sexta-feira, 27 de março de 2015

TRÊS É DEMAIS

TRÊS É DEMAIS (Rushmore, 1998, Touchstone Pictures, 121min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, Owen Wilson. Fotografia: Rober Yeoman. Montagem: David Moritz. Música: Mark Mothersbaugh. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: David Wasco/Alexandra Reynolds-Wasco. Produção executiva: Wes Anderson, Owen Wilson. Produção: Barry Mandel, Paul Schif. Elenco: Jason Schwartzman, Bill Murray, Olivia Williams, Seymour Cassell, Brian Cox, Mason Gamble, Sara Tanaka, Stephen McCole, Connie Nielsen, Luke Wilson. Estreia: 17/9/98 (Festival de Toronto)

Antes de tornar-se um dos cineastas norte-americanos mais louvados de sua geração, com produções cujos estilos visual e narrativo inconfundíveis fizeram a alegria da crítica e de uma legião de fãs fiéis, Wes Anderson passou um tempo restrito a um pequeno nicho de admiradores que descobriram, muito antes daqueles que fizeram de "O Grande Hotel Budapeste" um sucesso, sua maneira particular e inteligente de ver o mundo, sempre com uma dose única de ironia e carinho. Se hoje em dia seu primeiro trabalho, "Pura adrenalina" (96) é artigo raro e difícil de encontrar, seu segundo filme, "Três é demais" assumiu uma espécie de marco inicial de uma carreira de rara integridade em Hollywood. Mesmo vendida erroneamente como uma comédia romântica - talvez o maior motivo de seu fracasso comercial - a primeira colaboração entre Anderson e o ator Bill Murray (dentre muitas) escapa facilmente da classificação, mostrando logo de cara que não é fácil rotular uma obra do diretor.

Se é que é possível encaixar "Três é demais" em algum gênero, pode-se dizer que ele é uma comédia cínica, amarga e melancólica sobre a solidão e desajuste social. Jason Schwartzman (filho da atriz Talia Shire) tem uma estreia extraordinária como Max Fischer, um jovem bolsista da prestigiada escola preparatória Rushmore que, a despeito de sua extensa lista de atividades extra-curriculares, é um aluno medíocre e pouco respeitado - tanto pelos colegas quanto pelo diretor, Mr. Guggenheim (Brian Cox). Filho de um barbeiro (que ele divulga ser um neurocirurgião), Max é, no fundo, um rapaz de 15 anos que vive isolado em seu mundo particular, escrevendo peças de teatro e inventando maneiras de sobressair no universo escolar. Dois acontecimentos, porém, sacodem seu mundinho tedioso. Primeiro ele conhece e inicia uma estranha amizade com Herman Blume (o sensacional Bill Murray), um industrial milionário cujos filhos gêmeos estudam em Rushmore. Depois, se apaixona perdidamente por uma das professoras da escola, a tímida Rosemary Cross (Olivia Williams), que perdeu o marido e, apesar da diferença de idade entre eles, torna-se confidente do rapaz. As vidas dos três acabam se cruzando quando Blume - que vive um casamento frio e adúltero - também se apaixona por Rosemary e é correspondido, despertando em Max um até então desconhecido sentimento de vingança.


Construindo um roteiro caprichado, onde cada ação desperta uma reação inesperada mas crível, Wes Anderson desenvolve um trio de protagonistas dotados de personalidade e sensibilidade. Mesmo que Max Fischer seja pouco agradável com sua excentricidade por vezes enervante é difícil não simpatizar com seus dramas adultos em uma alma adolescente. Tal como a personagem de Reese Witherspoon em "Eleição", de Alexander Payne, Max tem como prioridade na vida ser alguém que ultrapasse a mediocridade que o cerca, mesmo que para isso abandone toda e qualquer ambição social e sentimental - o que muda com a chegada de Rosemary em sua vida e com sua amizade com Blume, que lhe trata com a admiração que não pode dar aos filhos pouco brilhantes. A entrada de Max na vida adulta através da decepção amorosa também é uma ideia primorosa, desenvolvida com fino humor e o senso estético que se tornaria uma das marcas registradas do diretor. Equilibrando seu roteiro com diálogos inteligentes e imagens milimetricamente calculadas, Anderson conduz o espectador a um mundo próprio, onde crianças são capazes de revanches cruéis, milionários de meia-idade disputam mulheres com adolescentes nerds e o final feliz não é exatamente cor-de-rosa ou otimista. Tendo como intérpretes atores do naipe do jovem Schwartzaman e do veterano Bill Murray, ele faz um gol de placa logo no início da carreira.

Em uma das maiores atuações de sua carreira - e injustamente esquecida pelo Oscar - Bill Murray está a um passo da perfeição na criação de seu Herman Blume, um homem cansado e desiludido que vê sua vida ganhar um novo ânimo quando se apaixona por uma mulher mais nova e tem a chance de ajudar na formação do caráter de um rapaz cuja alma - apesar de ser mais madura do que o normal - ainda é de um adolescente desajustado e infeliz. O triângulo amoroso formado pelos dois e pela professora vivida por Olivia Williams (talvez o único elo fraco de toda a corrente) não é dos mais românticos mostrados pelo cinema americano nos anos 90, mas é, com certeza, um dos mais interessantes e realistas, enfatizados pela criatividade e pelo talento de seu criador. Um belo filme a ser redescoberto e valorizado por seu humor sutil e delicadeza no trato das relações humanas.

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