VESTÍGIOS
DO DIA (The remains of the day, 1993, Merchant Ivory
Productions/Columbia Pictures Corporation, 134min) Direção: James Ivory.
Roteiro: Ruth Prawer Jhabvala, romance
de Kazuo Ishiguro. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Andrew
Marcus. Música: Richard Robbins Figurino: Jenny Beavan, John Bright.
Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção
executiva: Paul Bradley. Produção: John Calley, Ismail Merchant, Mike
Nichols. Elenco: Anthony Hopkins, Emma Thompson, Christopher Reeve,
James Fox, Ben Chaplin, Hugh Grant. Estreia: 05/11/93
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (James Ivory), Ator
(Anthony Hopkins), Atriz (Emma Thompson), Roteiro Adaptado, Trilha
Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Em
1992, o diretor James Ivory e os atores Anthony Hopkins e Emma Thompson
trabalharam juntos em "Retorno a Howard's End", adaptação do romance
de E.M. Forster que, a despeito dos elogios entusiasmados da crítica,
dos inúmeros prêmios e do Oscar de melhor atriz, beirava a chatice
extrema (uma verdade que os fãs do cineasta jamais irão reconhecer).
Quando eles anunciaram que iriam se reencontrar nas telas em uma versão
do livro
"Vestígios do dia", de Kazuo Ishiguro, todo mundo ficou esperando mais
do mesmo: um longo e entediante drama sobre a Inglaterra do passado
feito para encantar a Academia mas capaz de causar irreparável sono na
plateia. Ledo engano. Um avassalador estudo sobre paixões reprimidas, a
dedicação obsessiva a um ofício, as transformações políticas de um mundo
pré-guerra e um delicado romance platônico, o filme não só
arrebatou oito merecidas indicações ao Oscar - saiu de mãos vazias da
cerimônia porque bateu de frente com Steven Spielberg e seu "A lista de
Schindler" - como derreteu o coração dos espectadores com sua maturidade
e sutileza.
Tendo silêncios eloquentes, lágrimas
contidas e suspiros abafados como coadjuvantes de uma história de amor
reprimido, "Vestígios do dia" acompanha com delicadeza o nunca consumado
amor entre dois leais e dedicados serviçais de um aristocrata britânico
em um país em vias de embarcar na II Guerra Mundial. Mesclando com rara
inteligência comentários políticos que indicam claramente as
inclinações nazistas que levaram Lord Darlington (James Fox, ótimo) à
decadência moral pós-conflito e o romance devastador entre os
protagonistas, o roteiro de Ruth Prawer Jhabvala - colaboradora habitual
do diretor - oferece material de sobra para o show de Hopkins e
Thompson, em atuações cujo minimalismo é a principal qualidade. Não é
preciso muito para que, juntos em cena, os dois atores transmitam uma
imensidade de sentimentos apenas com o olhar. Ao público, resta se
emocionar e aplaudir, se envolvendo sem reservas com dois personagens
tão distantes e ao mesmo tempo tão próximos.
Narrado
em flashback, "Vestígios do dia" começa na década de 50, décadas depois
do auge da mansão Darlington Hall, de propriedade de um aristocrata
inglês que viu nascer, em sua propriedade, a aliança europeia que
apoiaria o social-nacionalismo alemão. Trabalhando para um milionário
americano (Christopher Reeve), o copeiro Mr. Stevens (Anthony Hopkins)
recebe uma carta escrita por uma antiga colega, Mrs. Kenton (Emma
Thompson), que trabalhava como governanta e abandonou o emprego para
casar-se. No caminho para reencontrar-se com ela, o dedicado empregado
relembra sua trajetória profissional e sua dedicação cega a seu patrão -
uma lealdade e uma seriedade auto-imposta que o impediu até mesmo de
chorar devidamente a morte de seu pai, com quem compartilhava a
seriedade. Extremamente rígido em relação a seus deveres, Stevens
presencia as mudanças políticas de seu país com a mesma atenção que
dispensa à limpeza da prataria e à disposição correta dos talheres à
mesa. Tal comportamento o impede de declarar o amor que sente por
Kenton, também apaixonada, mas presa às convenções sociais. O amor
platônico entre os dois é responsável por cenas de apertar o coração,
como a famosa sequência em que a governanta descobre, através de um
livro de poesias, que existe um coração por trás da séria fachada do
mordomo.
Centrado basicamente nas emoções contidas de
seus dois protagonistas - e tendo o período político anterior à II
Guerra como um poderoso e apropriado pano de fundo - o melhor filme de
James Ivory também se beneficia de uma produção caprichada, que emoldura
com perfeição os dolorosos momentos por que passam os personagens. A
reconstituição de época - tanto a direção de arte quanto o figurino
também concorrem à estatueta dourada - e a trilha sonora adequada são
elementos utilizados com extrema sobriedade pelo cineasta, ilustrando a
passagem de tempo e as dores de um amor não consumado como poucas
produções de sua época. "Retorno a Howard's End" continua sendo uma
chatice. Mas "Vestígios do dia" compensa - e muito - todos os pecados
anteriores de seu criador.
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sexta-feira
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