terça-feira, 2 de dezembro de 2014

MEU PAI, UMA LIÇÃO DE VIDA

MEU PAI, UMA LIÇÃO DE VIDA (Dad, 1989, Amblin Entertainment, 117min) Direção: Gary David Goldberg. Roteiro: Gary David Goldberg, romance de William Wharton. Fotografia: Jan Kiesser. Montagem: Eric A. Sears. Música: Howard Shore. Figurino: Molly Maginnis. Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/Thomas L. Roysden. Produção executiva: Steven Spielberg, Kathleen Kennedy, Frank Marshall. Produção: Gary David Golberg, Joseph Stern. Elenco: Jack Lemmon, Ted Danson, Olympia Dukakis, Ethan Hawke, Kathy Baker, Kevin Spacey, J.T. Walsh. Estreia: 10/11/89

Indicado ao Oscar de Maquiagem

A maior expectativa em torno de "Meu pai, uma lição de vida" era uma indicação ao Oscar de melhor ator para Jack Lemmon, um dos grandes astros dos anos 50 e 60 e que, sob o comando de Billy Wilder, já havia legado ao cinema americano obras-primas como "Quanto mais quente melhor" (59) e "Se meu apartamento falasse" (60) - além de ter ganho duas estatuetas, por "Mr. Roberts" (55) e "Sonhos do passado" (73). Quando a lista de indicações saiu, porém, apenas o trabalho de maquiagem do filme foi lembrado pela Academia. Injustiça? Talvez, uma vez que a interpretação de Lemmon é, mais uma vez, sensacional. Mas o fato de a obra de Gary David Goldberg parecer mais um produto televisivo de "doença da semana" do que um produto cinematográfico de qualidade provavelmente pesou na hora h e o veterano ator - assim como sua colega de cena Olympia Dukakis, também soberba - acabou sendo deixado de lado. Porém, mesmo com o fracasso de seu principal objetivo, "Meu pai" merece ser assistido, nem que seja para comprovar o talento acima da média de seu protagonista - se é que ainda possa existir alguma dúvida quanto a isso.

Baseado em romance de William Wharton, "Meu pai, uma lição de vida" busca a emoção do público ao retratar o relacionamento entre pai e filho que são obrigados a conviver novamente depois que a velhice chega inexoravelmente à sua família. Tudo começa quando a ativa Bette Tremont (Olympia Dukakis) sofre uma parada cardíaca em pleno supermercado, o que a leva imediatamente ao hospital. O fato muda a rotina de sua família, uma vez que é ela, sozinha, quem cuida do dia-a-dia do marido, Jake (Jack Lemmon), de saúde frágil e dependente da atenção da esposa. Enquanto Bette permanece internada, é seu filho mais velho, John (Ted Danson) quem passa a pajear o pai, com quem mantém uma relação de certa distância emocional. Durante esse período, porém, surge entre eles uma inesperada amizade e o próprio Jake passa a tomar um pouco as rédeas de seus dias. Quando Bette retorna ao lar, no entanto, é seu marido quem sofre um derrame e entra em coma - do qual ressurge ainda mais ativo e saudável. Essa nova fase surpreende a todos (não exatamente de forma positiva, já que Bette é obrigada a lidar com uma desconhecida face do marido) e faz com que John perceba que está perdendo a juventude do próprio filho, o adolescente Billy (Ethan Hawke).


Experiente em programas de televisão - como "Caras e caretas" e "Spin City", dos quais foi roteirista e de onde tirou a facilidade em impor ritmo a suas narrativas - o diretor Gary David Golberg tropeça justamente no ponto que deveria, em tese, ser seu maior trunfo, e oferece ao espectador um roteiro sem um foco específico, que muda de direção a cada novo lance dramático (e eles são em número suficiente para que tudo soe como exagero). A relação entre John e seu pai - a princípio o ponto principal da trama - é frequentemente interrompida com novas tragédias, o que dá a impressão de tratar-se de um compêndio médico sobre as mazelas da velhice. Tal opção - que é também culpa do romance original - esvazia bastante a premissa inicial, resumindo o filme a um dramalhão familiar fácil e sentimentaloide, valorizado basicamente por seu elenco, que faz o possível para manter o interesse por uma história que a cada cena vai ficando mais e mais previsível - e até Kevin Spacey entra no jogo, em um de seus primeiros papéis de relativa importância, como o genro de Lemmon e Dukakis.

Então quer dizer que no final das contas "Meu pai, uma lição de vida" é uma bomba? Não, não é pra tanto. Nenhum filme que conte com Jack Lemmon e Olympia Dukakis em papéis importantes pode ser considerado ruim, uma vez que eles são atores superlativos, capazes de engrandecer qualquer texto. Mas Gary David Goldberg perdeu a oportunidade de criar um grande filme justamente por não conseguir impor limites ao dramalhão desbragado que toma conta dela a partir da metade da narrativa - que ainda por cima apresenta uma nova e desnecessária doença ao protagonista, que desvia mais uma vez o rumo da história, a tornando mais longa do que o recomendável. Com alguns defeitos que enfraquecem suas qualidades, é uma obra irregular, mas palco de mais um show de Jack Lemmon, um dos maiores atores de todos os tempos.

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