terça-feira, 27 de janeiro de 2015

TESTEMUNHA DO SILÊNCIO

TESTEMUNHA DO SILÊNCIO (Silent fall, 1994, Warner Bros, 101min) Direção: Bruce Beresford. Roteiro: Akiva Goldsman. Fotografia: Peter James. Montagem: Ian Crafford. Música: Stewart Copeland. Figurino: Colleen Kelsall. Direção de arte/cenários: John Stoddart/Patty Malone. Produção executiva: Gary Barber. Produção: James G. Robinson. Elenco: Richard Dreyfuss, Linda Hamilton, Liv Tyler, J.T. Walsh, John Lithgow, Ben Faulkner. Estreia: 28/10/94

Um dos atores mais populares da segunda metade dos anos 70 - quando protagonizou "Tubarão" (75) e "Contatos imediatos de terceiro grau" (77) e foi o mais jovem vencedor do Oscar na categoria principal até então, por "A garota do adeus" (77) - Richard Dreyfuss não teve a mesma sorte nas décadas seguintes, equilibrando bons filmes de más bilheterias ("Querem me enlouquecer", com Barbra Streisand, de 87 e "Além da eternidade", de Steven Spielberg, de 89, por exemplo), filmes agradáveis que fizeram sucesso de público ("Tocaia", de 1987 e "Nosso querido Bob", de 1991) e produções francamente ruins, que não chegavam nem perto de explorar todo o seu talento (a continuação de "Tocaia", lançada em 1993). Infelizmente, antes de tentar uma volta por cima com a indicação merecida ao Oscar de melhor ator por "Mr. Holland, adorável professor" (95), ele acrescentou mais um filme desnecessário à sua carreira. Com uma trama instigante e uma lista de créditos excitante - o cineasta Bruce Beresford, a atriz Linda Hamilton e a beldade Liv Tyler estreando no cinema - "Testemunha do silêncio" acabou decepcionando o público, a crítica e a Warner, que empatou 30 milhões de dólares em uma produção que não recuperou nem 10% do orçamento. E o pior é que a culpa nem é de Dreyfuss.

Por mais que esteja quase no piloto automático em sua atuação, Dreyfuss não pode ser responsabilizado pelo fracasso de "Testemunha de silêncio", dirigido de forma burocrática e sem emoção por Beresford - que sintomaticamente, cinco anos antes, viu seu "Conduzindo Miss Daisy" levar o Oscar de melhor filme sem que ele ao menos tivesse sido indicado. Seu personagem, o terapeuta infantil Jake Rainer, especializado em autismo infantil e traumatizado com o suicídio de um paciente em seu centro de tratamento, poderia ser rico em nuances, mas o roteiro de Akiva Goldsman - que oito anos depois também seria premiado pela Academia por "Uma mente brilhante" - parece não ter interesse em desenvolver a complexidade de seu protagonista, ilustrando seu drama com uma ou duas cenas ligeiras e alguns poucos diálogos com a esposa Karen (Linda Hamilton, subaproveitada ao máximo). O foco da trama - interessante, mas igualmente desenvolvido de forma capenga e quase inverossímil - é uma investigação policial na qual ele é envolvido a contragosto e que vai acabar por fazê-lo rever sua decisão de abandonar a medicina.


O filme começa quando Rainer é chamado pelo xerife Mitch Rivers (J.T. Walsh) - com quem tem uma antiga relação de amizade - à cena de um brutal assassinato ocorrido na pequena cidade onde vive. A princípio o médico não entende os motivos que o levaram a ser convocado à propriedade onde um casal de classe média alta foi violentamente atacado a facadas em seu quarto, mas a razão logo surge quando ele encontra o filho caçula do casal, Tim (o ótimo Ben Faulkner), coberto de sangue, com uma faca nas mãos e falando coisas desconexas. Fica claro que o menino é autista e testemunhou o crime, mas não é do interesse de Rainer fazer parte das investigações até que a bela Sylvie (Liv Tyler), filha mais velha das vítimas implora que ele os ajude. Percebendo que, caso se recuse a colaborar com seu tratamento à base de psicologia infantil o pequeno Tim cairá nas mãos de outro médico (John Lithgow), bem mais afeito a drogas do que a conversas, ele aceita o desafio. No meio do caminho, pistas e revelações levam a polícia para inúmeros caminhos na busca pelo assassino.

A história de "Testemunha do silêncio" é interessante, e o desfecho poderia surpreender, caso tudo não corresse de forma tão preguiçosa. O roteiro, como afirmado anteriormente, desperdiça a chance de equilibrar um filme policial tenso com um drama médico eficiente ao optar sempre pelas soluções mais fáceis - e menos críveis. A direção é fria e quadrada, sem buscar em seu elenco de bons atores - Dreyfuss, Hamilton, Lithgow - interpretações mais do que corretas. E, se o pequeno Ben Faulkner dá show vivendo o atormentado Tim, o mesmo não pode ser dito de Liv Tyler, que estreava no cinema na pele de sua irmã mais velha, Sylvie. Vinda do mundo do rock - é filha do vocalista da banda Aerosmith, Steven Tyler, e havia estrelado o videoclipe "Crazy", da banda do papai, ao lado da atriz Alicia Silverstone - Liv mostrou que realmente era uma mulher deslumbrante, mas desprovida de talento dramático em um papel-chave para a trama. Felizmente, com o tempo, ela melhorou bastante e hoje é uma atriz relativamente competente. Mas, diante de tantos erros cometidos por "Testemunha do silêncio" sua apatia fica ainda mais gritante. Uma pena.

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