domingo, 4 de janeiro de 2015

VIVOS

VIVOS (Alive, 1993, Paramount Pictures, 120min) Direção: Frank Marshall. Roteiro: John Patrick Shanley, livro de Piers Paul Read. Fotografia: Peter James. Montagem: William Goldenberg, Michael Kahn. Música: James Newton Howard. Figurino: Jennifer L. Parsons. Direção de arte/cenários: Norman Reynolds/Tedd Kuchera. Produção: Kathleen Kennedy, Robert Watts. Elenco: Ethan Hawke, Vincent Spano, Josh Hamilton, Bruce Ramsay, John Newton, Ileana Douglas, Josh Lucas, John Malkovich. Estreia: 15/01/93

Uma das mais famosas tragédias da aeronáutica mundial, o Milagre dos Andes tornou-se manchete no início dos anos 70 nem tanto pelo acidente que vitimou 29 pessoas - entre o acidente e uma avalanche posterior - mas sim pelo sinistro meio com que os sobreviventes conseguiram manter-se depois do final das provisões alimentícias: utilizando a carne dos passageiros mortos, conservada pela neve da Cordilheira dos Andes. Considerando todos os elementos que a história - dramática, tensa, com todos os tipos de superação humana - carregava, até que demorou para chegar aos filmes via Hollywood (o México já havia realizado uma produção pouco conhecida fora dos limites da língua espanhola, chamada "Os sobreviventes dos Andes", em 1976). Mais de vinte anos se passaram até que Frank Marshall - produtor dos bem-sucedidos de Steven Spielberg e que havia começado a aventurar-se na direção com o fraco "Aracnofobia" (90) - assumisse o comando de "Vivos", um relato o mais preciso possível dos nefastos acontecimentos que começaram em 13 de outubro de 1972 e se estenderam até as vésperas do Natal, quando foram resgatados os últimos sobreviventes.

Com roteiro escrito por John Patrick Shanley - vencedor do Oscar por "Feitiço da lua" (87) - e baseado no livro de Piers Paul Read publicado em 1974, "Vivos" não se preocupa muito em apresentar seus personagens, partindo direto para a ação e deixando que o público vá descobrindo aos poucos quem são as pessoas com quem irá conviver pelas próximas duas horas (ou quais delas não conseguirão ultrapassar as barreiras que o destino irá interpor em seu caminho pela sobrevivência). Narrados em flashback por um dos passageiros - vivido na maturidade por John Malkovich - os acontecimentos se sucedem rapidamente na tela, ditando um ritmo que só vai diminuir no terço final, quando, cansados de esperar pelo resgate, alguns jovens partem em busca da salvação arriscando-se pela maior das cordilheiras do mundo. Dividindo a ação de seu filme em três atos bem definidos, Marshall consegue manter a atenção da plateia até os últimos minutos mesmo quando se sabe o desfecho da trama, uma prova de sua inteligência em não deixar que o mais bizarro da situação assuma importância exagerada a ponto de tornar-se um clímax precoce.


Não há dúvida de que a decisão dos sobreviventes do desastre em comer a carne de seus amigos mortos é assustadora e forte o bastante para ser o ponto principal da história narrada, mas "Vivos" não se detém desproporcionalmente a ela, focando-se também em todos os outros dias passados no gelo dos Andes, onde todos estavam expostos ao frio excessivo e ao perigo constante de avalanches (uma delas, aliás, é a responsável pela segunda tragédia do filme, apesar de filmada sem a grandiosidade do cinemão hollywoodiano, inadequada ao tom sério da produção). Desde as primeiras cenas - que mostram o acidente com um misto de realismo e cuidado para não chocar plateias mais suscetíveis - fica claro que a intenção de Marshall é contar a história de forma quase didática, sem maiores arroubos de criatividade, e isso ele faz com louvor. Seu cuidado em tratar dos atores, em especial, é perceptível quando se percebe que Ethan Hawke, mesmo sendo o nome mais conhecido do elenco, não é o protagonista heroico, dividindo as atenções com os ótimos Vincent Spano e Josh Hamilton (e é bom reparar ainda que estavam em cena Ileana Douglas e um iniciante Josh Lucas, que tem poucas falas antes de tornar-se uma das vítimas fatais da queda do avião).

É complicado descrever "Vivos" como diversão, uma vez que o público quase não tem tempo para respirar diante de tantos acontecimentos trágicos diante de si. Mas Frank Marshall aprendeu bem a lição em sua convivência com Spielberg e e transformou uma história de desespero e angústia em um entretenimento familiar, sem apelar para a violência gratuita ou o dramalhão exagerado. Sua visão de espetáculo é bem definida, equilibrando bom cinema com uma história real empolgante. Não é uma obra-prima da sétima arte, mas é um filme ao qual se assiste com interesse constante - e isso é muito mais do que se pode dizer de muitas obras de sucesso comercial.

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