quinta-feira, 26 de março de 2015

O OPOSTO DO SEXO

O OPOSTO DO SEXO (The opposite of sex, 1998, Rysher Entertainment, 105min) Direção e roteiro: Don Roos. Fotografia: Hubert Taczanovski. Música: Mason Daring. Figurino: Peter Mitchell. Direção de arte/cenários: Michael Clausen/Kristin Peterson. Produção executiva: Steve Danton, Jim Lofti. Produção: Michael Besman, David Paul Kirkpatrick. Elenco: Christina Ricci, Martin Donovan, Lisa Kudrow, Lyle Lovett, Johnny Galecki, William Lee Scott, Ivan Sergei. Estreia: 22/5/98

Cerceado pela irritante e muitas vezes injustificável onda do politicamente correto que tomou conta dos EUA e do mundo a partir dos anos 90, o humor correu o sério risco de desaparecer do cinema americano - ao menos aquele humor ferino, cáustico e quase cruel que arrancava graça nos pequenos detalhes do cotidiano e fazia a plateia rir de si mesma. Felizmente alguns focos de resistência sempre surgem em períodos assim e o roteirista Don Roos faz parte desse grupo. Autor do texto de filmes mais variados - como o suspense "Mulher solteira procura...", o drama "Somente elas" e a desnecessária refilmagem de "As diabólicas", além de vários episódios de séries de TV, como a inesquecível "Casal 20" - Roos fez sua estreia como diretor ignorando os limites impostos pelo insosso gosto médio: "O oposto do sexo" é debochado, irônico, politicamente incorreto até a raiz dos cabelos... e muito, muito engraçado.

Logicamente, quem gosta de humor pastelão e piadas escatológicas sobre fluidos corpóreos e afins não irá comprar o humor de Roos, que usa e abusa do sarcasmo como principal ingrediente de seu roteiro, que brinca com o universo gay e a discriminação que o circunda sem medo de parecer ofensivo ou condescendente. Ao eleger como protagonista uma adolescente preconceituosa, mau-caráter, cínica e desprovida de qualquer sentimento que não seja em proveito próprio - Dede Truitt, vivida com gosto e perspicácia por uma sensacional Christina Ricci - o diretor já deixa pra trás qualquer noção pré-estabelecida de bom comportamento, utilizando-se da narração em off (artifício normalmente execrado por roteiristas mas que aqui funciona como uma ironia a mais) como um instrumento para cutucar os clichês do cinema: volta e meia ele também distorce a narrativa e mostra como elementos externos podem modificar um ponto de vista da plateia (uma música emotiva, por exemplo, que manipula uma cena que poderia não comover, ou a divisão da tela para permitir à audiência escolher entre uma cena já vistas muitas vezes ou outra, totalmente sem graça e emoção). Através da língua sem filtros de Dede - que larga atrocidade atrás de atrocidade sem dó nem piedade de ninguém - o roteiro faz rir ao mesmo tempo em que faz o espectador pensar bastante sobre os próprios (pré) conceitos.


A trama toda começa quando Dede perde o padrasto e resolve, sem avisar a ninguém, sair da pequena cidade da Louisiana onde vive para encontrar o meio-irmão, Bill (Martin Donovan, alter ego do diretor independente Whit Stillman em vários pequenos filmes dos anos 90), professor homossexual de uma cidade de Indiana, que vive bem de vida depois da morte do namorado, vítima da AIDS. Cínica e mentirosa - além de homofóbica e preconceituosa - ela acaba seduzindo Matt (Ivan Serguei), o novo namorado do irmão, que ingenuamente, acredita quando ela se declara grávida dele. Quando os dois vão embora tentar vida nova, porém, os rastros que deixam ameaçam destruir a vida de Bill, especialmente quando um antigo aluno, também amante de Matt, o acusa de abuso sexual durante seu período como estudante (uma mentira criada como forma de chantagem). Para provar sua inocência - além de reconquistar o amor de Matt, adotar o bebê e recuperar as cinzas de seu falecido namorado, sequestradas por Dede - Bill parte atrás do novo casal, contando com a ajuda fiel de Lucia (Lisa Kudrow, a Phoebe da série "Friends" em papel bastante diferente), sua cunhada solteirona que nunca acreditou nas mentiras da adolescente.

São muitas as qualidades que fazem de "O oposto do sexo" uma comédia muito acima da média, e uma das melhores dos anos 90 - apesar de ser injustamente pouco lembrada ou conhecida pelo grande público. Os diálogos são inteligentes e engraçadíssimos. O ritmo é perfeito, sem momentos mortos. Os personagens, apesar de soarem um tanto estereotipados, tem características psicológicas fortes e interessantes. A abordagem da homossexualidade é franca e direta sem que perca o humor e a seriedade. E o elenco é um show à parte, especialmente o feminino: cada uma à sua maneira, Christina Ricci (bagaceira, vulgar, cruel em sua frieza gananciosa) e Lisa Kudrow (seca, amargurada e racional em sua solidão e tristeza) mostram outros lados de seus talentos, brindando o público com interpretações brilhantes, dentre as melhores de suas carreiras. Elas são o maior destaque do filme, mas há muito com o que se divertir quando se resolve experimentar as aventuras de Dede Truitt.

Nenhum comentário: