segunda-feira, 23 de março de 2015

HILARY & JACKIE

HILARY & JACKIE (Hilary and Jackie, 1998, Channel Four Films, 121min) Direção: Anand Tucker. Roteiro: Frank Cottrell Boyce, livro "A genius in the family", de Hilary Du Pré, Piers Du Pré. Fotografia: David Johnson. Montagem: Martin Walsh. Música: Barrington Pheloung. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Alice Normington/Trisha Edwards. Produção executiva: Guy East, Ruth Jackson, Nigel Sinclair. Produção: Nicolas Kent, Andy Paterson. Elenco: Emily Watson, Rachel Griffiths, James Frain, Charles Dance, David Morrissey, Celia Imrie. Estreia: 05/9/98 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Emily Watson), Atriz Coadjuvante (Rachel Griffiths)

Quando recebeu sua primeira indicação ao Oscar, por seu aterrador desempenho em "Ondas do destino", de Lars Von Trier, a atriz Emily Watson era um rosto desconhecido do grande público, mas provou que tinha talento de sobra para disputar uma estatueta com nomes consagrados como Diane Keaton e Frances McDormand (que acabou vencendo a parada, por "Fargo"). Em 1999, dois anos depois de ter chamado a atenção dos cinéfilos, dos críticos e da própria Academia, ela voltou à lista das cinco indicadas ao prêmio principal por uma atuação ainda melhor. Em "Hilary & Jackie", a história real da violoncelista Jacqueline du Prè - vítima de uma doença degenerativa que encerrou precocemente sua brilhante carreira - é mérito unicamente de sua visceral interpretação o fato de despertar compaixão e simpatia por uma personagem arrogante, egoísta e quase desagradável. Sua tour de force é tamanha que até hoje é simplesmente inacreditável que tenha perdido o Oscar para Gwyneth Paltrow - em um ano em que só poderia ser superada por Cate Blanchett em "Elizabeth" ou Fernanda Montenegro em "Central do Brasil".

Baseado no livro escrito pelos irmãos Hilary e Piers du Prè, "Hilary & Jackie" acompanha a trajetória de duas irmãs, musicistas talentosas, que tem seus destinos desviados na juventude, quando decidem seguir rumos distintos na vida. Quando criança, Hilary, a mais velha, destaca-se como flautista, e desperta na irmã caçula, Jacqueline (ou Jackie) uma inveja branca que a faz esforçar-se arduamente nos estudos do violoncelo. Sua dedicação logo dá resultados e ela inicia, ainda bastante jovem, uma bem-sucedida série de concertos pela Europa, enquanto a irmã abandona a música para casar-se com e criar uma família no interior do país. A vida de celebridade de Jackie, porém, parece não lhe ser suficiente, e ela não demora a notar que nem mesmo seu casamento com o pianista Daniel Barenboim (James Frain) lhe traz a felicidade que almeja. As duas voltam a se encontrar, então, quando Jackie - por motivos não revelados a ninguém - procura Hilary em seu sítio, disposta a largar mão de tudo que conquistou para ter as mesmas coisas que a irmã mais velha - incluindo seu marido, Kiffer Finzi (David Morrissey). Algum tempo mais tarde, ela descobre sofrer de uma grave doença degenerativa, que a afasta de vez dos palcos e da música.


Brilhantemente roteirizado - contando sua história sob dois pontos de vista convergentes, que só fazem sentido completo ao final da sessão - "Hilary & Jackie" brinda o espectador com uma história fascinante que envolve amor e inveja fraternais, obsessão pela perfeição, o vazio da fama e, pra completar, uma melancólica e devastadora doença. Sem deixar-se cair nas armadilhas que uma história assim apresenta, tanto o roteiro quanto a direção (essa última a cargo de Anand Tucker, que sete anos depois assinaria o delicado "A garota da vitrine", com Steve Martin e Claire Denis) conduzem a trama de maneira sensível e harmoniosa, sem julgamentos morais ou exageros sentimentaloides. A inteligência de mostrar somente aos poucos as razões que levam Jackie a procurar conforto na família de sua irmã quando entra em surto quase psicótico dá ao filme uma ressonância dramática ímpar, justamente por proporcionar ao público a visão privilegiada de uma situação limítrofe, extremamente pessoal e de uma tristeza infinita, sem que para isso seja preciso tratá-la com sensacionalismo ou vulgaridade. Os desdobramentos melodramáticos da história entre as duas irmãs são tão surpreendentes e até moralmente discutíveis que não deixa de ser também corajoso mostrá-los com a naturalidade e a compaixão com que surgem diante da plateia.

Mas, apesar de todas as discussões sobre arte e relacionamento familiar que lança ao espectador, é no desempenho irretocável de Emily Watson que se apoia "Hilary & Jackie". Mesmo que Rachel Griffiths também esteja em dias iluminados, com uma atuação econômica mas poderosa que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante, é impossível tirar os olhos de Watson, que, tendo estudado violoncelo na infância, assume com segurança e impressionante veracidade o papel de Jacqueline du Prè, desde seus momentos de brilho nos palcos (com um trabalho corporal hipnotizante) até a época em que a doença domina seus movimentos e a impede até mesmo de se alimentar sozinha (em cenas de partir o coração do mais insensível dos homens). A força de sua transformação é a base do filme de Tucker, um dos mais poderosos dramas de sua temporada.

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