sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

MENTES QUE BRILHAM

MENTES QUE BRILHAM (Little man Tate, 1991, Orion Pictures, 99min) Direção: Jodie Foster. Roteiro: Scott Frank. Fotografia: Mike Southon. Montagem: Lynzee Klingman. Música: Mark Isham. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Sam Schaffer. Produção executiva: Randy Stone. Produção: Peggy Rajski, Scott Rudin. Elenco: Jodie Foster, Dianne Wiest, Adam Hann-Byrd, Harry Connick Jr., David Hyde Pierce, Debi Mazar, Celia Weston. Estreia: 06/9/91 (Festival de Toronto)

Sendo uma atriz que desde a mais tenra infância foi obrigada a lidar com as benesses e os malefícios da genialidade, Jodie Foster deve ter encontrado especial ressonância na estória do pequeno Fred Tate, criada pelo roteirista Scott Frank. Superdotado mentalmente mas renegado à solidão inerente à sua condição, o pequeno Fred é o protagonista do primeiro filme de Jodie como diretora, o delicado e sensível "Mentes que brilham" - que ela assumiu, aliás, depois que Joe Dante abandonou o barco alegando as famosas diferenças artísticas. Provando que seu talento não se resume a atuar - fato que seus dois Oscar confirmam além de qualquer dúvida - Foster construiu uma pequena história familiar, discreta e sem excessos que reflete com perfeição sua personalidade e inteligência.

Deixando de lado a vaidade que normalmente acompanha a decisão de atores em se tornarem cineastas, Foster não põe o ponto de vista de sua personagem como foco central da trama, preferindo - acertadamente - manter a história em torno de seu pequeno protagonista, interpretado com frescor pelo encantador Adam Hann-Byrd. Aos sete anos de idade, Fred Tate é capaz de escrever poesias, pintar a óleo, tocar piano como um adulto profissional e realizar complicadíssimas equações matemáticas. Como não poderia deixar de ser, tais dons o afastam dos colegas (que o veem como um alienígena) e fazem dele um menino solitário e carente, apesar de manter uma relação calorosa e de extremo amor e afeto com a mãe, a garçonete Dede (vivida pela própria Jodie), que o criou sozinha desde seu nascimento. Sua inteligência acima da média acaba chamando a atenção de Jane Grierson (Dianne Wiest), uma médica que convida o garotinho para conviver com outras crianças semelhantes a ele em um programa direcionado à crianças superdotadas. Sabendo que é incapaz de prover ao filho um ambiente que lhe faça crescer ainda mais intelectualmente, Dede acaba cedendo, mas o menino percebe que o que sobra em sua mãe - amor, carinho, dedicação - falta em Jane, que, apesar de brilhante, não construiu à sua volta uma rede saudável de relacionamentos emocionais.


Sem querer impor nenhum tipo de verdade absoluta, o roteiro de "Mentes que brilham" expõe todas as dificuldades enfrentadas por Tate em sua trajetória de maneira lúdica, quase carinhosa. O olhar tristonho de Hann-Byrd fala mais do que páginas inteiras de diálogo, e Foster o capta com delicadeza, levando a plateia para dentro de sua alma torturada pelo desejo de ser uma criança normal, com amigos, uma festa de aniversário bem-sucedida, brincadeiras tolas e conversas prosaicas. Essa dualidade é bem representada pela construção sólida das protagonistas adultas do filme, interpretadas com a maestria de sempre por Jodie e Dianne Wiest. Enquanto Dede não sabe nem ao menos o número de teclas de um piano e prefere dançar com o filho ao invés de ler um livro, ao menos ela consegue lhe dar conforto e a sensação de segurança emocional de que ele precisa. Já Jane, sóbria em roupas elegantes e modos polidos, sabia tocar violino desde a infância, escreveu vários livros e dedica seus dias a exercitar em jovens os dons que eles possuem, mas é mutilada emocionalmente, tendo tido uma relação distante com os pais e uma incapacidade flagrante de ser espontânea e verdadeira.

Tendo estreado em meio a uma grave crise da Orion Pictures - que o escolheu em detrimento de "Céu azul", de Tony Richardson, uma vez que era impossível lançar os dois no mesmo ano e o estúdio estava em meio à sua bem-sucedida campanha para dar a Jodie Foster seu segundo Oscar, por "O silêncio dos inocentes" - "Mentes que brilham" colecionou críticas extremamente positivas, uma bilheteria nada desprezível em se tratando de uma obra com poucas ambições comerciais e um prestígio que poucos diretores conseguem alcançar em um primeiro trabalho (e prestígio dura bem mais do que meia dúzia de Oscar, que o diga Kevin "Dança com lobos" Costner). Uma pena que, mesmo com tanto sucesso, a diretora Jodie Foster seja ainda tão bissexta - depois deste, ela voltou para trás das câmeras apenas com "Feriados em família" (95) e o estranho e não tão bom "Um novo despertar" (2011). Que seu retorno seja rápido.

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