sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

MUITO MAIS QUE UM CRIME

MUITO MAIS QUE UM CRIME (Music box, 1989, Carolco Pictures, 124min) Direção: Costa-Gavras. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Patrick Blosssier. Montagem: Joelle Van Effenterre. Música: Philippe Sarde. Figurino: Rita Salazar. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Erica Rogala. Produção executiva: Joe Eszterhas, Hal W. Polaire. Produção: Irwin Winkler. Elenco: Jessica Lange, Armin Mueller-Stahl, Frederic Forrest, Michael Hooker, Donald Moffat, Lukas Haas. Estreia: 22/12/89 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Jessica Lange)

Quando o nome do cineasta grego Costa-Gravas aparece nos créditos de um filme, o espectador já sabe o que esperar: autor de obras provocadoras e corajosas com "Z" (69) e "Desaparecido, um grande mistério" (82), o diretor apostava sempre em temas politicamente ousados, que desafiassem as ideologias tanto do espectador quanto da crítica. Depois do relativo fracasso de seu "Atraiçoados" (88) - em que colocava uma agente infiltrada do FBI vivida por Debra Winger se apaixonando pelo possível líder dum grupo racista do sul americano, interpretado por Tom Berenger - ele surgiu com "Muito mais que um crime", que tocava fundo em uma ferida ainda muito viva (especialmente na Europa ocidental): o colaboracionismo nazista. Para deixar a mistura ainda mais picante, ele tirou o tema das discussões teóricas e plantou a semente da dúvida no seio de uma aparentemente pacata família que, em tese, ajudou a construir as bases da América do pós-II Guerra Mundial. O resultado? Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim - sempre atento a produções com temáticas socialmente relevantes - e uma justíssima indicação ao Oscar de melhor atriz para sua protagonista Jessica Lange.

Lange - que entrou no film depois que Jane Fonda foi considerada com a idade inapropriada pelo próprio cineasta - interpreta com um impressionante equilíbrio entre delicadeza e força o papel de Ann Talbot, uma bem-sucedida advogada de Chicago que tem sua vida abalada quando seu pai, o imigrante húngaro Mike Laszlo (Armin Mueller-Stahl) é acusado formalmente de crimes de guerra cometidos durante o nazismo. Documentos até então perdidos o apontam como um dos responsáveis por cruéis assassinatos cometidos quarenta anos antes, apesar de suas negativas veementes: como americano naturalizado, pai, avô e funcionário exemplar de uma fábrica por décadas, ele insiste em sua inocência, alegando que tudo não passa de um complô comunista contra ele, radicalmente contrário ao regime. Tocada pelo desespero do pai e influenciada pelo irmão, Karchy (Michael Rooker) e pelo filho, Mikey (Lukas Haas), ela finalmente resolve defendê-lo no tribunal, mesmo não sendo especializada no assunto. Durante o julgamento, desfilam testemunhas que confirmam as acusações contra Laszlo, mas Anne se mantém confiante na inocência do pai, a quem vê como incapaz de tamanhas atrocidades.


Costa-Gavras conta sua história repleta de barbáries de forma elegante, discreta, sóbria. Resiste à tentação de emocionar pelo viés mais fácil, evitando o batido recurso de flashbacks durante os depoimentos dos sobreviventes da tragédia e tratando a relação entre pai e filha com seriedade mas nunca com exageros sentimentais - o que de certa forma até atrapalha um pouco em seu climax. Jessica Lange, sempre fantástica, entrega uma performance carregada de emoção, construindo uma Ann equilibrada mas a um passo de desmoronar diante das atrocidades que aparecem em sua frente e que podem estar muito mais ligadas a seu pai do que ela gostaria. Diante dela, o ator Armin Mueller-Stahl tem então a maior chance de sua carreira - que engrenaria com filmes posteriores, como o belo "Avalon" (90), de Barry Levinson - com um personagem cuja ambiguidade vai se avolumando até o final bolado pelo roteirista Joe Esztershas ("Instinto selvagem" (92)), que põe em xeque muitas das certezas (do público e dos próprios personagens). Graças à união entre roteiro, direção e elenco, fica impossível abandonar a trama, construída como um drama familiar de tribunal mas que prende a atenção como o melhor dos thrillers políticos dos anos 70.

"Muito mais que um crime" é um Costa-Gavras da melhor safra. Inteligente, bem orquestrado, relevante socialmente e, melhor ainda, sem perder em momento algum o essencial a um bom filme: o ritmo de entretenimento. É uma obra capaz de agradar a qualquer cinéfilo disposto a assistir a uma boa história, independente de suas opiniões políticas. Um belíssimo programa!

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