quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

CONDUZINDO MISS DAISY

CONDUZINDO MISS DAISY (Driving Miss Daisy, 1989, Zanuck Company, 99min) Direção: Bruce Beresford. Roteiro: Alfred Uhry, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Peter James. Montagem: Mark Warner. Música: Hans Zimmer. Figurino: Elizabeth McBride. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Crispian Sallis. Produção executiva: David Brown. Produção: Lili Fini Zanuck, Richard D. Zanuck. Elenco: Morgan Freeman, Jessica Tandy, Dan Aykroyd, Patti Lupone, Esther Rolle. Estreia: 13/12/89

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Morgan Freeman), Atriz (Jessica Tandy), Ator Coadjuvante (Dan Aykroyd), Roteiro Adaptado, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Jessica Tandy), Roteiro Adaptado, Maquiagem
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Morgan Freeman), Atriz Comédia/Musical (Jessica Tandy) 

Ardoroso fã de uma polêmica de alcance mundial, o cineasta afro-americano Spike Lee - diretor de petardos controversos como "Faça a coisa certa", elogiado pela crítica, mas praticamente ignorado pela Academia, recebendo apenas duas indicações à estatueta - não poupou verbo ao descrever o grande vencedor do Oscar 1990, a comédia dramática "Conduzindo Miss Daisy": segundo ele, o filme estrelado por Morgan Freeman e Jessica Tandy não passava de uma "evocação nostálgica e racista de um passado em que os negros não podiam fazer nada senão submeter-se aos brancos." Discussões de racismo à parte, a adaptação da premiada peça teatral off-Broadway de Alfred Uhry, inspirada nas memórias que guardava de sua avó pegou todo mundo de surpresa quando, surgindo praticamente do nada, bateu o favorito "Nascido em 4 de julho", estrelado por Tom Cruise, na batalha pelo Oscar de melhor filme - principalmente porque seu diretor, o australiano Bruce Beresford não chegou nem mesmo a concorrer em sua categoria (fato raro, mas não inédito na história do prêmio). Contando apenas com o aval do National Board of Review e posteriormente do Golden Globe, "Conduzindo Miss Daisy" enfrentou corajosamente o drama de guerra de Oliver Stone e saiu da festa com 4 prêmios no bolso, incluindo também as láureas de roteiro adaptado e atriz para a veteraníssima Jessica Tandy, que estabeleceu o recorde, aos 81 anos, como a mais idosa atriz a levar o Oscar de sua categoria.

Conhecida por seu passado em Hollywood - trabalhou com Hitchcock em "Os pássaros" (63), por exemplo - e por ter sido esnobada quando Elia Kazan levou "Uma rua chamada pecado" para o cinema, e escalou Vivien Leigh para interpretar a Blanche Dubois que ela encarnava há anos nos palcos, Tandy viu-se finalmente reconhecida pelo público, pela crítica e pela Academia no papel de Daisy Werthan, uma judia viúva, ranzinza e teimosa que, a princípio a contragosto, inicia um relacionamento de confiança e amizade com seu chofer negro, Hoke (Morgan Freeman), contratado por seu filho Boolie (Dan Aykroyd) depois que ela destrói o próprio carro ao tentar dar um simples passeio pela cidade. Em papel sob medida para exibir sua experiência e técnica, Tandy quase não deixou chance para suas rivais na disputa pelo Oscar - entre elas a bela Michelle Pfeiffer por "Susie e os Baker Boys" e Jessica Lange por "Muito mais que um crime". Mesmo ignorada por todas as associações de críticos dos EUA, ela saiu-se consagrada graças à infalível equação que soma um bom trabalho ao conjunto da obra e a um toque de sentimentalismo com a possibilidade de premiar uma veterana nunca antes reconhecida.


"Conduzindo Miss Daisy" - que chegou a ser montada no Brasil depois do filme, com Nathalia Thimberg e Milton Gonçalves nos papeis centrais - é um filme fácil de se gostar, graças ao ritmo fluente da narrativa, do talento de seus atores e da reconstituição de época caprichada. Porém, sofre de alguns problemas que o impedem de ser um grande filme - e consequentemente de ter sido aplaudido com mais ênfase pela crítica quando levou seus Oscar. A direção de Bruce Beresford, por exemplo, é burocrática e sem brilho, o que de certa forma explica sua exclusão da lista dos indicados pela Academia. O roteiro, apesar de nunca cair no tédio ou no sentimentalismo (mesmo em cenas de maior estofo dramático, como aquelas que tratam das relações entre a branca Miss Daisy e o negro Hoke em plena efervescência dos movimentos pelos direitos civis dos anos 60), também peca em não buscar um aprofundamento maior para nenhum dos protagonistas, cujo relacionamento se dá apenas em conversas bem interpretadas mas um tanto ocas. A falta de uma marcação de passagem de tempo também prejudica o total entendimento da trama, especialmente para quem não tem conhecimento da história americana e pode ficar perdido diante de alguns acontecimentos sociais cuja data não fica explícita à plateia. Sabe-se, por exemplo, que a história começa em 1953 por causa de uma narração vinda de um rádio na cozinha dos Werthan e, posteriormente, só fica claro que a história já está em 1963 devido a um pequeno calendário quase escondido no cenário - e por causa da maquiagem, claro.

No ano em que "Nascido em 4 de julho" reiterava a obsessão de Oliver Stone pela guerra do Vietnã, que "Meu pé esquerdo" revelava ao grande público o talento de Daniel Day-Lewis e "Sociedade dos poetas mortos" mostrava que o talento dramático de Robin Williams se comparava a seu inimitável estoque de piadas, dar o Oscar de melhor produção a um trabalho apenas banal como "Conduzindo Miss Daisy" não deixou de ser mais uma prova de que a Academia não necessariamente escolhe o melhor filme e sim aquele que mais convém a seu ideal de gosto médio. Não é um produto que fira suscetibilidades (talvez a de Spike Lee, mas o que não o faz?), assim como também não fascina e encanta a ponto de tornar-se inesquecível. É um bom filme, mas nunca o melhor de 1989.

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