quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O ÁRBITRO

O ÁRBITRO (The ref, 1994, Touchstone Pictures, 93min) Direção: Ted Demme. Roteiro: Richard LaGravenese, Marie Weiss, estória de Marie Weiss. Fotografia: Adam Kimmel. Montagem: Jeffrey Wolf. Música: David A. Stewart. Figurino: Juddiana Makovsky. Direção de arte/cenários: Dan Davis/Jaro Dick. Produção executiva: Jerry Bruckheimer, Don Simpson. Produção: Ronald M. Bozman, Richard LaGravenese, Jeff Weiss. Elenco: Denis Leary, Judy Davis, Kevin Spacey, Robert J. Steinmiller Jr., Glynis Johns, Christine Baranski, Raymond J. Barry, J.K. Simmons, BD Wong. Estreia: 09/3/94

Aclamado como um dos maiores atores de sua geração depois de seu segundo Oscar - e primeiro na categoria principal - por sua atuação em "Beleza americana" (99), Kevin Spacey tem, em seu currículo prévio, alguns filmes pouco vistos pelo público e que, no entanto, já demonstravam sua enorme capacidade de interpretar homens comuns em circunstâncias corriqueiras. Aliás, um de seus últimos filmes antes da explosão que seguiu-se a "Seven, os sete crimes capitais" e "Os suspeitos" - ambos de 1995 - pode ser considerado um ensaio para o elogiado drama de Sam Mendes que lhe rendeu a estatueta da Academia em 2000: na comédia de humor negro "O árbitro", lançada em 1993 e pouco vista pelo público em geral, ele vive com sua naturalidade característica, uma das partes de um casal em crise que se vê obrigado a enfrentar seus problemas conjugais quando é capturado como refém de um assaltante em fuga.

Dirigido por Ted Demme - sobrinho de Jonathan que morreu de overdose em 2002, pouco depois de ter dirigido "Profissão de risco", um filme sobre o tráfico de drogas estrelado por Johnny Depp e Penelope Cruz - "O árbitro" é uma comédia natalina atípica, que brinca com os elementos do gênero - como "A felicidade não se compra" (46), de Frank Capra, o filme-símbolo do período - enquanto devassa o american way of life de maneira menos cáustica e trágica de "Beleza americana", mas ainda assim com uma dose generosa de humor ácido e ironia. Se na obra-prima de Sam Mendes a hipocrisia e o adultério levavam ao crime e ao cinismo melancólico, no filme de Demme a coisa é bem menos séria, até porque leva o selo da Touchstone Pictures, braço da Disney para filmes direcionados ao público adulto - o que já sinaliza tratar-se de um produto para a família, ou seja, sem excesso de nenhuma espécie. Ainda assim - e apesar de um roteiro irregular - tudo funciona a contento, desde que não se exija muito.


Duas situações distintas - que convergem para uma terceira - abrem o filme: em uma o casal Caroline e Lloyd Chasseur (a ótima Judy Davis e Spacey) discutem seu falido relacionamento, prejudicado por uma pulada de cerca dela, com um terapeuta de casais. Em outra, o ladrão de joias Gus (Denis Leary) é surpreendido pelo alarme de uma residência que estava invadindo e foge antes de conseguir entrar em contato com seu cúmplice. Sem ter para onde escapar antes do previsto, o gatuno entra no carro do magoado casal e os leva como reféns para sua sofisticada casa - que espera convidados para a ceia de Natal. O que ele jamais poderia esperar é que, diante de tanto desprezo recíproco mantido pelos discretos Chasseur, ele fosse acabar se tornando uma espécie de juiz de suas discussões - que vão desde o adultério de Caroline até a dificuldade de Lloyd em se impor diante de sua mãe (Glynis Johns) autoritária e espaçosa. Quando o restante da família chega para o jantar - e isso inclui a mãe, o irmão, a cunhada e os sobrinhos de Lloyd - o circo fica ainda maior, com acusações sendo jogadas de um lado para outro na mesa natalina. E para piorar, o filho do casal, o adolescente Jesse (Robert J. Steinmiller Jr.), está sendo procurado pela polícia por viver de chantagem - e pode ser desmascarado na mesma noite.

Mesmo que muitas vezes perca o foco em sua narrativa - com desnecessários minutos dedicados aos policiais que estão caçando Gus - e demore para realmente engrenar, o que só acontece quando a ceia de Natal mostra a que veio na dinâmica familiar dos Chasseur, "O árbitro" funciona como uma comédia despretensiosa e de inteligência acima da média. Com um texto afiado e uma segura direção de atores, ele ainda tem o privilégio enorme de contar com dois grandes protagonistas, capazes de tirar leite de pedra se necessário. Judy Davis não é uma das atrizes preferidas de Woody Allen à toa - consegue como poucas equilibrar neurose e sentimento. E Kevin Spacey, às vésperas de sua consagração como o psicopata John Doe de "Seven", deita e rola com um personagem repleto de cinismo e ironia, uma de suas maiores especialidades. Diversão leve e sem contra-indicações, mas nada muito além disso.

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