terça-feira, 16 de dezembro de 2014

ALUCINAÇÕES DO PASSADO

ALUCINAÇÕES DO PASSADO (Jacob's ladder, 1990, Carolco Films, 113min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Bruce Joel Rubin. Fotografia: Jeffrey L. Kimball. Montagem: Tom Rolfe. Música: Maurice Jarre. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Kathleen Dolan. Produção executiva: Mario Kassar, Andrew Vajna. Produção: Alan Marshall. Elenco: Tim Robbins, Elizabeth Peña, Danny Aiello, Matt Craven, Pruitt Taylor Vince, Jason Alexander, Patricia Kalember, Eriq La Salle, Ving Rhames. Estreia: 02/11/90

Não deixa de ser interessante que um dos filmes mais corajosos, assustadores e surpreendentes de 1990 - e por consequência totalmente ignorado pelas cerimônias de premiação e até pelo público que lotava as salas de cinema para assistir a produções leves como "Esqueceram de mim" e "Uma linda mulher" - tenha sido dirigido por um cineasta até então massacrado e desacreditado quase unanimemente pela crítica, o inglês Adrian Lyne. Autor de filmes tão populares quanto desprezados pelos especialistas como "Flashdance" (84), "9 1/2 semanas de amor" (86) e "Atração fatal" (87) - pelo qual foi surpreendentemente indicado a um Oscar - Lyne saiu da publicidade para transformar-se em sinônimo de filmes rápidos, de estética moderna e pouco afeitos a detalhes como roteiro. Por isso, quando "Alucinações do passado" - escrito pelo mesmo Bruce Joel Rubin que viu seu "Ghost, do outro lado da vida" ganhar milhares de espectadores e uma estatueta da Academia - estreou, no final do ano, todo mundo que havia virado a cara para suas produções anteriores teve que repensar suas convicções. Denso, cruel, poético e intrigante, o conto de horror estrelado por Tim Robbins mistura paranoia militar, suspense e espiritualidade em um conjunto hipnotizante que é - e provavelmente sempre será - o melhor trabalho de seu diretor.

As primeiras tomadas, de uma emboscada na Guerra do Vietnã, podem dar a impressão de tratar-se de mais um capítulo da leva de filmes sobre o assunto tornados moda desde que Oliver Stone levou seus Oscar por "Platoon" (86) e "Nascido em 4 de julho" (89), mas esse é apenas o primeiro erro dos espectadores menos pacientes: é esse episódio no conflito oriental que está o cerne de toda a torturante trajetória posterior do protagonista, Jacob Singer (Tim Robbins em atuação espetacular), que já na cena seguinte está em Nova York, anos mais tarde, trabalhando em uma agência de correios. Separado da primeira mulher e ainda lamentando a morte do filho pequeno - ocorrida ainda antes de sua viagem para a guerra - Jacob vive no apartamento da nova namorada, Jezzie (Elizabeth Peña) e, quando o filme começa, está sofrendo de violentas e angustiantes visões que remetem aos piores pesadelos kafkianos. Pessoas sem rosto, humanos com características de répteis e até sonhos constantes com sua antiga vida passam a ser parte de sua rotina. Desesperado, ele é procurado por um grupo de soldados que lhe sugerem a ideia de que todos fizeram parte de um experimento do governo americano durante o Vietnã. Ele parte em busca da verdade, mas será que as coisas são assim tão simples?


Outro fator que surpreende bastante em "Alucinações do passado" é o roteiro de Bruce Joel Rubin, que abdica de toda a delicadeza e o senso de humor presentes em seu "Ghost" para oferecer um banquete de sensações desagradáveis e desconfortáveis que perpassam o caminho de Jacob em direção a seu desfecho. Se no filme estrelado por Patrick Swayze e Demi Moore o plano espiritual parecia pacífico e etéreo - exceto para os vilões, como convém a um produto com ambições mercadológicas - aqui a coisa é bem diferente. Somado à direção firme de Lyne - que se inspirou na obra mórbida de Francis Bacon, William Blake e da fotógrafa Diane Arbus para compor suas cenas mais impactantes - o roteiro de Rubin constroi uma nova faceta para os filmes a respeito de experiências sensoriais. É impressionante como é negada ao público, até seus minutos finais, a possibilidade de um completo entendimento de tudo que se passa em seus 113 minutos. Afinal, o que está se passando com Jacob? É alucinação, como diz o título nacional? São resquícios do experimento do governo? Ele está simplesmente embarcando na loucura tão comum aos soldados veteranos? Ou a explicação é outra, mais corriqueira... e ainda mais apavorante?

"Alucinações do passado" é um triunfo. Tecnicamente é impecável, contando com a fotografia em tons escuros de Jeffrey L. Kimball, a edição ágil de Tom Rolfe e a música nunca invasora de Maurice Jarre. Como suspense é admirável, tanto por seu roteiro corajoso e inteligente quanto pela direção nunca aquém de surpreendente de Adrian Lyne. E seu elenco, liderado pelo ótimo Tim Robbins (que ficou com um papel que por pouco não esteve nas mãos de Tom Hanks, Don Johnson, Mickey Rourke ou Richard Gere), mantém o nível de tensão nas alturas - em especial a participação do sempre estranho e eficaz Pruitt Taylor Vince, como um colega de batalhas do protagonista. Também é louvável seu final, coerente, emocionante e poético, dando ao espectador o alívio buscado durante toda a projeção. Grande filme, que merece ser conhecido. Por causa dele, Lyne pode ser perdoado pelas (muitas) bobagens que já fez na carreira.

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