quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O TIRO QUE NÃO SAIU PELA CULATRA

O TIRO QUE NÃO SAIU PELA CULATRA (Parenthood, 1989, Universal Pictures, 124min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Lowell Ganz, Babaloo Mandel, estória de Ron Howard, Babaloo Mandel, Lowell Ganz. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Daniel Hanley, Michael Hill. Música: Randy Newman. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Todd Hallowell/Nina Ramsey. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo. Produção: Brian Grazer. Elenco: Steve Martin, Jason Robards, Mary Steenburgen, Dianne Wiest, Tom Hulce, Rick Moranis, Harley Kozak, Martha Plimpton, Keanu Reeves, Joaquin Phoenix. Estreia: 31/7/89

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Canção Original ("I love to see you smile")

Uma doce e terna homenagem às benesses da paternidade - título-original massacrado pelo absurdamente idiota e sem sentido "O tiro que não saiu pela culatra" - a comédia de Ron Howard que acompanha as aventuras e desventuras de uma família tipicamente americana (mas que poderia tranquilamente ser brasileira, italiana, francesa ou japonesa, com suas diferenças culturais à parte, obviamente) nasceu da conclusão de Howard (juntamente com o produtor Brian Grazer e os roteiristas Babaloo Mandel e Lowell Ganz) de que o fato mais importante que lhes aconteceu na vida foi terem sido pais. Relembrando situações embaraçosas, tristes ou engraçadas pelas quais passaram, eles conceberam a história de um clã tão disfuncional quanto caloroso, repleto de problemas mas igualmente cercado de carinho e compreensão, os Buckman. Representados por um elenco excepcional que tem em mãos um roteiro recheado de diálogos deliciosos e poeticamente realista, os Buckman são um retrato bastante fiel da plateia, que deixou nas bilheterias americanas cerca de 100 milhões de dólares e colocou Ron Howard no mapa dos diretores altamente comerciais de Hollywood - status que havia conquistado com "Splash, uma sereia em minha vida" (84) e perdido momentaneamente com o relativo fracasso de "Willow, na terra da magia" (88), um projeto pessoal que naufragou nas bilheterias.

Contado em forma de anedotas cotidianas interligadas por uma história tênue e de uma simplicidade extremamente eficiente, "O tiro que não saiu pela culatra" concentra-se principalmente em Gil Buckman (Steve Martin, explorando todo o seu timing cômico em papel recusado por Dan Ayckroyd, Michael Keaton, Jeff Golblum e Tom Hanks), o segundo filho do patriarca Frank (Jason Robards), um homem que passou a vida dedicado ao trabalho e deixou a família de lado. Gil é casado com a doce Karen (Mary Steenburgen), luta para ser reconhecido profissionalmente e lida diariamente com seus três filhos - sendo que o mais velho, Kevin (Jasen Fisher), para surpresa dos pais, é considerado um garoto-problema na escola e precisa frequentar uma psicóloga. Sua irmã mais velha, Helen (Dianne Wiest), é separada de um ex-marido ausente e luta para ter uma relação afável com os filhos adolescentes, a rebelde Julie (Martha Plimpton) - que namora o desnorteado Todd (Keanu Reeves) - e o misterioso Garry (Joaquin Phoneix, ainda com seu nome real, Leaf, posto por seus pais hippies). A terceira irmã, Susan (Harley Kozak), é casada com o neurótico Nathan (o ótimo Rick Moranis), que quer transformar a filhinha de seis anos em um Einstein de saias e o irmão caçula, Larry (Tom Hulce) - de certa forma o preferido de Frank - pega toda a família de surpresa quando retorna de uma viagem acompanhado de um adendo inesperado: um filho pequeno que teve com uma dançarina de Las Vegas.


Com essa galeria de tipos idiossincráticos mas bastante próximos da realidade do espectador - tanto em termos emocionais quanto familiares -  Ron Howard cria uma pequena pérola do cinema mainstream, equilibrando com sensibilidade momentos de humor (como a hilariante cena em que Gil descobre, sem querer, o que consola sua irmã Helen em suas noites solitárias) com sequências banhadas em uma delicadeza quase europeia (sempre que Gil tem a chance de questionar as escolhas de sua vida e dá de cara com a estrutura familiar que construiu com Karen e os filhos). A trilha sonora de Randy Newman pontua com precisão as escolhas sutis de Howard, comentando a ação de forma discreta - sua canção-tema, "I love to see you smile", chegou a ser indicada ao Oscar da categoria. E o elenco é um show à parte, equilibrando atores já consagrados com os nomes mais quentes do humor cinematográfico americano da época - não deixa de ser injusto que apenas Dianne Wiest tenha sido lembrada pela Academia por seu desempenho como a solitária Helen (um papel no qual ela é especialista, haja visto pelo menos dois trabalhos sob o comando de Woody Allen, "A era do rádio" (87) e "Hannah e suas irmãs" (86), que lhe rendeu uma estatueta.

Se Steve Martin de certa forma comanda o espetáculo com seu Gil Buckman, ele encontra ao seu lado um grupo de atores em plena forma. Jason Robards transmite com exatidão as dúvidas de seu Frank, que descobre na velhice o quanto perdeu da juventude dos filhos e tenta remendar os erros passando a mão na cabeça do caçula irresponsável. Mary Steenburgen vive com placidez uma personagem sempre no meio do redemoinho mas sempre com a cabeça pronta para diminuir as tempestades. Dianne Wiest brilha como Helen, especialmente em seus duelos com a filha Julie (a ótima e eterna "goonie" Martha Plimpton). E Rick Moranis - popularíssimo nos EUA nos anos 80 e depois praticamente esquecido pelo público e pela indústria - quase rouba a cena como o alucinado pai com grandes expectativas intelectuais em relação ao rebento. Juntos, essa família de ótimos atores transforma o texto quase simples de "O tiro que não saiu pela culatra" (que alguns críticos consideraram pasteurizado e digno de sitcoms e não de um filme de um grande estúdio) em um trunfo do cinema familiar. É simples, é quase ingênuo e é também, reconheçamos, quase esquecível. Mas é, ao mesmo tempo, uma delícia como um grande pedaço de bolo de chocolate.

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