domingo, 28 de dezembro de 2014

A MORTE LHE CAI BEM

A MORTE LHE CAI BEM (Death becomes her, 1992, Universal Pictures, 104min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Martin Donovan, David Koepp. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Jackie Carr. Produção: Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Meryl Streep, Goldie Hawn, Bruce Willis, Isabella Rossellini, Sydney Pollack. Estreia: 31/7/92

Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais

Depois que mostrou que desenhos animados e atores poderiam conviver pacificamente em uma tela de cinema com o incrível sucesso de crítica e bilheteria de "Uma cilada para Roger Rabbit" (88) e que viagens no tempo poderiam ser incrivelmente divertidas com a trilogia "De volta para o futuro", encerrada em 1989, quase tudo era esperado do diretor Robert Zemeckis. Quase tudo, menos que ele partisse sem pestanejar pelo pantanoso terreno do humor negro - em especial com um filme que criticasse sem o menor pudor a busca desesperada pela eterna juventude que tanto alimenta a fogueira das vaidades do mundo artístico. De posse de efeitos visuais impecáveis que acabariam levando o Oscar do ano seguinte e um trio de atores respeitados e populares, Zemeckis, no entanto, encarou um banho de água fria quando seu "A morte lhe cai bem" estancou nas bilheterias ianques pouco abaixo dos 60 milhões de dólares - praticamente o orçamento final do projeto. Um dos típicos fracassos injustos de que a história de Hollywood está repleta, a história de inveja, vingança e competição entre duas inimigas que disputam o amor do mesmo homem - não por acaso um cirurgião plástico - às raias do absurdo é um primor de ironia, sarcasmo e mordacidade, interpretado como um filme de terror das antigas mas revestido de uma modernidade de que somente o cinemão mainstream americano seria capaz sem cair no ridículo.

A trama é puro nonsense: começa quando o bem-sucedido cirurgião Ernest Menville (Bruce Willis se divertindo em papel que seria de Kevin Kline) troca sua então noiva, Helen Sharp (Goldie Hawn), pela estrela dos palcos Madeline Ashton (Meryl Streep), mais interessada em seus talentos médicos do que exatamente por seu amor. Revoltada, Helen, que sempre manteve uma relação tumultuada com Madeline, a quem acusa de roubar sistematicamente seus namorados, se entrega à comida, engordando alucinadamente. Anos se passam e justamente quando o casamento entre Madeline e Ernest está em frangalhos - ele parou de clinicar por causa do álcool e trabalha maquiando cadáveres e ela está se sentindo cada vez mais velha, sendo desprezada até pelo amante mais jovem - Helen dá sinais de vida, mandando o convite para o lançamento de seu livro. Glamourosa, carismática, magra - e melhor ainda, dotada de uma jovialidade espantosa - ela acaba por seduzir novamente Ernest e planeja, com ele, a morte de sua maior rival. O que ela não esperava, no entanto, é o fato de Madeline ter encontrado uma nova fonte da juventude através da misteriosa Lisle Von Rhuman (Isabella Rossellini, linda). Dotada de uma nova força, ela se descobre imortal - mas também verá que tal benefício também tem seus pequenos problemas.


O tom gótico da brincadeira de Zemeckis está presente em cada minuto de celulóide - desde a chuva incessante, com direito a relâmpagos, que emoldura os momentos em que as duas rivais imortais se digladiam com espingardas, pás e agressões físicas das mais variadas, até nos mirabolantes cenários, que reconstituem mansões pra lá de sinistras. O roteiro brinca com a obsessão pela juventude e pela beleza na forma de uma fábula grotesca, sem heróis ou vilões e recheada de citações à cultura popular (entre os convidados da festa de Lisle, por exemplo, estão alguns de seus mais famosos clientes, facilmente reconhecíveis pelo público, mas que não convém revelar sob pena de estragar a surpresa aos ainda não-iniciados ao filme). Os efeitos especiais de primeira linha também chamam a atenção por se integrarem organicamente à história, divertindo o público pelo inusitado de seu visual: de repente, Meryl Streep, uma atriz respeitada e então vencedora de dois Oscar, está com o pescoço torcido ao contrário ou com a cabeça enterrada no corpo, e Goldie Hawn levanta da piscina com um rombo gigantesco no estômago, resultado de um tiro. Tais truques, realizados com perfeição, acabaram levando o Oscar da categoria, batendo filmes bem mais afeitos a tais artifícios, como "Alien 3" e "Batman, o retorno".

É lógico que o público acostumado com besteiras inconsequentes e filmes de ação descerebrados não gostou de "A morte lhe cai bem". Apesar de tudo, a obra de Zemeckis é sutil e inteligente, passando longe do humor fácil e previsível. É uma crítica pesada ao culto à beleza e à juventude, disfarçada de comédia gótica e repleta de piadas visuais e verbais que podem facilmente passar despercebidas ao espectador menos atento e informado dos bastidores da indústria do entretenimento. Para aqueles que buscam uma diversão menos superficial, porém, o filme é deliciosamente perverso, algo como uma versão high-tech de um filme estrelado por Bette Davis e Joan Crawford. Impagável!

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