sábado, 7 de março de 2015

BENT

BENT (Bent, 1997, Channel Four Films, 105min) Direção: Sean Mathias. Roteiro: Martin Sherman, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Yorgos Avanitis. Montagem: Isabel Lorente. Música: Philip Glass. Figurino: Stewart Meachem. Direção de arte/cenários: Stephen Brimson Lewis. Produção executiva: Hisami Kuroiwa, Sarah Radclyffe. Produção: Dixie Linder, Michael Solinger. Elenco: Clive Owen, Ian McKellen, Luthaire Bluteau, Brian Webber. Estreia: Maio/97 (Festival de Cannes)

Quando foi anunciado que a peça teatral "Bent" - sucesso da Broadway que estreou em dezembro de 1979 e concorreu ao Tony de melhor espetáculo de 1980 - seria adaptada para o cinema, o primeiro nome divulgado no elenco foi o de Richard Gere, protagonista da montagem original quando ainda era desconhecido do público de cinema. Sua escalação para o papel central - um homossexual que sofre os horrores de um campo de concentração nazista durante a II Guerra - seria uma espécie de garantia e visibilidade comercial aos produtores para um projeto arriscado e potencialmente prejudicial à carreira de um ator sem sua estabilidade popular. Trabalhar com um astro de cinema, porém, não é tão simples como parece e antes mesmo do início da produção, Gere teve que abandonar o barco por questões profissionais - mais conhecidas como conflito de agendas - que o impediam de estar disponível para as filmagens no prazo planejado. Sendo assim, ele partiu para filmar "Justiça vermelha" e "O chacal" e acabou sendo substituído por um ator inglês - cujo trabalho basicamente para a televisão ainda não havia justificado o interesse de Hollywood - chamado Clive Owen. No cinema, como na vida, há males que vem pra bem, e a entrada de Owen no filme de Sean Mathias foi o que de melhor poderia ter acontecido. Ok, comercialmente sua presença não ajudou em nada, mas é difícil imaginar que Richard Gere - um ator mais conhecido por seus dotes de galã do que por seu talento - pudesse ter a força dramática que Owen imprime a cada cena do filme.

Antes de começar uma bem-sucedida carreira em Hollywood - que culminou com uma indicação ao Oscar de coadjuvante por "Closer, perto demais" (04) - Owen interpreta, com garra e sensibilidade, o alemão Max, um jovem de família influente que é renegado por ela por não tentar esconder de ninguém sua homossexualidade em plena efervescente Berlim de 1935, quando os nazistas estão começando sua escalada de terror. Conhecido na noite da cidade, ele tem uma relação relativamente estável com o bailarino Rudy (Brian Webber) - e por causa dele, recusa-se a aceitar um visto para fora do país quando passa a ser procurado graças ao envolvimento passageiro com o amante de um dos homens de confiança de Hitler, assassinado a mando do regime. Preso junto a ele, Max presencia a extrema violência da polícia nazista, testemunha o assassinato de Rudy e, com medo de ser tratado como homossexual - a escala mais baixa dentre os prisioneiros - mente sobre sua identidade sexual. Sua covardia chama a atenção de Horst (Lothaire Bluteau), um gay orgulhoso de sua condição que ostenta com o máximo de dignidade a estrela cor-de-rosa que o identifica perante os demais prisioneiros. Tal diferença de atitudes, no entanto, não os impede de se apaixonar, mesmo que sejam impedidos de trocar um simples abraço.


Mantendo a estrutura do texto original sem deixar que seu filme se transforme em um mero teatro filmado, o diretor Sean Mathias - também ator e que até hoje não assinou mais nenhum trabalho como cineasta - cria cenas visualmente poéticas que ilustram violentamente a crueldade fria da triste situação dos personagens. Contando com a ajuda da fotografia acinzentada de Yorgos Avanitis e com a trilha sonora delicada e densa de Philip Glass, ele conduz o espectador a uma atmosfera de pesadelo sombrio, repetitivo e sufocante que contrasta com a atmosfera de festividades orgiásticas e decadentes de seus primeiros minutos, que mostram a vida cotidiana de Max e seus amigos da boemia - com direito até a uma participação especialíssima de Mick Jagger como a performer Greta, que abre o filme com um belo número musical que dá o tom do espetáculo que virá. O roteiro, escrito pelo autor da peça, Martin Sherman, é cuidadoso também ao criar um protagonista crível, complexo e dotado de nuances tão sutis de que somente um ator do porte de Owen - e de sua imersão no papel - seria capaz.  Sua química com Lothaire Bluteau é palpável e de uma intensidade que transborda da tela, especialmente em momentos belíssimos, como a sequência em que fazem sexo sem ao menos tocar um no outro.

Recheado de belos momentos como esse e com um texto fluente que soa como poesia na boca de seus grandes atores - Ian McKellen como o tio enrustido de Max, entre eles - "Bent" é uma obra obrigatória dentro do universo do cinema homossexual e relativo aos horrores da II Guerra, tratando de um assunto frequentemente deixado de lado pelos grandes diretores e grandes estúdios. Sem apelar para o erotismo de publicidade ou o dramalhão manipulatório, é também um retrato bastante fiel do estilo de vida dos gays alemães da década de 30, que podiam optar entre a clandestinidade e o respeito alheio ou pela verdade e suas consequências - um estilo de hipocrisia ainda presente na sociedade ocidental mesmo nos dias de hoje. Um filme feliz em todos os aspectos, apesar da melancolia de sua trama e da tristeza inerente a seu desfecho. Filmaço!

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