sexta-feira, 6 de março de 2015

SERÁ QUE ELE É?

SERÁ QUE ELE É? (In & out, 1997, Paramount Pictures, 90min) Direção: Frank Oz. Roteiro: Paul Rudnik. Fotografia: Rob Hahn. Montagem: Dan Hanley, John Jympson. Música: Marc Shaiman. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Ken Adam/Charles V. Beal. Produção executiva: Adam Schroeder. Produção: Scott Ruddin. Elenco: Kevin Kline, Matt Dillon, Tom Selleck, Joan Cusack, Debbie Reynolds, Wilford Brimley, June Squibb, Shawn Hatosy, Lauren Ambrose, Shalom Harlow. Estreia: 10/9/97 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Joan Cusack)

A pequena cidade de Greenleaf, Indiana, está em festa. Um de seus nativos, o jovem ator Cameron Drake (Matt Dillon), é o favorito para ganhar o Oscar de melhor ator, por seu desempenho como um soldado gay. Orgulhosos de seu filho ilustre, os cidadãos se reúnem excitados para assistir à cerimônia de premiação e comemoram felizes quando ele é chamado ao palco para receber a estatueta. Em seu discurso de agradecimento, ele não esquece de citar o local onde passou a vida toda e revela que, para interpretar o papel que lhe deu tanta fama, inspirou-se em Howard Brackett (Kevin Kline), um professor de Literatura do ensino médio, que sempre lhe incentivou a lutar por seus sonhos... e é homossexual. A cidade, apavorada, queda-se paralisada com a surpreendente notícia, especialmente a família de Brackett, seus alunos e sua noiva, Emily (Joan Cusack), com quem está de casamento marcado para dali a poucos dias. Ninguém, porém, fica mais chocado que o próprio Howard, que se vê envolvido em uma polêmica internacional e passa a questionar a própria sexualidade.

Assim começa "Será que ele é?", divertídissima comédia de situações dirigida por um craque do gênero - o veterano Frank Oz - e que brinca com todos os clichês a respeito da homossexualidade com respeito, inteligência e ironia. Estrelado por um irretocável Kevin Kline - herdando um papel escrito para Steve Martin e dotando-o de toda a personalidade que faz dele um dos melhores atores de sua geração - o filme foge facilmente o rótulo de "obra temática gay" para conquistar todo tipo de plateia com um humor que, a despeito do tema sugerir, desvia da grosseria e do preconceito com maestria invejável. Ao fazer com que o próprio Howard Brackett duvide de sua sexualidade por causa de sinais inequívocos - um gosto suspeito por Barbra Streisand, por exemplo - o roteiro de Paul Rudnick (cuja origem foi o discurso de Tom Hanks quando recebeu um Oscar por "Filadélfia" e citou um professor gay) o coloca em pé de igualdade com todos os seus amigos e familiares - assim como o faz com o público - em sua busca pela verdade. Será que o professor, tão confiável, tão respeitado e até então tão "comum" é realmente homossexual? E se o é, o que será de sua desesperada noiva? Para responder tais questões, chegam à cidade uma horda de jornalistas sensacionalistas - liderados por Peter Malloy (Tom Selleck), que também tem seus segredos - e até Cameron Drake, que volta à Greenleaf para tentar ajudar seu querido professor a livrar-se da encrenca em que ele o meteu.


Feliz como poucas comédias de sua época - que apelavam para o humor escatológico ou politicamente incorreto em excesso como forma de forçar o riso - "Será que ele é?" cativa por ser quase ingênuo em sua abordagem da homossexualidade, suavizando sua abordagem de maneira a não soar ameaçadora ao público médio ao mesmo tempo em que respeita a comunidade gay sem jamais fazer do assunto uma piada rasa ou babaca. Talvez por isso o filme tenha se tornado um inesperado sucesso de bilheteria, rendendo mais de 60 milhões de dólares somente no mercado americano em um período relativamente morno para os estúdios - o que acabou empurrando o filme também para os tapetes vermelhos das premiações: na pele da apavorada Emily Montgomery, que vê seu casamento ficar ameaçado com as suspeitas a respeito do noivo, a sensacional Joan Cusack foi eleita a melhor atriz coadjuvante do ano pelos críticos de Nova York e chegou a concorrer ao Golden Globe e ao Oscar na mesma categoria, confirmando um histrionismo revelado no final dos anos 80, em filmes como "Nos bastidores da notícia" e "Uma secretária de futuro", que inclusive lhe deu também uma indicação à estatueta da Academia. Seu trabalho impecável - realçado por seu rosto que se presta a inúmeras nuances cômicas e dramáticas - é o par ideal para Kevin Kline, um ator completo e versátil que transmite toda a complexidade de seu personagem sem precisar recorrer a excessos. Quando eles vem, porém, em necessidade do roteiro, são deliciosamente precisos: é impossível manter-se sério, por exemplo, na cena em que Howard ouve uma fita que ensina os homens a serem machos e precisa se controlar para não cair na dança ao ouvir "I will survive". Clichê? Sim. Previsível? Lógico. Mas é também engraçadíssimo como poucos momentos do cinema americano dos anos 90.

Outra qualidade que faz de "Será que ele é?" uma comédia acima da média é a quantidade de boas piadas espalhadas pelo roteiro, que encontra espaço inclusive para uma mensagem pró-tolerância que, ao contrário de soar hipócrita e incoerente, enfatiza o tom leve e alto-astral da trama, que frequentemente deixa claro não levar-se a sério demais. Tal característica é perceptível desde o princípio do filme - com a participação especial de nomes como Glenn Close e Whoopi Goldberg como elas mesmas - e vai ficando cada vez mais nítida conforme inúmeras referências ao mundo gay vão pipocando nas telas, seja em forma de piadas verbais ("Barbra Streisand era muito velha para Yentl", brada um amigo de Brackett, para logo ser agredido pelo professor) ou até mesmo na escalação certeira de Debbie Reynolds (ícone gay) para viver a mãe do protagonista. Até mesmo a escolha de Tom Selleck - que sempre foi alvo de constantes boatos sobre sua sexualidade - para interpretar o repórter abelhudo que se interessa pela história de Brackett é um ponto positivo, apesar de muitas vezes o ator não conseguir escapar de ser ofuscado pelo brilhantismo de Kevin Kline.

Uma comédia repleta de acertos, "Será que ele é?" é a prova cabal de que é possível um filme ser engraçado, responsável e politicamente correto sem precisar recorrer ao piegas ou ao escatológico. É dirigido com inteligência e elegância, é interpretado com perfeito timing cômico e é principalmente capaz de dar ao espectador o que ele procura: gargalhadas. Uma comédia perfeita!

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