sábado, 27 de dezembro de 2014

UM SONHO DISTANTE

UM SONHO DISTANTE (Far and away, 1992, Universal Pictures/Imagine Entertainment, 140min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Bob Dolman, estória de Bob Dolman, Ron Howard. Fotografia: Mikael Salomon. Montagem: Daniel Hanley, Michael Hill. Música: John Williams. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Allan Cameron, Jack T. Collins/Richard Goddard. Produção executiva: Todd Hallowell. Produção: Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Tom Cruise, Nicole Kidman, Thomas Gibson, Robert Prosky, Barbara Babcock, Colm Meaney, Brendan Gleeson. Estreia: 18/5/92 (Festival de Cannes)

Tudo está no lugar: a fotografia espetacular, a trama que honra a superação de limites de classe e possibilidades de ascensão social, a dupla romântica bela e carismática, a reconstituição caprichada de época e o roteiro equilibrado entre cenas dramáticas, cômicas e de ação - além do orçamento nada desprezível (dentro dos padrões do início dos anos 90) de 60 milhões de dólares. Por que, então, "Um sonho distante", a ambição de Ron Howard em criar um épico de grandes proporções, naufragou tão solenemente nos EUA, a ponto de sequer ter conseguido o retorno de seu investimento? Lançado com toda pompa e circunstância no Festival de Cannes de 1992, o filme nem ao menos empolgou a crítica, os jurados do festival ou os membros da Academia de Hollywood, passando em brancas nuvens em todas as cerimônias de premiação do ano. Primeiro filme de Tom Cruise e Nicole Kidman como um casal - eles já haviam contracenado antes em "Dias de trovão" (90), mas ainda não eram casados - a história de amor entre dois jovens irlandeses - diferentes como a água e o vinho - em meio à busca pelo tão sonhado pedaço de chão na América do final do século XVIII pode ser uma festa para os olhos, mas carece, para atingir plenamente seus objetivos artísticos e comerciais, de personalidade.

Criado em meio à indústria do entretenimento - quando criança ficou conhecido como um dos atores da popular telessérie "Happy days" - o cineasta Ron Howard sempre esteve ciente dos meandros do sistema e, por conseguinte, das exigências do mercado. Tal característica o norteou, portanto, desde seus primeiros passos atrás das câmeras e foi a responsável tanto pelo sucesso de bilheteria de filmes como "Splash, uma sereia em minha vida" (84) - primeiro grande êxito de Tom Hanks - e "O tiro que não saiu pela culatra" (89) - delicado e carinhoso retrato da paternidade - como de fracassos ambiciosos - "Willow, na terra da magia" (88), um projeto pessoal que não encontrou seu público. Seguindo à risca a regra que ensina que uma bilheteria polpuda só será possível se determinado filme conquistar os quatro quadrantes - homens, mulheres, adultos e adolescentes - Howard construiu uma obra que se esforça perceptivelmente a atingí-los: há o romance emoldurado por belas paisagens para os suspiros femininos, cenas de luta e ação para agradar àqueles sedentos por adrenalina, um humor ingênuo (que quase nunca funciona, diga-se de passagem) e até mesmo o maniqueísmo típico desse tipo de produção, que coloca em lados muito bem definidos os mocinhos dos bandidos. No entanto, nessa tentativa de abraçar o mundo, "Um sonho distante" acaba falhando justamente pela previsibilidade.


A trama de "Um sonho distante" se passa no final da década de 1890, quando chegou à Irlanda a notícia - um tanto quanto incompleta em relação aos fatos, mas ainda assim promissora - de que os EUA estavam distribuindo terras aos imigrantes dispostos ao árduo trabalho de cultivá-las. A possibilidade de uma nova vida imediatamente chama a atenção do jovem Joseph Donnelly (Tom Cruise), que acaba de perder o pai, não vê futuro em manter-se em sua terra natal e ambiciona tornar-se dono de uma propriedade onde possa criar uma família. Seu caminho em direção à sua terra prometida cruza-se com o de Shannon Christie (Nicole Kidman), uma moça da alta sociedade que se recusa a cumprir as regras pré-estabelecidas por sua classe social (e tampouco casar-se com o homem escolhido para ela) e também deseja chegar à Oklahoma e estabelecer-se. Passando-se por irmãos, eles chegam aos EUA e lutam para manter-se: ela arruma emprego depenando galinhas e ele passa a ganhar dinheiro envolvendo-se em lutas organizadas pelo aparentemente simpático Kelly (Colm Meaney). Sem perceber que estão apaixonados um por outro, eles terão que passar por grandes dificuldades financeiras e uma separação traumática para notarem que dividem o mesmo sonho.

Não é difícil gostar de "Um sonho distante", já que Ron Howard cuida minuciosamente de cada detalhe para agradar a todos os tipos de audiência. A fotografia grandiosa de Mikael Salomon, a música grandiloquente de John Williams e os figurinos de Joanna Johnston estão todos alinhados ao desejo do diretor em criar um filme inesquecível. Uma pena, no entanto, que sua opção em tratá-lo como um produto "para a família" - com o romance entre Cruise e Kidman e até mesmo as cenas mais violentas amenizadas com esse propósito - tenha lhe tirado a oportunidade de fazer o filme definitivo sobre um dos momentos essenciais da história norte-americana - e do qual seus próprios antepassados tomaram parte. É um filme visualmente belíssimo, mas frio e sem empatia com a mesma audiência que queria tanto conquistar. Está longe de ser uma bomba, mas Howard com certeza sai-se muito melhor quando é intimista.

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