segunda-feira, 9 de março de 2015

REVIRAVOLTA

REVIRAVOLTA (U-turn, 1997, Phoenix Pictures/Clyde is Hungry Productions/Illusion Entertainment Group, 125min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: John Ridley, romance "Stray dogs", de John Ridley. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Hank Corwin, Thomas J. Nordberg. Música: Ennio Morricone. Figurino: Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: John Ridley. Produção executiva: John Ridley. Produção: Dan Halsted, Clayton Townsend. Elenco: Sean Penn, Jennifer Lopez, Nick Nolte, Billy Bob Thornton, Jon Voight, Joaquin Phoenix, Claire Danes, Julie Hagerty. Estreia: 27/8/97 (Festival de Telluride)

Para mostrar que não é um diretor preocupado apenas com as consequências da guerra do Vietnã e com as mazelas políticas e sociais dos EUA - e consequentemente fugir da pecha de cineasta mais propenso a polêmicas do que a entretenimento puro e simples - Oliver Stone deixou de lado suas obsessões mais caras (ou nem tanto, já que visualmente se manteve fiel a suas narrativas rocambolescas) para assinar "Reviravolta", um drama policial que mistura no mesmo balaio ultra-violência, sexo, humor negro e incesto com a mesma naturalidade com que conta a história (já tantas vezes contada pelo cinema) do homem que se mete com a mulher errada na hora errada... e no caso de seu filme, também na cidade errada. Subvertendo as regras visuais do cinema noir - ao substituir a escuridão das sombras pela luz de um escaldante sol - com a fotografia estourada de seu colaborador habitual Robert Richardson (oscarizado por "JFK"), Stone criou uma espécie de episódio estendido de "Além da imaginação", utilizando-se, para isso, de um roteiro que não cansa de surpreender a plateia com novas informações e (com o perdão da repetição) reviravoltas. Sexy, cruel e sarcástico, o filme, estrelado por um impecável Sean Penn e uma estonteante Jennifer Lopez, não é dos mais conhecidos trabalhos do diretor, mas é muito acima da média do comportado cinema norte-americano.

O estilo cinematográfico de Oliver Stone - imagens sobrepostas, diferentes tipos de filmagem, edição extremamente ágil - fica claro logo nos primeiros minutos de "Reviravolta", que mostram a chegada do misterioso Bobby Cooper (Sean Penn) à Superior, no interior de Nevada. A caminho de Las Vegas para pagar uma dívida de jogo que já o fez perder dois dedos da mão, ele se vê obrigado a parar na pequena cidade depois que seu carro estraga e, enquanto o bizarro mecânico Darrell (Billy Bob Thornton) cuida do automóvel, ele passeia pelo calor sufocante do local, encravado no meio do deserto. Como um oásis de beleza e sensualidade, seus olhos caem na bela Grace (Jennifer Lopez), uma mulher provocante que não demora em tentar seduzí-lo a despeito de ser casada com o feroz Jake McKenna (Nick Nolte), um homem mais velho e violento que não demora a propor um elaborado plano de assassinato ao atarantado rapaz. Sem dinheiro para pagar sua dívida (por motivos que não convém revelar para não estragar as surpresas) e nem ao menos a conta do mecânico, Bobby fica tentado a aceitar a proposta, mas acaba se enroscando em uma trama muito mais cheia de mentiras do que supunha a princípio. Não bastasse isso, ele precisa lidar com outras personalidades estranhas do lugar, como um velho índio cego (Jon Voight, irreconhecível em um papel que Stone quis oferecer a Marlon Brando) e um casal de jovens (Claire Danes e Joaquin Phoenix) que parece ter como missão na vida perturbar o pouco que resta de sua paz.


Com uma narrativa que apresenta resquícios de "Assassinos por natureza" - imagens deformadas, personagens à beira da histeria e uma dose superlativa de humor negro - "Reviravolta" pode até ser descrito por seu diretor como um filme simples, mas há muito mais complexidade em seu desenvolvimento do que uma primeira espiada pode mostrar. O que começa com um simples road movie macabro vai se transformando lentamente em um tenso exercício de suspense, banhando em uma sensualidade crua - enfatizada pela iluminação saturada que amplia a sensação claustrofóbica - e uma sucessão de traições que remete aos mais famosos escritores pulp americanos, como se Raymond Chandler e Dashiel Hammett substituíssem os bares degradantes e agências de detetives que habitam seus romances por um deserto tão pernicioso quanto. É irônico perceber que, por menos correto e honesto que seja, Bobby é o heroi da história, sendo pego como uma mosca na teia de volúpia e corrupção de Grace e Jake. O roteiro de John Ridley - o mesmo que ganhou o Oscar por "12 anos de escravidão" quinze anos mais tarde - é tão sacana que não resta opção ao público senão torcer pelo protagonista mesmo que ele destoe radicalmente do ideal do bom-mocismo cinematográfico. E para isso conta muito que ele seja interpretado por Sean Penn, o melhor ator de sua geração.

Primeira escolha de Oliver Stone para protagonizar o filme, Penn quase ficou de fora da produção devido a problemas de agenda, sendo substituído por Bill Paxton até quase o início das filmagens, quando retomou o papel (que felizmente foi recusado por Tom Cruise, que facilmente poderia estragar o resultado final com seu ar de eterno galã). Apresentando uma das melhores atuações de sua carreira, o ator transita com naturalidade entre o tédio, o medo, a fúria, o tesão e a perplexidade, contagiando com seu imenso talento até a então novata Jennifer Lopez, que, mesmo não precisando fazer mais do que aquecer a tela com sua beleza candente, se mostra uma atriz promissora e dedicada. Sua química com Sean Penn é outro destaque de um filme repleto de qualidades que infelizmente passou quase em branco pelos cinemas - nos EUA é fácil odiar os trabalhos de Oliver Stone graças a suas ideias "perigosas", e tal desprezo acabou prejudicando a carreira internacional de "Reviravolta". Felizmente, sempre há tempo para reparar tal erro e conhecer - ou redescobrir essa pequena pérola de sua filmografia.

Um comentário:

Prof. VALENTE disse...

Acabo de ver, e realmente vale a pena absorver toda a complexidade do filme ...
É possível viver várias emoções com esse elogiado, e obscuro, filme !!