quarta-feira, 17 de maio de 2017

SEXO, ROCK E CONFUSÃO

SEXO, ROCK E CONFUSÃO (Empire Records, 1995, Warner Bros, 90min) Direção: Allan Moyle. Roteiro: Carol Heikkinen. Fotografia: Walt Lloyd. Montagem: Michael Chandler. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Peter Jamison/Linda Spheeris. Produção: Tony Ludwig, Arnon Milchan, Michael Nathanson, Alan Riche. Elenco: Anthony LaPaglia, Maxwell Caulfield, Debi Mazar, Rory Cochrane, Johnny Whitworth, Robin Tunney, Liv Tyler, Renée Zellweger, Ethan Embry, Brendan Sexton III. Estreia: 22/9/95

Nem só de escritores consagrados e adaptações literárias vive o cinema americano. Vez ou outra, uma voz nova e solitária surge com alguma ideia interessante o suficiente para despertar a cobiça de algum estúdio, sedento por alguns milhares de dólares a mais no cofre (ou um produto com potencial a cult). Foi assim, por exemplo, com Carol Heikkinen, ex-funcionária da Tower Records de Phoenix, Arizona, e autora do roteiro da comédia "Sexo, rock e confusão", lançada pela Warner em 1995 com um elenco jovem que incluía as então iniciantes Renée Zellweger e Liv Tyler. Tudo bem que Heikkinen já havia assinado o script de "Um sonho, dois amores" (93), dirigido por Peter Boganovich e estrelado por River Phoenix (um fracasso de bilheteria e crítica), mas foi sua coletânea de memórias afetivas de seu tempo em uma das lojas de discos mais famosas dos EUA que a colocou no radar de Hollywood: com uma mistura quase anárquica de música, humor adolescente e despretensão, sua trama (simples e superficial) chegou às telas sob a direção de Allan Moyle - que já tinha no currículo outra comédia musical jovem, "Um som diferente" (90), com Christian Slater - e, se não arrebentou nas bilheterias, ao menos consegue divertir seu público-alvo mesmo passando longe de apresentar alguma novidade.

A estrutura central de "Sexo, rock e confusão" lembra a do clássico juvenil "Clube dos cinco" (85), de John Hughes, mas sem a profundidade emocional deste. Sua ambientação pode lembrar aos cinéfilos o genial "Alta fidelidade" (99), de Stephen Frears - mesmo que ele tenha sido lançado anos depois. Mas o filme de Moyle não parece querer ser mais do que um passatempo leve e simpático, embalado por uma trilha sonora pop-rock e enfeitado por um elenco fotogênico. Todo o roteiro gira em torno da Empire Records do título original, uma loja independente de discos que está a um passo de ser absorvida por uma cadeia de empreendimentos semelhantes. Seu gerente, Joe (Anthony LaPaglia) ainda não quer revelar aos funcionários tal situação, mas este parece ser o menor dos problemas da equipe, toda ela envolvida em algum problema pessoal. Lucas (Rory Cochrane), o único que sabe da verdade, tentou reverter o quadro roubando a féria do dia anterior e perdendo no jogo em Atlantic City; A. J. (Johnny Withworth) planeja declarar seu amor à colega Corey (Liv Tyler) - que está mais interessada em perder a virgindade com o astro popular Rex Manning (Maxwell Caulfield), que irá autografar seu novo disco nas dependências da loja; Debra (Robin Tunney) acaba de tentar o suicídio depois do fim do namoro com outro vendedor, Berko (Coyote Shivers); Mark (Ethan Embry) sonha em ser roqueiro; e Gina (Renée Zellweger) administra seu jeito liberal de ser enquanto aconselha Corey a manter seu objetivo de entregar-se à Manning. Nesse meio-tempo, até mesmo um ladrãozinho de meia-tigela, Warren (Brendan Sexton) entra na jogada, tornando-se uma espécie de refém dos jovens funcionários que esperam a chegada de Rex Manning e sua assessora Jane (Debi Mazar).


Uma série de anedotas ligadas tenuamente por um roteiro ligeiro e inconsequente, "Sexo, rock e confusão" se beneficia principalmente por seu elenco, formado por jovens atores então em ascensão. Robin Tunney logo estaria no elenco de "Jovens bruxas" (96) e futuramente participaria da série "O mentalista". Liv Tyler - então recém reconhecida como filha do roqueiro Steven Tyler e musa do clipe "Crazy" ao lado de Alicia Silverstone - se tornaria símbolo sexual instantâneo graças aos filmes "Beleza roubada" (96) e "Armageddon" (98). E Renée Zellweger iria ainda mais longe, conquistando a crítica e o público com filmes como "Jerry Maguire: a grande virada" (96) e "O diário de Bridget Jones" (01), além de ganhar um Oscar de coadjuvante por "Cold Mountain" (03) depois de duas infrutíferas indicações. Jovens, belas e talentosas, elas disfarçam a falta de novidades do roteiro e até a falta de consistência do filme como um todo - não há, a rigor, nenhum personagem que realmente crie empatia com o espectador médio, que assiste a tudo facilmente, é verdade, mas sempre à espera de alguma cena, algum momento que acabe com a nítida impressão de que ele é, na verdade, um produto feito especificamente para a geração MTV.

E nesse ponto, justiça seja feita, o filme não deixa de ser uma delícia. Não tão inteligente quanto outros realizados pela mesma época, como "As patricinhas de Beverly Hills" ou "Pânico" - que não apenas retratavam uma geração, mas o faziam com um grau de ironia carinhosamente único - mas agradável e bem-humorado. Sem pesar a mão nem mesmo quando trata de assuntos um tanto polêmicos como suicídio e virgindade, "Sexo, rock e confusão" é pontuado por uma trilha sonora que inclui The Cranberries, AC/DC, Dire Straits e Better Than Ezra, além de outros nomes do rock anos 90, o que imprime imediatamente um ar nostálgico e irreverente a uma trama facilmente esquecível, mas que não faz mal a ninguém. Uma sessão da tarde para aqueles que cultuam a década de 90 - e suas musas.

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