domingo, 12 de outubro de 2014

HOUVE UMA VEZ UM VERÃO

HOUVE UMA VEZ UM VERÃO (Summer of '42, 1971, Warner Bros, 103min) Direção: Robert Mulligan. Roteiro: Herman Raucher. Fotografia: Robert Surtees. Montagem: Folmar Blangsted. Música: Michel Legrand. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Marvin March. Produção: Richard A. Roth. Elenco: Jennifer O'Neill, Gary Grimes, Jerry Houser, Oliver Conant, Katherine Allentuck, Christopher Norris, Lou Frizzell. Estreia: 09/4/71

4 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original

Uma década antes das escatologias de "Porky's" e quase trinta anos à frente do sucesso comercial de "American Pie", um outro filme,  que também tratava da busca adolescente pelo santo graal da perda da virgindade chegava às telas de cinema. Porém, sem vulgaridade de nenhuma espécie e banhado em pureza, ingenuidade e poesia, "Houve uma vez dois verões", baseado em uma história real vivida pelo roteirista Herman Raucher - que chegou a ser indicado ao Oscar da categoria - ficou marcado na memória dos apaixonados espectadores como um dos mais belos retratos da perda da inocência masculina já mostrados pela sétima arte. Lembrado principalmente pela extraordinária trilha sonora de Michel Legrand, que embalou toda uma geração e pela beleza delicada de Jennifer O'Neill, o filme de Robert Mulligan ainda é capaz de seduzir a audiência cínica dos blockbusters de hoje graças ao perfeito balanço entre comédia e drama atingido por seu diretor.

Assim como deixa bem claro o título original do filme, "Houve uma vez um verão" tem sua ação situada em 1942, em uma ilha americana onde o adolescente Harmie (Gary Grimes) passa a temporada juntamente com sua familia e seus amigos, em especial o indiscreto Oscy (Jerry Houser), cujo maior objetivo nas férias é perder a virgindade. Tímido e desajeitado, Harmie acaba acompanhando seu amigo em suas tentativas de completar sua missão, mas não consegue deixar de lado a atração irresistível que sente por Dorothy, uma mulher mais velha que mora em uma casa distante do centro da cidade: linda e delicada, ela é casada com um soldado que está na guerra e acaba se aproximando do rapaz quando ele a auxilia a carregar suas compras e surge entre eles uma espécie de amizade - que ele tenta esconder de sua turma como um tesouro raro e precioso. Dividindo seu tempo entre idas ao cinema, encontros fortuitos com meninas de sua idade - e uma hilariante visita à farmácia para comprar preservativos - Harmie não demora a perceber que está apaixonado pela primeira vez na vida.


Escrito inicialmente como uma homenagem à memória de Oscy - que na vida real morreu na Guerra da Coreia no dia do aniversário do escritor - "Houve uma vez um verão" acabou transformando-se, de maneira orgânica, na relação entre Harmie (alter-ego do autor Herman Raucher) e Dorothy, e na forma indelével com que ela ficou marcada em sua história. Apesar de na vida real a relação de amizade entre os dois ter sido mais longa do que a retratada no filme, Raucher fez questão de manter intactos no roteiro os nomes dos personagens e até mesmo algumas situações de seu inesquecível verão - que acabou tornando-se inesquecível também para as plateias. Filmado com leveza por Robert Mulligan - consagrado por "O sol é para todos" (62) - o filme mescla com parcimônia momentos de extrema beleza romântica (no que a trilha sonora ajuda lindamente) e cenas engraçadíssimas, como a já citada sequência na farmácia e as cenas em que Harmie e Oscy tentam decifrar os códigos de um livro sobre sexo roubado da estante de um amigo. É um humor puro, que, a despeito de seu tema, jamais ofende ou constrange o espectador e ainda por cima reflete com exatidão como se vivia à época.

A história real de "Houve uma vez um verão" - que acabou sendo homenageado pelo cineasta Jorge Furtado em seu primeiro longa, "Houve uma vez dois verões", de 2002 - não termina quando os créditos finais sobem na tela. A julgar por uma entrevista de Raucher, o que veio a seguir daria um outro e excelente filme. Segundo ele, assim que o filme foi lançado ele recebeu centenas de cartas de mulheres que se diziam a Dorothy do filme - de quem ele, por incrível que pareça, nunca perguntou o sobrenome. Depois de passar por situações bastante tristes na vida - como a morte do futuro cunhado, de Oscy e de seu pai no prazo de pouquíssimo tempo - ele só veio a ter notícias da verdadeira Dorothy em 1971. Ela perguntava, em sua carta, se havia cometido um crime psicológico contra ele após o verão de 42. O escritor até pode achar que "é melhor deixar quietos os fantasmas daquela noite", mas sem dúvida nenhuma criou um pequeno clássico moderno com sua bela história de amor e crescimento.

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