sábado, 20 de maio de 2017

TEMPO DE GLÓRIA

TEMPO DE GLÓRIA (Glory, 1989, TriStar Pictures, 122min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Kevin Jarre, livros de Lincoln Kirstein e Peter Burchard, cartas de Robert Gould Shaw. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Horner. Figurino: Francine Jamison-Tanchuck. Direção de arte/cenários: Norman Garwood/Garrett Lewis. Produção: Freddie Fields. Elenco: Matthew Broderick, Denzel Washington, Cary Elwes, Morgan Freeman, Andre Braugher, Bob Gunton, Jay O. Sanders. Estreia: 15/12/89

5 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Denzel Washington), Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Oscar: Ator Coadjuvante (Denzel Washington), Fotografia, Som 
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Denzel Washington) 

Segundo palavras dele mesmo, Edward Zwick estava apreensivo quando começou as filmagens de "Tempo de glória": o cineasta não sabia como o elenco de seu filme se sentia a respeito de ter um diretor branco, judeu e jovem (36 anos à época) contando a história do primeiro regimento de soldados negros da Guerra de Secessão americana, que contrapôs o Norte abolicionista contra o Sul escravagista. Sabendo que o evento tinha uma importância crucial no sentimento de autoestima dos afro-americanos (ainda que fosse pouco conhecido do público em geral), Zwick temia não ser capaz de honrá-lo. Por fim, todos os seus temores se mostraram infundados: não apenas os atores receberam com simpatia e profissionalismo seu trabalho, como a Academia de Hollywood também se rendeu ao resultado final: indicado a 5 Oscar, "Tempo de glória" recebeu 3 estatuetas (ator coadjuvante, fotografia e som) e se tornou o segundo filme mais premiado da temporada 1989, perdendo em números apenas para o grande vencedor, "Conduzindo Miss Daisy" (que saiu da cerimônia com um troféu a mais). Nem mesmo o grande favorito do ano, "Nascido de 4 de julho", de Oliver Stone, foi tão bem-sucedido.

Não é difícil entender os motivos que levaram o filme de Zwick a agradar tanto aos conservadores membros da Academia. Mais até que o tom épico - acentuado pela bela trilha sonora de James Horner, inexplicavelmente deixada de fora das indicações - e a produção caprichada, é a forma sincera e carinhosa do olhar do cineasta que fazem de "Tempo de glória" um filme de guerra que foge da estrutura óbvia de treinamento/batalha climática/final apoteótico. Justamente pelo background que o fazia temer por sua capacidade em comandar o filme, Zwick acabou por ser a escolha mais apropriada: com distanciamento emocional para equilibrar cenas grandiosas e momentos intimistas, ele criou uma pequena obra-prima, uma homenagem justa e sóbria não apenas a um homem - o Coronel Robert Gould Shaw, líder do pelotão -, mas também a um grupo de soldados que, contrariando um destino de subserviência, honrou o exército de seu país apesar do preconceito profundamente enraizado que os considerava indignos da luta.


Fisicamente semelhante ao verdadeiro Shaw, o ator Matthew Broderick encara pela primeira vez um protagonista adulto, com responsabilidades e angústias que vão além dos personagens que o fizeram conhecido do grande público. Nem sempre convence, especialmente em cenas dramaticamente mais potentes, mas não compromete o filme com um todo e tem carisma o bastante para disfarçar suas limitações. Seu personagem é um jovem de 25 anos, filho de uma influente família de Boston, a quem é dado, mesmo sem experiência sólida, o comando do primeiro batalhão formado exclusivamente formado por negros na Guerra de Secessão. O ano é 1863, e acompanhado do velho amigo Cabot Forbes (Cary Elwes), Shaw aceita o desafio, mesmo sabendo que seu sucesso na empreitada dependerá quase exclusivamente da relação que criará com seus subordinados. Vendo seu batalhão desacreditado e frequentemente tratado com desprezo por seus superiores - que enxergam neles apenas o talento para a mão-de-obra e não para batalhas reais -, o jovem coronel passa a comprar brigas com quem for preciso para exigir tratamento justo e provisões básicas (como sapatos, uniformes e pagamento igualitário). A princípio bastante imponente como forma de impor respeito, aos poucos ele vai se deixando conquistar pelos soldados - em especial o veterano John Rawlins (Morgan Freeman), a quem confia um cargo de confiança, e o rebelde Trip (Denzel Washington).

Se Broderick não vai muito além do básico, com uma interpretação contida e pouco inspirada (talvez culpa de um personagem que não se permite demonstrar muita emoção), o elenco coadjuvante de "Tempo de glória" é um de seus maiores trunfos. Denzel Washington levou seu primeiro Oscar para casa (como coadjuvante, batendo nomes como Marlon Brando e Martin Landau) por seu desempenho exemplar como o petulante Trip, dono de algumas das cenas mais memoráveis do filme. Morgan Freeman empresta seu semblante sereno ao equilibrado John Rawlins, ponto de acesso entre Shaw e seus subordinados, e tem pelo menos um grande momento (junto a Washington). E Andre Braugher, como Thomas Searles, amigo de infância do coronel, e Jihmi Kennedy, como o gago e inseguro Jupiter Sharts, completam o elenco de apoio impecável selecionado por Zwick. Um filme que fala ao mesmo tempo aos fãs do gênero e àqueles que procuram histórias humanistas, "Tempo de glória" precisa ser redescoberto como um dos melhores filmes do final da década de 80 - e um dos mais importantes quando se trata de combate ao preconceito.

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