sábado, 4 de outubro de 2014

FREUD, ALÉM DA ALMA

FREUD, ALÉM DA ALMA (Freud, 1962, Universal International Pictures,140min) Direção: John Huston. Roteiro: Charles Kaufman. Fotografia: Douglas Slocombe. Montagem: Ralph Kemplen. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Doris Langley Moore. Direção de arte: Stephen B. Grimes. Produção: Wolfgang Reinhardt. Elenco: Montgomery Clift, Susannah York, Larry Parks, Susan Kohner, Fernand Ledoux. Estreia: 12/12/62

2 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado e Trilha Sonora Original

Uma das mais importantes personalidades da história científica mundial, o austríaco Sigmund Freud poucas vezes foi representado nas telas de cinema, especialmente de forma a mostrar ao grande público o nascimento de suas teorias - violentamente refutadas em sua época, mas amplamente influentes conforme a comunidade médica foi percebendo seu alcance no tratamento de neuroses e outras patologias psicológicas. Suas tentativas de criar um método de cura para seus pacientes psicóticos são a base na qual se sustenta "Freud, além da alma", em que o respeitado cineasta John Huston retrata o pai da psicanálise como um homem profundamente dedicado à sua ciência a ponto de buscar dentro de si mesmo as respostas para as difíceis questões que lhe atravessam o caminho para o sucesso. Esse lado torturado do protagonista encontra eco na atuação de um dos atores mais intensos da Hollywood da década de 60: Montgomery Clift.

Em seu segundo trabalho com Huston - depois do polêmico e complicado "Os desajustados" - Clift encontrou um diretor bastante diferente daquele do primeiro contato. Enquanto durante as filmagens do faroeste tardio estrelado também por Marilyn Monroe e Clark Gable, o atormentado ator teve contato com um cineasta paternalista e carinhoso que relevava seus problemas com álcool e tranquilizantes, em seu reencontro com ele as coisas foram bastante diferentes. Segundo declarações de membros da equipe, Huston pressionava Clift frequentemente a respeito de sua enrustida homossexualidade, utilizando vários conceitos do próprio Freud em sua tentativa de arrancar do ator uma atuação ainda mais potente. Se os métodos do cineasta não foram exatamente simpáticos, porém, é impossível negar que, em termos artísticos eles funcionaram perfeitamente. Com seu olhar profundo e uma interpretação que equilibra momentos de excitação e dúvida, Montgomery Clift apresenta um dos melhores trabalhos de sua carreira - e o penúltimo dela.


A trama de "Freud, além da alma" começa em 1885, mostrando Freud no início de seus estudos sobre hipnose como forma de tratamento psicológico. De maneira a criar um arco dramático adequado, o roteiro de Charles Kaufman - uma vez que o script do filósofo Jean-Paul Sartre foi descartado por ser extenso demais - condensa vários pacientes (de sintomas variados) em uma única personagem, a neurótica Cecily Koertner (Susannah York), uma mulher que sofre de histeria profunda, repressão sexual e fixação paterna. Conforme vai se aprofundando nas consultas com Cecily - que já foi paciente de um amigo seu e teve por uma obsessão romântica - Freud vai criando um método novo de tratamento, chegando ao âmago de cada problema através de uma série de regressões psicológicas que remetem à infância e que também o leva a questionar sua relação com o próprio passado, que tenta manter esquecido no fundo da memória.

A atuação memorável de Montgomery Clift encontra respaldo no cuidado de John Huston com os detalhes da encenação. A fotografia em preto-e-branco de Douglas Slocombe (que depois seria o diretor de fotografia dos primeiros filmes da série "Indiana Jones") mescla o realismo seco do dia-a-dia dos personagens com filtros que remetem às alucinações de Cecily e os pesadelos constantes do protagonista, dignos dos mais assustadores filmes surrealistas de Luis Buñuel. Entre tudo isso, há o roteiro quase didático mas extremamente eficiente, a direção criativa de Huston e a competente reconstituição de época que remete o espectador à Viena do final do século XIX. O enorme sucesso do filme - fato que fez a Universal desistir de processar Clift pelos atrasos nas filmagens - mostrou que a personalidade polêmica de Sigmund Freud não era coisa do passado.

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