quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

DESAFIO NO BRONX

DESAFIO NO BRONX (A Bronx tale, 1993, Price Entertainment, 121min) Direção: Robert DeNiro. Roteiro: Chazz Palminteri, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Reynaldo Villalobos. Montagem: R.Q. Lovett, David Ray. Música: Butch Barbella. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Debra Schutt. Produção executiva: Peter Gatien. Produção: Robert DeNiro, Jon Kilik, Jane Rosenthal. Elenco: Robert DeNiro, Chazz Palminteri, Francis Capra, Lillo Brancatto, Taral Hicks, Kathrine Narducci, Joe Pesci. Estreia: 09/9/93 (Festival de Veneza)

Talvez fosse algo no ar, ou aquilo que costuma se chamar de inconsciente coletivo, mas não deixa de ser coincidência que três filmes que marcaram a estreia de atores na direção tenham falado sobre relações familiares e a perda da inocência com uma generosa dose de nostalgia. Foi assim com Jodie Foster e seu delicado "Mentes que brilham", de 1991, com Mel Gibson e seu surpreendentemente sensível "O homem sem face" (93) e com Robert DeNiro em seu quase autobiográfico "Desafio no Bronx". Todos eles tem como protagonista um menino enfrentando a difícil transição entre a infância e a maturidade, encontrando em seu caminho a solidão, a insegurança e as dúvidas em relação ao que é certo ou errado. Foster e Gibson podem ter assinados excelentes filmes, mas é impossível negar que foi DeNiro, com seu perfeito equilíbrio entre drama familiar, crítica social e a recriação de um clima muito específico de sua época e geografia, quem acabou se saindo melhor. Como um dedicado e atento aluno de seu amigo e parceiro Martin Scorsese, o veterano ator - vencedor de 2 Oscar - transmite, em seu filme, uma segurança e uma personalidade invejáveis.

A princípio pode até parecer um filme de Scorsese, com sua narrativa em off, seus personagens típicos, sua preferência por uma história pessoal e próxima de sua realidade. Porém, com o texto mais suave de Chazz Palminteri - autor também da peça de teatro que deu origem ao roteiro e um dos atores centrais do filme - e com a opção de sublinhar mais a dinâmica entre pai honesto/filho em vias de seguir o caminho do crime do que a violência decorrente de tal embate, "Desafio no Bronx" foge do estigma um tanto assustador de "filme de máfia" e se protege de comparações com a obra do cineasta que criou "Taxi driver" e "Os bons companheiros" - ambos sintomaticamente estrelados por DeNiro.  Quando a violência surge - explosiva, brutal, inesperada - ela tem causa e consequência, tem a face de uma escolha perigosa e de um futuro sangrento para o jovem protagonista. E essa escolha em retratá-la como um câncer social e não algo glamouroso é uma das maiores qualidades de um filme repleto delas.

Baseado em uma peça teatral escrita por Chazz Palminteri - que conta sua própria história e só vendeu os direitos para o cinema com a condição de participar do filme - "Desafio no Bronx" se passa em dois momentos diferentes. Começa em 1960, quando o pequeno Calogero (Francis Capra) passa a perceber a diferença social entre seu pai, o honesto motorista de ônibus Lorenzo (o próprio DeNiro em caracterização simpática e discreta) e Sonny (Palminteri, que em seguida concorreria ao Oscar de coadjuvante por "Tiros na Broadway", de Woody Allen), um gângster poderoso e temido no bairro onde vive. Fascinado pelo poder exercido por Sonny, o menino passa a ser seu protegido depois de testemunhar um assassino cometido por ele e manter-se em silêncio diante da polícia. Fazendo pequenos trabalhos para a máfia, Calogero entra em rota de colisão com seu pai, absolutamente contrário a qualquer tipo de contravenção. A segunda fase da história se passa em 1968, em meio aos graves conflitos sociais que os EUA enfrentavam em relação à luta pelos direitos civis. Já vivido por Lillo Brancato, Calogero é um adolescente - ainda sob a proteção de Sonny - que se vê no centro do furacão racial quando se encanta por Jane (Taral Hicks), uma jovem negra que mora em um bairro vizinho e que é vítima constante dos ataques de seus melhores amigos.

Sem ambicionar mais do que contar uma boa história com uma narrativa clássica, Robert DeNiro surpreende também pela forma econômica com que dirige seus atores, tirando deles uma atuação naturalista que casa perfeitamente com seu estilo direto, quase seco - mas disposto a concessões poéticas como a cena da violência contra os jovens negros sob o som de Moody Blues. Especialmente os dois jovens atores escolhidos para dividir o papel de Calogero - Francis Capra na infância e Lillo Brancato na adolescência - traduzem com perfeição o misto de inocência e veracidade do filme, que não deixa que o tema um tanto pesado descambe nem para o sentimentalismo nem para o grotesco. E tem ressonância especial saber que o filme é dedicado ao pai do diretor/ator. Uma bela homenagem, um belíssimo filme e uma estreia alvissareira.

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