sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

VESTÍGIOS DO DIA

VESTÍGIOS DO DIA (The remains of the day, 1993, Merchant Ivory Productions/Columbia Pictures Corporation, 134min) Direção: James Ivory. Roteiro: Ruth Prawer Jhabvala, romance de Kazuo Ishiguro. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Andrew Marcus. Música: Richard Robbins Figurino: Jenny Beavan, John Bright. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção executiva: Paul Bradley. Produção: John Calley, Ismail Merchant, Mike Nichols. Elenco: Anthony Hopkins, Emma Thompson, Christopher Reeve, James Fox, Ben Chaplin, Hugh Grant. Estreia: 05/11/93

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (James Ivory), Ator (Anthony Hopkins), Atriz (Emma Thompson), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Em 1992, o diretor James Ivory e os atores Anthony Hopkins e Emma Thompson trabalharam juntos em "Retorno a Howard's End", adaptação do romance de E.M. Forster que, a despeito dos elogios entusiasmados da crítica, dos inúmeros prêmios e do Oscar de melhor atriz, beirava a chatice extrema (uma verdade que os fãs do cineasta jamais irão reconhecer). Quando eles anunciaram que iriam se reencontrar nas telas em uma versão do livro "Vestígios do dia", de Kazuo Ishiguro, todo mundo ficou esperando mais do mesmo: um longo e entediante drama sobre a Inglaterra do passado feito para encantar a Academia mas capaz de causar irreparável sono na plateia. Ledo engano. Um avassalador estudo sobre paixões reprimidas, a dedicação obsessiva a um ofício, as transformações políticas de um mundo pré-guerra e um delicado romance platônico, o filme não só arrebatou oito merecidas indicações ao Oscar - saiu de mãos vazias da cerimônia porque bateu de frente com Steven Spielberg e seu "A lista de Schindler" - como derreteu o coração dos espectadores com sua maturidade e sutileza.

Tendo silêncios eloquentes, lágrimas contidas e suspiros abafados como coadjuvantes de uma história de amor reprimido, "Vestígios do dia" acompanha com delicadeza o nunca consumado amor entre dois leais e dedicados serviçais de um aristocrata britânico em um país em vias de embarcar na II Guerra Mundial. Mesclando com rara inteligência comentários políticos que indicam claramente as inclinações nazistas que levaram Lord Darlington (James Fox, ótimo) à decadência moral pós-conflito e o romance devastador entre os protagonistas, o roteiro de Ruth Prawer Jhabvala - colaboradora habitual do diretor - oferece material de sobra para o show de Hopkins e Thompson, em atuações cujo minimalismo é a principal qualidade. Não é preciso muito para que, juntos em cena, os dois atores transmitam uma imensidade de sentimentos apenas com o olhar. Ao público, resta se emocionar e aplaudir, se envolvendo sem reservas com dois personagens tão distantes e ao mesmo tempo tão próximos.


Narrado em flashback, "Vestígios do dia" começa na década de 50, décadas depois do auge da mansão Darlington Hall, de propriedade de um aristocrata inglês que viu nascer, em sua propriedade, a aliança europeia que apoiaria o social-nacionalismo alemão. Trabalhando para um milionário americano (Christopher Reeve), o copeiro Mr. Stevens (Anthony Hopkins) recebe uma carta escrita por uma antiga colega, Mrs. Kenton (Emma Thompson), que trabalhava como governanta e abandonou o emprego para casar-se. No caminho para reencontrar-se com ela, o dedicado empregado relembra sua trajetória profissional e sua dedicação cega a seu patrão - uma lealdade e uma seriedade auto-imposta que o impediu até mesmo de chorar devidamente a morte de seu pai, com quem compartilhava a seriedade. Extremamente rígido em relação a seus deveres, Stevens presencia as mudanças políticas de seu país com a mesma atenção que dispensa à limpeza da prataria e à disposição correta dos talheres à mesa. Tal comportamento o impede de declarar o amor que sente por Kenton, também apaixonada, mas presa às convenções sociais. O amor platônico entre os dois é responsável por cenas de apertar o coração, como a famosa sequência em que a governanta descobre, através de um livro de poesias, que existe um coração por trás da séria fachada do mordomo.

Centrado basicamente nas emoções contidas de seus dois protagonistas - e tendo o período político anterior à II Guerra como um poderoso e apropriado pano de fundo - o melhor filme de James Ivory também se beneficia de uma produção caprichada, que emoldura com perfeição os dolorosos momentos por que passam os personagens. A reconstituição de época - tanto a direção de arte quanto o figurino também concorrem à estatueta dourada - e a trilha sonora adequada são elementos utilizados com extrema sobriedade pelo cineasta, ilustrando a passagem de tempo e as dores de um amor não consumado como poucas produções de sua época. "Retorno a Howard's End" continua sendo uma chatice. Mas "Vestígios do dia" compensa - e muito - todos os pecados anteriores de seu criador.

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