sábado, 13 de maio de 2017

SUBLIME OBSESSÃO

SUBLIME OBSESSÃO (Magnificent obsession, 1954, Universal Pictures, 108min) Direção: Douglas Sirk. Roteiro: Robert Blees, adaptação de Wells Root do roteiro de Sarah Y. Mason, Victor Heerman, romance de Lloyd C. Douglas. Fotografia: Russell Metty. Montagem: Milton Carruth. Música: Frank Skinner. Figurino: Bill Thomas. Direção de arte/cenários: Bernard Herzbrun, Emrich Nicholson/Russell A. Gausman, Ruby R. Levitt. Produção: Ross Hunter. Elenco: Jane Wyman, Rock Hudson, Agnes Moorehead, Otto Kruger, Barbara Rush, Paul Cavanagh. Estreia: 15/7/54

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Jane Wyman)

Quando Rock Hudson estrelou "Sublime obsessão" - um de seus melhores trabalhos com o cineasta Douglas Sirk - ele ainda não era o ator respeitado que viria a ser graças a filmes de prestígio como "Assim caminha a humanidade", de 1956 (que lhe daria sua única indicação ao Oscar) nem tampouco o ídolo popular que se tornaria devido à sua química irretocável com Doris Day a partir dos anos 60, em deliciosas e bem-sucedidas comédias românticas. No entanto, já era visível, desde então, o carisma  inigualável que faria, por décadas, a fantasia das mulheres e admiração dos homens. Mesmo diante de um roteiro novelesco e um personagem quase inverossímil, Hudson era capaz de convencer o público sem dificuldade - a ponto de repetir a dupla romântica com Jane Wyman no ano seguinte, novamente sob a direção de Sirk, em outro drama choroso, "Tudo o que céu permite". Foi Wyman quem recebeu a única indicação ao Oscar de "Sublime obsessão", mas sem a presença magnética o ator o remake do filme dirigido por John M. Stahl em 1935 - e estrelado por Robert Taylor e Irene Dunne - poderia ter escorregado perigosamente no melodrama choroso e inconsequente.


Baseado em um romance de Lloyd C. Douglas, "Sublime obsessão" cabe perfeitamente na filmografia de Douglas Sirk, com sua história repleta de tragédias e lágrimas românticas. Um cineasta capaz de emocionar os espectadores com enredos sem muita sofisticação, Sirk era também um profissional de grande talento em criticar, de forma sutil e elegante, a sociedade dos EUA nos anos pós-guerra, presa em hipocrisias e regras rígidas de comportamento. Se utilizando de todas as ferramentas à sua disposição, ele enfatizava suas ideias explorando com inteligência a música (aqui a cargo de Frank Skinner, melancólica e suave) e a fotografia (com Russell Metty iluminando de forma discreta cada estado de espírito de sua protagonista). À sua época tido como um realizador menor, por conta de sua predileção por estruturas dramáticas semelhantes a tragédias gregas, mas incrustadas no seio das melhores famílias americanas, Sirk só veio a ser merecidamente reconhecido com o passar dos anos, quando tornou-se cultuado por fãs do cinema clássico de Hollywood e passou a servir de referência a cineastas como Todd Haynes, que fez seu "Longe do paraíso" (2002) claramente inspirado em seu estilo particular - que, verdade seja dita, é até mesmo um bocado cafona.



Apesar - ou justamente por causa disso - "Sublime obsessão" é uma das mais características obras de Sirk, unindo todos os elementos que fizeram dele um dos cineastas mais populares de sua época. A trama é açúcar puro: Hudson interpreta Bob Merrick, um playboy mimado e imaturo que acaba sendo responsável indireto pela morte de um caridoso e altruísta médico de sua cidade. Sentindo-se culpado por ter sobrevivido enquanto alguém tão nobre perdeu a vida, ele se aproxima da viúva, Helen Phillips (Jane Wyman), com o objetivo de tentar reparar seu erro, tornando-se uma pessoa melhor. As consequências de tal decisão são ainda mais drásticas, e ao fugir dele, Helen é atropelada e fica cega. Aproveitando-se da deficiência da jovem, Merrick se faz passar por outra pessoa e os dois terminam por se apaixonar. O outrora irresponsável rapaz decide, então, fazer a faculdade de Medicina para curar a mulher que ama. Seu caminho é frequentemente atrapalhado pela incrédula irmã de Helen, a esperta Nancy (Agnes Moorehead), que sabe de sua real identidade.


Sem medo de mergulhar no mais profundo melodrama, Sirk conduz sua história com dignidade e sensibilidade, mesmo que nem sempre consiga escapar do exagero. A transformação de Merrick, por exemplo, soa abrupta demais, e somente o talento e o carisma de Rock Hudson impedem que a trama resvale no absurdo. Jane Wyman, por sua vez, é a intérprete perfeita para o papel, mantendo-se crível mesmo quando sua personagem fica a milímetros do óbvio. Perdeu o Oscar para Grace Kelly em "Amar é sofrer", mas seu dom para o dramalhão assumido é o equilíbrio perfeito para o belo sorriso de Hudson, adquirindo experiência para voos mais ambiciosos e menos rechaçados pela crítica. Para quem gosta de um belo e lacrimoso melodrama, "Sublime obsessão" é um programa perfeito!

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