segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

FEITIÇO DO TEMPO

FEITIÇO DO TEMPO (Groundhog day, 1993, Columbia Pictures, 103min) Direção: Harold Ramis. Roteiro: Harold Ramis, Danny Rubin, estória de Danny Rubin. Fotografia: John Bailey. Montagem: Pembroke J. Harring. Música: George Fenton. Figurino: Jennifer Butler. Direção de arte/cenários: David Nichols/Lisa Fischer. Produção executiva: C.O. Erickson. Produção: Trevor Albert, Harold Ramis. Elenco: Bill Murray, Andie MacDowell, Chris Elliott, Stephen Tobolowski, Michael Shannon. Estreia: 12/02/93

Imagine a situação: você passa um dia inteiro em uma cidade do interior, fazendo um trabalho que detesta, pega uma nevasca que o impede de ir embora e, no dia seguinte, ao acordar, percebe que o dia está prestes a repetir-se. Pra piorar ainda mais, o problema se estende por dias e dias e não parece dar sinal de que vai acabar em algum momento, ou seja, você está indefinidamente preso a um dos mais entediantes dias de sua vida. Pois é exatamente por isso que passa Phil Connors, o protagonista de "Feitiço do tempo", uma das mais divertidas e inteligentes comédias dos anos 90. Porém, interpretado pelo sempre genial Bill Murray, o protagonista do filme de Harold Ramis (também ator, mais conhecido por ter vivido um dos colegas de Murray no clássico oitentista "Os caça-fantasmas") não se faz de rogado e, espertamente, resolve utilizar o eterno dèja-vu a seu favor. Quem se diverte - e muito - é o público.

Acostumado a fazer rir sem precisar se esforçar muito, Murray deita e rola na pele de Connors, um arrogante e misantropo repórter que apresenta a previsão do tempo de um telejornal de Pittsburgh e que vai, a contragosto, pela quarta vez, cobrir uma festividade folclórica da pequena Punxsutawney, localizada na Pensilvânia. Lá ocorre, todo ano, o Dia da Marmota, quando o animalzinho prevê, de acordo com as lendas locais, a duração do inverno. Dotado de absoluto desdém pela cidade, pela festa e pelas lendas, Phil só quer acabar logo sua tarefa e ir embora, mas uma tempestade de neve o impede de retornar pra casa. Quando amanhece, uma surpresa: o mesmo dia o aguarda, com todos os detalhes se repetindo. Seu estranhamento inicial dá lugar ao desespero, no entanto, quando ele vê que o que parecia um pesadelo é uma bizarra realidade e que todos os dias são sempre o mesmo. Sabendo que ninguém mais nota a kafkiana situação, ele resolve então aproveitá-la em benefício próprio e parte para a conquista de sua nova produtora, Rita (Andie MacDowell).


De posse de um roteiro nunca aquém de genial - co-escrito por ele e Danny Rubin - Harold Ramis criou um pequeno clássico dos anos noventa, uma comédia romântica que enfatiza muito mais o humor do que o romance. Se a base da trama são as tentativas de Phil em seduzir Rita - que até então nunca havia lhe percebido senão como colega de trabalho - o caminho para o desfecho do romance é pavimentado com piadas sensacionais geradas apenas pela premissa central: assim, Phil se utiliza das informações que consegue em um dia para se dar bem no seguinte, comete suicidio várias vezes por saber que sempre irá acordar em sua cama ouvindo o despertador tocando Cher e aprende coisas tais como fazer escultura no gelo e tocar piano com maestria. Além disso, é claro, se torna um ser humano melhor, com se poderia esperar de um filme vindo de Hollywood (por mais cínico que ele seja em âmago). O que é bom em "Feitiço do tempo" é que, mesmo com o óbvio final feliz, não existe nele a obsessão do politicamente correto que estragou boa parte do humor do cinema norte-americano a partir justamente da década de 90.

Engraçado sem ser histérico e romântico sem ser piegas, "Feitiço do tempo" é, também, a comprovação das imensas qualidades de Bill Murray como ator. Transformando seu Phil Connors de um homem egoísta e antipático em um personagem querido pela plateia e por Rita (que descobre um novo homem por debaixo das inúmeras camadas de sarcasmo e arrogância), ele é o corpo e a alma do filme de Ramis, insuperável tanto em termos de humor físico quanto nos momentos de maior sutileza. Sorte de todos (do filme, do público e do diretor) que o papel não ficou com Chevy Chase, Steve Martin e John Travolta. A despeito do talento de todos, Bill Murray nasceu para viver o desagradável Phil Connors. E o resultado final comprova essa afirmação.

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