quarta-feira

VIDA

VIDA (Life, 2017, Columbia Pictures/Skydance Pictures, 104min) Direção: Daniel Espinosa. Roteiro: Rheet Reese, Paul Wernick. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Mary Jo Markey, Frances Parker. Música: Jon Ekstrand. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Nigel Phelps/Celia Boback. Produção executiva: Vicki Dee Rock, Don Granger. Produção: Bonnie Curtis, David Ellison, Dana Goldberg, Julie Lynn. Elenco: Jake Gyllenhaal, Ryan Reynolds, Rebecca Ferguson, Hiroyuki Sanada, Olga Dykhovichnaya, Ariyon Bakare. Estreia: 18/3/17

A cenografia lembra "2001: uma odisséia no espaço" (68), de Stanley Kubrick. A trama é nitidamente inspirada em "Alien, o oitavo passageiro" (79), de Ridley Scott. Mas "Vida", do sueco Daniel Espinosa, apesar das referências clássicas e da aparência derivativa, tem muito mais qualidades que sua bilheteria doméstica (pouco mais de 30 milhões de dólares, contra um orçamento de estimados 58) pode fazer crer. Mesmo que não acrescente muito aos elementos já consagrados de um gênero sempre em constante busca de novidade, o filme de Espinosa não faz feio em provocar suspense, em imprimir um constante ar de tensão e, principalmente, em criar um vilão que foge do já tradicional visual forjado na obra de Scott - já utilizado à exaustão em suas continuações. Apostando em efeitos visuais de primeira linha, "Vida" pode até ser mais do mesmo, mas assume sem medo o desafio de conquistar os fãs de ficção científica - e o faz com dignidade e elegância.

A trama - que também não é um primor de originalidade, mas ao menos tem um senso de lógica e verossimilhança mínimos para um filme do gênero - se passa dentro de uma estação espacial internacional que está retornando de uma expedição à Marte, onde foi tentar encontrar provas de vida alienígena. A tripulação, formada por seis passageiros, inclui médicos e cientistas encantados com a descoberta de um organismo que, divulgado à população da Terra, recebe o carinhoso apelido de Calvin. Fascinado com seu novo bichinho de estimação, um dos tripulantes, Hugh Derry (Ariyon Bakare) - que sofre de paralisia dos membros inferiores -, acaba por dedicar-se quase integralmente a seu estudo. Porém, curioso em descobrir como suas células funcionam quando acordadas, ele acidentalmente desperta um ser de inteligência acima da média e com o poder de crescer de forma acelerada - além de defender-se de forma violenta, atacando a todos a quem considera uma ameaça. Nesse ambiente de tensão, os demais viajantes tentam encontrar uma maneira de mantê-lo preso em uma compartição segura da nave - mas talvez nem mesmo isso seja o suficiente para poupar suas vidas.


O roteiro de "Vida", escrito por Rheet Reese e Paul Wernick - a dupla responsável pelo texto de "Zumbilândia" (2009) e "Deadpool" (2016) - não tem nada de seus trabalhos mais conhecidos, filmes de ação construídos sobre um humor quase juvenil. Sério e com um desenvolvimento claustrofóbico, o filme de Espinosa se equilibra entre o suspense visual (com uma bela fotografia em tons azulados, de Seamus McGarvey) e o drama que surge em consequência dos trágicos desdobramentos do encontro entre terráqueos e a misteriosa forma de vida marciana. São esses momentos emocionalmente mais densos que abrem espaço para as atuações inspiradas de Jake Gyllenhaal e da sueca Rebecca Ferguson - um rosto que começou a ser conhecido das plateias graças a suas participações em "Missão: impossível: Nação Secreta" (2015) e "A garota no trem" (2016). Ele vive o médico David Jordan, que está atingindo o recorde de permanência no espaço (por não saber exatamente como conviver com as pessoas em seu planeta natal), e ela interpreta a líder da missão, Miranda North, a quem caberá tomar as decisões mais importantes a respeito da reviravolta na viagem. As cenas em que Gyllenhaal e Ferguson reagem à situação em que estão vivendo são bem escritas, bem dirigidas e oferecem um tom pessoal que evita que o filme acabe sendo apenas mais uma produção caprichada de efeitos visuais de última geração.

Conciso e eficiente, ainda que careça de uma força maior em seu clímax e soe perigosamente parecido com suas fontes de inspiração, "Vida" é um filme inteligente, que discute com sobriedade o limite a que pode chegar a interferência do seres humanos a ecossistemas alheios - e por consequência, as fontes de vida que os habitam. Ao mostrar Calvin não como um vilão cruel e sanguinário, mas como uma criatura lutando por sua própria defesa, o roteiro encontra seu maior diferencial - assim como o final, uma aula de edição que pega o espectador de surpresa e dilacera o heroísmo individual tão caro ao cinemão mainstream. Contando com a participação especial de Ryan Reynolds - o Deadpool em pessoa, que não pode aceitar o papel de David Jordan por falta de tempo - e um diretor que parece ter aprendido direitinho sua lição de como comandar uma ficção científica de suspense, "Vida" é um filme acima da média, que pode não agradar aos fãs do "Alien" original pelo excesso de similaridades mas que cumpre exatamente o que promete: assusta, entretém e surpreende.

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