quinta-feira, 5 de março de 2015

OU TUDO OU NADA

OU TUDO OU NADA (The full monty, 1997, Redwave Films/Channel Four Films/20th Century Fox Films, 91min) Direção: Peter Cattaneo. Roteiro: Simon Beaufoy. Fotografia: John De Borman. Montagem: David Freeman, Nick Moore. Música: Anne Dudley. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Max Gottlieb. Produção: Uberto Pasolini. Elenco: Robert Carlyle, Tom Wilkinson, Mark Addy, William Snape, Steve Huison, Paul Barber, Hugo Speer, Lesley Sharp, Emily Woof. Estreia: 13/8/97

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção (Peter Cattaneo), Roteiro Original, Trilha Sonora Original (Comédia/Musical)
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original (Comédia/Musical)


A cerimônia do Oscar 98 teve um protagonista indiscutível - "Titanic", com suas 14 indicações e 11 estatuetas - e alguns coadjuvantes de importância razoável - "Melhor é impossível", "Gênio indomável" e "Los Angeles, cidade proibida", todos premiados em duas categorias cada um. Mas um dos filmes mais falados da disputa não tinha astros conhecidos em seu elenco, havia sido realizado com uns trocados e era falado em um inglês que até mesmo os americanos tinham certa dificuldade em compreender. Em mais um caso de Davi contra Golias na maior festa do cinema, a comédia "Ou tudo ou nada" - com um orçamento de 3,5 milhões de dólares - tentava derrotar o mastodôntico transatlântico de 200 milhões de James Cameron com base apenas na simpatia que despertou nas plateias mundiais e nas entusiasmadas críticas angariadas pelo planeta. Logicamente suas armas não foram poderosas o bastante - levou apenas o Oscar de melhor trilha sonora, que soou como um prêmio de consolação - mas só o fato de estar entre os cinco finalistas de melhor filme de um ano bem forte já pode ser considerado uma vitória e tanto para uma obra tão pouco ambiciosa.

Mistura de comédia de costumes com crítica social, "Ou tudo ou nada" ganhou o público justamente pela despretensão, que é a sua maior qualidade. Enxuto e esperto ao utilizar suas limitações orçamentárias a seu favor, transmitindo em cada cena a sensação de decadência e melancolia de uma comunidade desprovida de esperança e expectativas de progresso, o filme do estreante Peter Cattaneo - que de cara se viu disputando uma estatueta dourada com nomes consagrados como Cameron e Gus Van Sant - desconstrói o pessimismo diante de uma das maiores crises financeiras da história da Inglaterra com uma história alto-astral e positiva, recheada de personagens absolutamente críveis em sua banalidade e uma trilha sonora deliciosa de clássicos da era da discoteca.


A trama se passa em uma pequena cidade inglesa chamada Sheffield, que, de um passado brilhante e promissor como "a cidade do aço", transformou-se, uma década e meia mais tarde, em mais uma comunidade assombrada pelo fantasma da crise e do desemprego massivo. Apenas mais um dentre milhares, o desesperado Gary (Robert Carlyle) está em vias de perder inclusive a guarda compartilhada do único filho quando tem uma ideia no mínimo inusitada: reunir um grupo de homens na mesma situação que ele para organizar um show de striptease completo e assim, arrumar dinheiro para pagar as contas. O fato de nem ele nem seus companheiros de projeto serem exatamente galãs é o menor dos seus problemas: com pouco tempo e sem local para ensaiar, o grupo também precisa lidar com sua baixa autoestima e o medo do fracasso, agravado depois que seus planos são expostos à toda população, gerando uma grande expectativa na cidade. Tal pressão passa a torturar principalmente o tímido Dave (Mark Addy) - complexado por achar-se acima do peso - e Gerald (Tom Wilkinson), que esconde da esposa que perdeu o emprego há seis meses e vê aos poucos suas dívidas se acumulando.

Simples e direto, "Ou tudo ou nada" sofre de uma certa superficialidade no desenho de seus personagens, que, com exceção de Gary, Gerald e Dave, são relegados a um segundo plano quase injusto no roteiro escrito por Simon Beaufoy - que anos depois ganharia o Oscar por "Quem quer ser um milionário?": mesmo quando a trama acena para o desenvolvimento maior dos coadjuvantes, tal promessa nunca ultrapassa os limites do mais básico simplismo. Sorte que as atuações de Mark Addy como o inseguro Dave e Robert Carlyle como a mente criativa por trás do evento funcionem com perfeição, entregando à plateia uma emoção genuína que disfarça a fragilidade do roteiro. Além disso, é impossível não estampar um sorriso no rosto diante da mais clássica do filme: na fila do banco, enquanto aguardam o pagamento de seu seguro-desemprego, os seis operários (desesperançados, tristes, fora de forma e da idade mais apropriada para isso) não resistem ao som de "Hot stuff", de Donna Summer e fazem, alienados do mundo à sua volta, a coreografia prevista para seu show. Uma cena singela, engraçada e simpática - qualidades que levaram a obra de Cattaneo ao palco do Oscar em um ano em que filmes geniais como "Boogie nights", de Paul Thomas Anderson e "Jackie Brown", de Quentin Tarantino, apenas a assistiram de longe.

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