segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

E A VIDA CONTINUA

E A VIDA CONTINUA (And the band played on, 1993, HBO Pictures/Spelling Entertainment, 141min) Direção: Roger Spottiswoode. Roteiro: Arnold Schulman, livro de Randy Shilts. Fotografia: Paul Elliott. Montagem: Lois Freeman-Fox. Música: Carter Burwell. Figurino: Patti Callicott. Direção de arte/cenários: Victoria Paul/Diana Allen Williams. Produção executiva: Aaron Spelling, E. Duke Vincent. Produção: Sarah Pillsbury, Midge Sanford. Elenco: Matthew Modine, Ian McKellen, Glenne Headly, Richard Gere, Anjelica Huston, Alan Alda, Charles Martin Smith, Phil Collins, Nathalie Baye, Richard Jenkins, Saul Rubinek, Donal Logue, Patrick Bauchau, Steve Martin, Swoozie Kurtz, Tchéky Karyo. Estreia: 11/9/93

Em 1989, o filme "Meu querido companheiro", de Norman René, já mostrava, através de um grupo de amigos de Nova York, o estrago que o vírus da AIDS fez junto à comunidade homossexual americana em seus primórdios, quando ainda era conhecido apenas como o "câncer gay". Com enfoque humanista e emocional, o filme deu a Bruce Davison uma indicação ao Oscar de coadjuvante e tornou-se o primeiro filme ianque a tratar abertamente do assunto - não por acaso, era uma produção independente, já que os grandes estúdios de Hollywood evitavam o tema como se fosse uma doença contagiosa (ops...).Foi somente com "Filadélfia", de Jonathan Demme, que os grandes orçamentos e astros bancáveis começaram a demonstrar um interesse que acabou, com o tempo, tornando-se o caminho fácil para o Oscar - que o diga Tom Hanks, Matthew McConaughey e Jared Leto. No mesmo ano em que o filme de Demme foi lançado, porém, outra produção fora dos limites do cinema comercial americano tocou no tema, de forma séria, pontual e quase didática. Baseado em um livro de Randy Shilts que narrava a odisseia dos médicos americanos e franceses em entender e combater uma doença cuja origem e desenvolvimento ainda eram grandes incógnitas, "E a vida continua" estreou no canal a cabo HBO em setembro de 1993 apresentando um elenco de rostos conhecidos e um capricho que, anos depois, se tornaria a marca registrada da emissora.

Com a longa duração de 141 minutos - sendo que os finais são dedicados a uma montagem com imagens de vítimas famosas (ou não) da doença sob a voz de Elton John cantando a bela "The last song" - "E a vida continua" evita o sentimentalismo ao tratar do assunto de forma quase jornalística, centrando seu foco em Don Francis (Matthew Modine, indicado ao Golden Globe por seu desempenho), um jovem médico infectologista que tenta, junto à equipe do Centro de Controle de Doenças de Atlanta, desvendar o que está causando a morte de dezenas de homossexuais masculinos, que perdem a imunidade repentinamente e morrem devido a doenças oportunistas. Sem o apoio do governo - que parece não se importar com o fato de que uma epidemia está em vias de acontecer - e nem mesmo dos próprios gays (que se recusam a mudar seu estilo de vida por considerarem tal ato um retrocesso a seus direitos civis), o grupo de médicos parte em busca da ajuda de profissionais franceses, como o competente Luc Montagnier (Patrick Buchau) - que entra em confronto direto com outro americano, Robert Gallo (Alan Alda), o primeiro médico a descobrir um retrovírus e que pretende ficar com o mérito de também ter descoberto o vírus da nova doença.


Mostrando passo a passo a evolução tanto da epidemia quanto das conquistas médicas, o filme de Roger Spottiswoode - diretor burocrático mas pouco ousado que já havia tentado arrancar graça de Sylvester Stallone em "Pare, senão mamãe atira!", em 1992 - segue no rumo oposto a "Meu querido companheiro", preferindo dedicar sua atenção na batalha incansável travada pela Medicina do que em suas vítimas e nos efeitos arrasadores da epidemia junto à população homossexual. Enquanto Francis luta por financiamento, por ajuda do governo e pelo apoio do próprio grupo de risco, o filme desenha sem maior ênfase o destino de alguns pacientes, como o comissário de voo promíscuo (Jeffret Nordling) que ajuda os médicos a encontrarem uma trilha de contaminação, o jovem símbolo da doença (Donal Logue) que luta para chamar a atenção da população e o coreógrafo famoso (Richard Gere) que se descobre doente e faz uma generosa doação para as pesquisas. A presença de Gere no elenco, aliás, é um dos pontos de destaque do filme. Um dos mais populares astros da década de 90 - vindo de sucessos como "Justiça cega" e "Uma linda mulher" - Gere entrou no projeto por acreditar em sua importância social e sua atitude resultou em uma corrida desenfreada de atores querendo fazer parte da empreitada, mesmo que em papéis pequenos.

Foi assim que Anjelica Huston, Steve Martin, Ian McKellen e Alan Alda embarcaram em "E a vida continua", um filme de importância política e social inegável e que lançou luz a um tema até então considerado impróprio e desagradável para o grande público - e para a presidência do país, uma vez que foi preciso mais de uma década desde a primeira morte para que Ronald Reagan fizesse sua primeira menção à epidemia. De lá pra cá o cinema e a televisão vem explorando o assunto em produções de qualidades variadas - inclusive a mesma HBO lançou, em 2014, o sensacional "The normal heart", que dramatiza o mesmo período histórico sob um ponto de vista mais dramático e menos técnico - mas isso não lhe tira o mérito do pioneirismo.

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