domingo, 18 de janeiro de 2015

UM MUNDO PERFEITO

UM MUNDO PERFEITO (A perfect world, 1993, Warner Bros, 138min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: John Lee Hancock. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Joel Cox, Ron Spang. Música: Lennie Niehaus. Figurino: Erica Edell Phillips. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/Alan Hicks. Produção: Clint Eastwood, Mark Johnson, David Valdes. Elenco: Clint Eastwood, Kevin Costner, Laura Dern, T.J. Lowther, Keith Szarabajka, Leo Burmester, Bradley Whitford, Jennifer Griffin. Estreia: 24/11/93

Em 1990, Kevin Costner fez sua estreia na direção com "Dança com lobos", um western revisionista e plácido que conquistou multidões e a Academia de Hollywood, que o premiou com sete Oscar (boa parte deles de merecimento duvidoso, frente a concorrentes como "Os bons companheiros", de Martin Scorsese e "O poderoso chefão, parte 3", de Francis Ford Coppola). Dois anos depois, o veterano Clint Eastwood repetiu o feito com "Os imperdoáveis", um faroeste melancólico que levou 4 Oscar (dessa vez com pleno merecimento). Uma reunião dos dois vencedores só poderia, então, resultar em um sucesso arrasador, especialmente se rompesse com a imagem de bom moço cultivada com tanto cuidado por Costner em sua carreira. O fato de "Um mundo perfeito" ter arrecadado pouco mais de 30 milhões de dólares no território americano, no entanto, mostrou que, das duas uma: ou o público não estava preparado para essa mudança na persona artística do ator ou o filme - no qual Eastwood acumulava as funções de ator, diretor e produtor - não era exatamente grande coisa. Na verdade, é um pouco das duas coisas: nem Kevin Costner é um ator de grande alcance dramático e nem a escolha de Clint de dirigir um filme moralmente dúbio foi acertada.

"Um mundo perfeito" está longe de ser um filme ruim e o fato de fugir do maniqueísmo reinante das produções made in Hollywood já seria motivo o bastante para ter todos os seus pecados perdoados. Seu problema é justamente oferecer a Kevin Costner, um ator limitado e que construiu sua trajetória com base em personagens de moral ilibada e de identificação imediata com o americano médio - ou seja, nada desafiadores - um papel complexo, repleto de aparentes incoerências e que não faz concessões ao romantismo do público feminino. Seu Butch Haynes até deixa vislumbrar uma certa hombridade em algumas atitudes, mas no final das contas, mesmo que mostre um lado mais ameno em determinados momentos, ele é um fora-da-lei, alguém que, sob o ponto de vista puramente moral, é o cara mau da história - como deixa bem claro o rastro de cadáveres que vai deixando para trás. Esse lado sombrio do ator não parece ter agradado à audiência, como mostrou a bilheteria escassa do filme, mas fica a dúvida sobre qual teria sido o resultado (ao menos em termos de crítica) se o ator central fosse alguém mais competente.


A direção de Eastwood para "Um mundo perfeito" segue seu padrão sóbrio, direto e simples. Sem firulas ou brincadeiras com a câmera, o eterno Dirty Harry conduz a trama sem sobressaltos, com sua tranquilidade habitual. Essa calma - uma característica quase imutável de seu trabalho como cineasta - de certa forma atrapalha o desenvolvimento da história, que pede um calor e uma tensão quase inexistentes em sua forma quase acadêmica. O estilo cool de Eastwood talvez não tenha sido o mais apropriado para mostrar o relacionamento entre um perigoso fugitivo e seu refém, um menino de oito anos de idade sem uma imagem paterna na qual se mirar. A emoção e o calor necessários para envolver o público inexistem e a frieza com que a corrida do chefe de polícia atrás dos dois é explorada são, certamente, a maior causa da indiferença com que o filme foi recebido, apesar de suas qualidades.

E qualidades não faltam: a bela fotografia de Jack N. Green é exemplar e o roteiro de John Lee Hancock - que surpreendentemente anos depois cometeria "Um sonho possível" (09), um amontoado dos mais constrangedores clichês dramáticos do cinema - é inteligente ao eleger como herói um homem repleto de falhas e crimes. Até mesmo o plot central (um foragido sequestra um menino, filho de uma testemunha de Jeová que até então o privava de todos os prazeres mundanos permitidos a qualquer criança, e forja com ele uma amizade inusitada enquanto é perseguido pela polícia, ansiosa em fazê-lo voltar para trás das grades) funciona, principalmente por causa da atuação espontânea e encantadora do novato T.J. Lowther. Mas é decepcionante que um filme com tantas possibilidades tenha se transformado em apenas mais um filme comum. De Eastwood sempre se espera mais.

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