quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O AMANTE

O AMANTE (L'amant/The lover, 1992, Films A2, 115min) Direção: Jean-Jacques Annaud. Roteiro: Gérard Brach, Jean-Jacques Annaud, romance de Marguerite Duras. Fotografia: Robert Fraisse. Montagem: Noelle Boisson. Música: Gabriel Yared. Figurino: Yvonne Sassinot de Nesle. Direção de arte/cenários: Hoang Thanh At. Produção: Claude Berri. Elenco: Tony Leung, Jane March, Fréderique Meininger. Estreia: 22/01/92 (França)

Indicado ao Oscar de Fotografia

Nada como um bom escândalo movido a sexo para fazer com que um filme de interesse restrito - a saber, sem cenas de ação, sem astros milionários, desatrelado a qualquer personagem facilmente reconhecível nos cartazes ou orçamentos anabolizados - se torne manchete e, consequentemente, encha as salas de exibição (e posteriormente saia à procura do vídeo para locação). Sabendo dessa verdade absoluta, o veterano cineasta Jean-Jacques Annaud não brincou em serviço: espalhou aos quatro ventos que as tórridas cenas de sexo de seu novo filme, a adaptação de um romance autobiográfico da escritora Marguerite Duras, foram levadas às últimas consequências em pleno set de filmagens. Não demorou para que tal afirmação se tornasse o centro das discussões a respeito do filme, que, graças à polêmica, fez mais sucesso do que teria feito sem o apelo de um boato bem divulgado. Boato, sim, afinal de contas. O próprio Annaud - que tinha no currículo filmes como "O nome da rosa" (85) e "O urso" (89) - desmentiu o que havia dito logo depois, para alívio de sua protagonista, a adolescente Jane March, que sofreu na pele as consequências de uma estreia tão alvissareira.

Segundo lendas que corriam nos bastidores - todas devidamente divulgadas à imprensa, com o objetivo lógico de atiçar a curiosidade dos espectadores - March, à época do começo da produção, ainda era virgem e, para dar conta das cenas com o ator Tony Leung, precisou recorrer a um namorado para estar apta a tais sequências. Tão logo as fofocas começaram a pipocar, no entanto, a jovem percebeu que vida de estrela de cinema tem muitos deméritos e fugiu do assédio, em companhia da família, tão perturbada quanto ela com a dimensão dos acontecimentos - pelo menos até estrear no cinemão comercial americano com o fraquíssimo thriller "A cor da noite", cujo maior atrativo eram (pasmem!!) cenas de sexo com Bruce Willis.... Mas, afinal de contas, apesar de todo o bafafá e todo os boatos, "O amante"  é um bom filme ou apenas mais uma produção que pegou carona na controvérsia para lucrar? Felizmente para o público que gosta de bom cinema, a resposta é positiva: além das cenas eróticas (bastante quentes, mas jamais vulgares ou apelativas), o filme de Annaud tem muito mais a oferecer, tanto em termos visuais quanto emocionais.


A cargo do experiente Robert Fraisse - que arrebatou a única indicação ao Oscar do filme - a fotografia de "O amante" emoldura uma história de amor e lascívia que envolve o espectador gradualmente, como um romance bem escrito. Não à toa, Marguerite Duras, a autora do livro que lhe deu origem, também escreveu os poéticos diálogos do clássico "Hiroshima, meu amor", de Alain Resnais: em ambos a descrição dos atos de amor se sobrepõem a imagens delicadas, sensuais e românticas na medida certa. A narração em off de Jeanne Moureau (um trunfo bem utilizado pelo cineasta) acrescenta camadas distintas à história contada, sublinhando a dubiedade da relação entre os protagonistas, sempre caminhando na tênue linha entre a paixão e o interesse (financeiro por parte dela, físico por parte dele). Para isso conta muito o rosto impassível de Jane March, uma tábula rasa onde o diretor pode pintar diferentes emoções sem que seja preciso apelar para longas conversas explicativas. Sua personagem - cujo nome nunca é citado - é uma adolescente de quinze anos que mora em um pensionato de Saigon (no Vietnã de 1929, colonizado pela França) e tem uma relação problemática com a família, em especial com o irmão mais velho, viciado em ópio. De origem humilde, ela conhece, durante a travessia de barco que a leva da casa da mãe para sua escola, um chinês mais velho e rico (Tony Leung), que acaba se tornando seu amante - em tardes passadas em uma casa no centro da cidade.

O relacionamento entre os protagonistas não é fácil: além das diferenças sociais e monetárias (ele chega a pagar por seus encontros com a jovem, o que também dá à relação um caráter um tanto ambíguo que cheira à prostituição de luxo) existe o fato do rapaz ter um casamento arranjado com outra mulher, o que os impede, mesmo que quisessem, de levar adiante o que havia começado como um romance casual. O preconceito racial também entra no pacote dos problemas, já que se trata de um casal formado por um chinês e uma branca, o que, na época, era algo impensável para uma sociedade tão racista. Esse painel de empecilhos, mais as personalidades difíceis dos protagonistas (ele chega a batê-la em um acesso de ciúmes, antes de levá-la pra cama) constituem o teor do filme de Annaud, uma análise séria e - por que não? - romântica de um caso de amor muito mais repleto de nuances do que simplesmente sexo e dinheiro. É uma história adulta, contada sem pressa, com delicadeza e um bela trilha sonora de Gabriel Yared. O sexo é apenas um detalhe.

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