segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

SEIS GRAUS DE SEPARAÇÃO

SEIS GRAUS DE SEPARAÇÃO (Six degrees of separation, 1993, MGM Productions, 112min) Direção: Fred Schepisi. Roteiro: John Guare, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Ian Baker. Montagem: Peter Honess. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Juddiana Makovsky. Direção de arte/cenários: Dennis Bradford/Gretchen Rau. Produção executiva: Ric Kidney. Produção: Arnon Milchan, Fred Schepisi. Elenco: Donald Sutherland, Stockard Channing, Will Smith, Ian McKellen, Mary Beth Hurt, Bruce Davison, Richard Masur, Heather Graham, Anthony Michael Hall. Estreia: 08/12/93

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Stockard Channing)

Em 1983, um jovem negro de 19 anos de idade chamado David Hampton penetrou na alta sociedade de Manhattan e, se fazendo passar por filho do ator Sidney Poitier, conseguiu ludibriar personalidades como Melanie Griffith, Gary Sinise e Calvin Klein e gente da alta sociedade nova-iorquina, como o reitor de uma faculdade de jornalismo e um famoso urologista. Alegando ser amigo de seus filhos que estavam na universidade, ter sido assaltado ou ter perdido a bagagem em voo de avião, ele se hospedava nos apartamentos de suas vítimas e, uma vez tendo-as conquistado, até conseguia que lhes emprestassem dinheiro. Farsa descoberta, o rapaz foi preso e banido de Nova York - até morrer, vítima de complicações relacionadas ao vírus da AIDS, em 2013. Sua história - quase absurda demais para ser verdade - chegou aos ouvidos do dramaturgo John Guare, que não resistiu à tentação de levá-la para os palcos. A peça "Seis graus de separação" estreou em novembro de 1990, foi indicada ao Tony de melhor espetáculo do ano e, pouco menos de três anos depois, chegava também às telas de cinema, adaptada pelo próprio Guare, dirigida por Fred Schepisi e estrelada pela mesma atriz que lhe deu vida na Broadway, Stockard Channing, que acabou indicada ao Golden Globe e ao Oscar por sua interpretação.

Mais conhecida como a encrenqueira Rizzo de "Grease, nos tempos da brilhantina" (78), Channing está brilhante no papel de Ouisa Kittredge, uma sofisticada e quase fútil socialite nova-iorquina que trabalha, ao lado do marido, Flan (Donald Sutherland) negociando valiosas obras de arte para colecionadores que dispensam o intermédio de galerias. Com os três filhos na universidade, eles vivem em um mundo de luxo e conforto - ainda que também se utilizem dos privilégios da aparência social - cuja rotina de jantares e festas é quebrado uma noite com a chegada em sua casa de Paul (Will Smith em seu primeiro papel de destaque em Hollywood), um jovem que, alegando ter sido assaltado em frente a seu prédio, apresenta-se como amigo de seus filhos. Enquanto é auxiliado pelo casal - e por um convidado sul-africano que está de passagem pela cidade, o milionário Geoffrey Miller (Ian McKellen) - Paul conta a eles sua história de vida, terminando por afirmar-lhes ser filho do primeiro casamento de Poitier. Fascinados com a situação - e com a possibilidade de fazerem parte de uma possível filmagem do musical "Cats" que está presumivelmente sendo produzida pelo ator - os Kittredge se deixam envolver com a lábia e a simpatia do rapaz, a ponto de convidá-lo a passar a noite em sua casa. Depois que a noite acaba mal, porém, eles chegam à conclusão de que Paul não é exatamente quem eles pensavam.


Em um encontro com um casal de amigos, os também ricaços Kitty (Mary Beth Hurt) e Larkin (Bruce Davison), os Kittredge ficam abismados quando descobrem que o mesmo golpe foi aplicado em seus amigos e resolvem ir à polícia. Para sua surpresa, o caso não é novo, e um médico da cidade, Dr. Fine (Richard Masur) surge para comprovar a afirmação. Com um misto de curiosidade/preocupação/senso de aventura, o grupo de "vítimas" resolve investigar a fundo e tentar descobrir a origem de Paul, seus objetivos em penetrar na alta sociedade e seu paradeiro. Para isso, contam com a ajuda - a princípio contrafeita - dos filhos e de Trent (Anthony Michael Hall), um antigo amigo dos jovens, que parece ter sido o ponto de partida da farsa, que chega a um patamar ainda maior quando ele ressurge espalhando por Manhattan que é um filho rejeitado de Flan Kittredge.

Escrito com um sarcástico senso de humor mergulhado em uma tocante melancolia e uma feroz crítica à futilidade da refinada sociedade de Manhattan - e do mundo todo, de uma maneira ou outra - "Seis graus de separação" consegue manter um equilíbrio perfeito entre o humor sutil e o drama delicado, sem jamais pesar a mão para nenhum lado. Ao narrar sua história como uma anedota inconsequente do jet-set nova-iorquino (o que dá vazão a uma memorável explosão final de Ouisa em um jantar chique), Guare enfatiza toda a diferença cultural que afasta os bem-nascidos como os Kittredge dos renegados como Paul, que anseiam desesperadamente por um mundo de luxo, arte, conforto e atenção. Para isso é fundamental, portanto, a atuação madura de Will Smith, brindando a plateia com um personagem que, à parte o carisma de sempre, em nada lembra seus papéis posteriores. Com um misto de desamparo, ginga e obsessão, ele constroi um Paul sempre surpreendente, que vai revelando camada por camada conforme a trama se desenvolve - também é notável o trabalho de edição de Peter Honess, que mantém a atenção do público sempre constante.

"Seis graus de separação" é um filme que cativa aos poucos, se revelando, em seu final, uma produção muito mais inteligente e instigante do que parecia em seus primeiros minutos. Uma pérola pouco conhecida capaz de conquistar o mais exigente espectador.

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