?" Essa pequena brincadeira entre amigos (frequentemente os diretores colaboravam nos projetos do outro) é a primeira menção feita no cinema àquele que se tornaria um dos mais conhecidos, amados e reverenciados filmes franceses de todos os tempos. Terceiro filme de Truffaut - depois do memorialista "Os incompreendidos" (59) e do quase experimental "Atire no pianista" (60) - o drama romântico "Jules e Jim, uma mulher para dois" se baseia no romance autobiográfico de Henri-Pierre Roché para contar a história de um triângulo amoroso libertário que encontrou na juventude revolucionária dos anos 60 sua audiência perfeita. Uma pena que o próprio Roché tenha morrido antes de ver na esplendorosa fotografia em preto-e-branco de Raoul Coutard a personificação de sua Catherine na bela e fascinante Jeanne Moreau.

A trama tem início antes da Primeira Guerra Mundial, quando o alemão Jules (Oskar Werner) e o francês Jim (Henri Serre), inseparáveis e amantes da arte, da vida boêmia e dos prazeres mundanos que Paris lhes pode oferecer, conhecem a independente Catherine (Jeanne Moreau), que logo conquista a ambos com sua vivacidade, beleza e uma certa dose de amoralidade. Sentindo-se irresistivelmente atraída a Jules, ela acaba se casando e tendo uma filha com ele. Separados pela guerra - e pelo medo paralisador de matarem um ao outro sem o saber - os dois amigos ficam anos sem encontrar-se, comunicando-se apenas por cartas. O final do conflito, porém, volta a aproximá-los apenas para que Jim perceba que o relacionamento entre Jules e Catherine não é mais o mesmo, tendo sido abalado pelo tempo, por traições e pela rotina. Apaixonando-se novamente pela mulher do amigo, Jim se surpreende quando é convidado por ele a morar com a família. A ideia de Jules é simples: sabendo que não tem mais o amor da esposa, aceita que ela se envolva com o rapaz, como forma de não perdê-la de uma vez por todas.


Tido por muitos jovens de sua época como uma espécie de ode ao amor livre, "Jules e Jim" é, no entanto, o exato oposto dessa ideia, por mais excitante que ela possa parecer. Com suas imagens icônicas e sempre lembradas pelos fãs de cinema - a corrida dos três amigos em uma ponte, Jeanne Moreau vestida de homem, com direito a bigodinho e tudo - François Truffaut traduziu, para toda uma geração, a ansiedade em relação aos próprios sentimentos. Mesmo com todo o glamour da primeira parte do filme, quando todo um universo está disponível aos personagens, fica claro, em sua metade final, de que arriscar-se no amor é um jogo de azar e que, por mais modernos e descolados que as pessoas sejam, a dor é uma possibilidade bastante grande. Apesar disso, no entanto, o cineasta tem o bom gosto de mostrar isso de maneira poética e sutil, contando para isso com a jovialidade de seu talento e seu elenco excepcional - em especial a inesquecível Jeanne Moreau.

Se Oskar Werner e Henri Serre serão eternamente lembrados como os dois amigos enfeitiçados pelos encantos de uma sereia francesa de olhar penetrante e sorriso misterioso, é Jeanne Moreau quem domina o filme com seus encantos, sua voz sedutora - que inclusive canta graciosamente em uma sequência agradável e leve que remete aos primórdios de sua relação a três, antes que ela se tornasse mais complicada do que deveria - e seu carisma. Apaixonado pela atriz à época das filmagens, Truffaut dá a ela, visualmente, o status de uma divindade, inalcançável e paradoxalmente acessível. Moreau - que ajudou inclusive a financiar o filme quando o dinheiro inicialmente disponível acabou - sorri e faz com que o espectador sorria com ela. É difícil de condenar Jules e Jim por amá-la. É difícil não se apaixonar pela Catherine de Jeanne Moreau. E esse magnetismo é impossível fingir!

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