domingo, 26 de outubro de 2014

CLIENTE MORTO NÃO PAGA

CLIENTE MORTO NÃO PAGA (Dead men don't wear plaid, 1982, Universal Pictures, 88min) Direção: Carl Reiner. Roteiro: Carl Reiner, George Gipe, Steve Martin. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Bud Molin. Música: Miklós Rózsa. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: John DeCuir/Richard Goddard. Produção: William E. McEuen, David V. Picker. Elenco: Steve Martin, Rachel Ward, Carl Reiner. Estreia: 21/5/82

Rigby Reardon, um detetive particular dos anos 40, com um passado traumático e uma queda por belas mulheres, recebe a visita de Juliet Forrest, a herdeira de um cientista morto em um acidente de carro que o contrata para investigar o caso, que ela acredita tratar-se de um homicídio. De posse apenas de um pedaço de papel que o leva a duas listas misteriosamente intituladas "Amigos de Carlotta" e "Inimigos de Carlotta", ele parte em busca da resolução, contando para isso com a ajuda de seu amigo Phillip Marlowe e cruzando o caminho de antigas paixões e novas tentações e perigos. Não, não se trata de um filme noir dirigido por Michael Curtiz ou Billy Wilder ou estrelado por Humphrey Bogart e Joan Crawford. Quer dizer, mais ou menos: "Cliente morto não paga" é uma brincadeira em preto-e-branco dirigida por Carl Reiner e Steve Martin que satiriza, em tom de homenagem, um dos mais queridos gêneros da velha Hollywood, utilizando-se, para isso, de imagens de arquivo de verdadeiras lendas do cinema. Fracasso de bilheteria, o filme, entretanto, é uma delícia para cinéfilos de plantão.

Cenas de nada menos que dezenove filmes aparecem em "Cliente morto não paga", com distintos graus de importância para o desenvolvimento da trama, que, é bom dizer, não passa de um bom McGuffin (termo criado por Hitchcock para definir uma história que no fundo é apenas pano de fundo para a estrutura narrativa). O que importa no roteiro - co-escrito por Martin, Reiner e George Gipe - não é a trama, e sim como ela se encaixará com a constelação de astros que desfila pela tela em pouco menos de hora e meia. De uma forma ou outra, Rigby (em inspirada atuação de Steve Martin) contracena com Alan Ladd, Humphrey Bogart (em seu papel de Phillip Marlowe), Bette Davis, Ray Milland, Joan Crawford, Ava Gardner, Charles Laughton, Vincent Price, Fred MacMurray, Barbara Stanwyck, Ingrid Bergman, Veronica Lake e Burt Lancaster em cenas de alguns de seus filmes mais famosos. Brilhantemente editado, o filme mostra Martin travestido de loura para uma impagável recriação da cena do supermercado entre Fred MacMurray e Barbara Stanwyck em "Pacto de sangue", remonta um diálogo com Ray Milland em "Farrapo humano", toma um drink batizado com Ingrid Bergman em "Interlúdio" e divide um vagão de trem com Cary Grant em "Suspeita".


Último trabalho da figurinista Edith Head - uma lenda dos bastidores de Hollywood, vencedora de oito Oscar - "Cliente morto não paga" é inteligente também no uso que faz dos clichês do gênero que acarinha, jamais debochando de seus exageros, mas iluminando-os sob a luz da nostalgia. Criminosos nazistas convivem com femmes fatales, detetives tem insights geniais apenas com seu talento dedutivo, ambientes enfumaçados servem de ponto de encontro entre personagens de moralidade dúbia e situações de perigo aparentemente insolúveis milagrosamente se resolvem com auxílios inesperados. Quem conhece os meandros das tramas policiais que Hollywood filmou nos anos 30 e 40 certamente irá se deliciar mais com as referências diversas, mas não falta ao público neófito muito com o que se divertir, seja com o dom histriônico de Steve Martin ou com a beleza de Rachel Ward, saindo-se muito bem na pele da misteriosa Juliet Forrest, depois de ter arrasado o coração de Jeff Bridges em "Paixões proibidas".

Uma comédia que aposta mais nos sorrisos de reconhecimento e um show de técnica que presta um tributo admirável aos tempos dourados de uma Hollywood que se mantém viva no coração dos cinéfilos - como o próprio diretor Carl Reiner, pai do também cineasta Rob - "Cliente morto não paga" é o tipo de filme que acaricia a própria indústria e a paixão por fazer cinema. Para os fãs da sétima arte é um deleite em forma de celulóide.

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