sábado, 6 de dezembro de 2014

JUSTIÇA CEGA

JUSTIÇA CEGA (Internal affairs, 1990, Paramount Pictures, 115min) Direção: Mike Figgis. Roteiro: Henry Bean. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Robert Estrin. Música: Brian Banks, Mike Figgis, Anthony Marinelli. Figurino: Rudy Dillon. Direção de arte/cenários: Waldemar Kalinowski/Florence Fellman. Produção executiva: Pierre David, René Malo. Produção: Frank Mancuso Jr.. Elenco: Richard Gere, Andy Garcia, Nancy Travis, Laurie Metcalf, William Baldwin, Annabella Sciorra, Richard Bradford, Michael Beach, John Kapelos, Xander Berkeley. Estreia: 12/01/90

O ano de 1990 foi particularmente feliz para os atores Andy Garcia e Richard Gere. O ator cubano, que já havia sido notado como um dos intocáveis de Brian DePalma e foi o parceiro de Michael Douglas em "Chuva negra" (89), de Ridley Scott, arrancou elogios rasgados e uma indicação ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho como o sobrinho bastardo de Michael Corleone (Al Pacino) em "O poderoso chefão, parte 3". E Gere, que havia estreado no cinema no final dos anos 70, se tornado símbolo sexual graças a filmes como "Gigolô americano" (80) e entrado em um período de estagnação na carreira, voltou a brilhar intensamente como par romântico de uma bela prostituta (Julia Roberts) sob a visão Disney no megassucesso "Uma linda mulher". Além disso, ambos lideraram o elenco de "Justiça cega", um thriller policial brilhante, dirigido pelo independente Mike Figgis e que remetia diretamente aos exemplares do gênero realizados por Hollywood na década de 70 - obras mais cerebrais que tiravam partido do estado de paranoia pós-Nixon. Inesperado sucesso de crítica, o filme praticamente deu aos dois atores as chances de que precisavam para serem notados (ou redescobertos) pelo grande público.

Mike Figgis - o diretor que cinco anos mais tarde concorreria ao Oscar da categoria pelo deprimente "Despedida em Las Vegas" - constroi, com base no roteiro enxuto e conciso de Henry Bean, um excitante jogo de gato e rato entre dois policiais de Los Angeles que são postos em lados opostos em uma investigação de corrupção na força. Como integrante da Comissão de Assuntos Internos da polícia, o novato Raymond Avila (Andy Garcia) se vê às voltas com uma série de irregularidades relacionadas ao veterano Dennis Peck (Richard Gere) - sem saber que, além de corrupto, ele é também responsável por armar cenas de crimes para justificar sua violência latente, manipular seu antigo parceiro Van Stretch (William Baldwin) e pular da cama da esposa para a da ex-mulher e até para a fragilizada companheira de seu colega. Com a ajuda da parceira Amy Wallace (Laurie Metcalf), Avila aos poucos começa a desbaratar a quadrilha liderada por Peck, que, sentindo-se acuado, apela para os sentimentos latinos e viris de Avila, insinuando um caso com sua mulher, Kathleen (Nancy Travis).


Assumindo um papel recusado por Kurt Russell e Mel Gibson, Richard Gere poucas vezes esteve tão bem nas telas. Bem dirigido por Figgis - que soube usar em seu favor as limitações de Gere como intérprete, mantendo sempre uma aura de mistério e perigo ao redor de seu personagem - o ator, que vinha de uma sucessão de fracassos de bilheteria, mostrou-se digno da confiança depositada nele, entregando uma performance que, se não é digna de um Oscar, ao menos enfrenta de igual pra igual o vulcão sempre em vias de erupção que é o volátil personagem de Garcia. O cineasta também não deixa de aproveitar o status de símbolo sexual de Gere, dando a ele a oportunidade de desfilar o charme cafajeste que lhe deu fama - sem, no entanto, deixar que essa face da personalidade de Peck assuma a protagonização do filme até que seja a mola-mestra do conflito entre os dois policiais. E é justamente quando isso acontece que "Justiça cega" fica ainda mais empolgante.

O terço final do filme, quando Avila passa a desconfiar de um romance entre sua esposa e Peck, é o ponto alto da trama, talvez porque é o momento em que Andy Garcia tem mais chances de mostrar o quão talentoso ele é. Aproveitando que sua relação com Gere durante as filmagens não foram das mais amistosas, Garcia explode em cena, explorando o sangue quente de sua origem cubana em cenas repletas de uma tensão que apenas acrescenta ao filme: é genial, por exemplo, quando ele confronta Kathleen em um restaurante lotado e passa a ofender-lhe em espanhol (ideia do próprio ator muito bem aceita por Mike Figgis). Sua mente torturada por imagens entre sua esposa e Peck em tórridos momentos é que acaba por levá-lo a um confronto sangrento, que só não é ainda melhor pela necessidade quase irresistível do cinema americano policial de terminar suas histórias de maneira um tanto quase previsível. Mesmo assim, tudo é mantido em um nível de tensão superior a qualquer congênere. Vale mais do que uma espiada. Vale aplaudir o duelo entre Gere e Garcia, dois nomes que no início dos anos 90 pareciam ter todos os apetrechos para dominar a década.

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