domingo, 28 de maio de 2017

PENSAMENTOS MORTAIS

PENSAMENTOS MORTAIS (Mortal thoughts, 1991, Columbia Pictures, 102min) Direção: Alan Rudolph. Roteiro: William Reilly, Claude Kerven. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Tom Walls. Música: Mark Isham. Figurino: Hope Hanafin. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Beth Kushnick. Produção executiva: Stuart Benjamin, Taylor Hackford. Produção: John Fiedler, Mark Tarlov. Elenco: Demi Moore, Bruce Willis, Glenne Headly, Harvey Keitel, John Pankow. Estreia: 19/4/91

Louvado desde sua estreia por sua sofisticação visual e pelo não convencionalismo de sua narrativa, exemplificados em filmes como "Choose me" (84) e "Moderns" (88), o cineasta Alan Rudolph, que começou a carreira como assistente de Robert Altman sempre foi considerado um estranho no ninho dentro da indústria de Hollywood. Por isso, não deixa de ser uma surpresa ver seu nome nos créditos de "Pensamentos mortais", um produto puramente comercial que, lançado em 1991, surfava na onda do sucesso e do prestígio de Demi Moore - recém saída do estrondoso sucesso de "Ghost: do outro lado da vida" (90). Um policial acadêmico e sem maiores arroubos de criatividade - ainda que contado de maneira razoavelmente envolvente -, o filme de Rudolph carece da personalidade própria de seu diretor, mas merece aplausos por tirar tanto Demi quanto seu então marido Bruce Willis de sua zona de conforto, apresentando personagens pouco simpáticos e desprovidos de glamour ou empatia. Com um custo irrisório de apenas 8 milhões de dólares, "Pensamentos mortais" não fez o sucesso esperado - rendeu menos de 20 milhões no mercado doméstico - e tampouco agradou à crítica. É um filme que fica em um incômodo meio-termo entre suas pretensões comerciais e seu desejo de sobressair-se artisticamente de outras produções do gênero.

Na verdade, Rudolph assumiu o comando depois que o diretor escolhido, Claude Kerven, um dos roteiristas, foi demitido, às vésperas do começo das filmagens. A essa altura do campeonato, outras mudanças já haviam sido efetuadas no projeto, como a entrada de Demi Moore como co-produtora e a subsequente escalação de Bruce Willis para o papel crucial - mas no primeiro tratamento de roteiro bastante pequeno - de James Urbanski, o pivô de toda a trama. Ficando com o papel que foi cogitado para Robin Wright, Demi não foi a única substituição do elenco: devido ao atraso no início dos trabalhos, Peter Gallagher pulou do barco e deu lugar a John Pankow para interpretar Arthur, o outro personagem masculino da história. Para viver a melhor amiga de Demi, foi escolhida Glenne Headly - recém-vinda do sucesso "Dick Tracy" - e na pele do detetive de polícia John Woods, ficou o veterano Harvey Keitel (em vias de embarcar no imenso êxito de "Thelma & Louise", de Ridley Scott). Equipe (bem) escolhida e uma corajosa escolha de tema - bem distante dos romances açucarados estrelados por Demi ou dos filmes de ação com Willis. Mas algo não deu certo na combinação de ingredientes.


Não que "Pensamentos mortais" seja um filme irremediavelmente ruim. Pelo contrário, tem algumas ideias muito boas, ainda que não necessariamente novas, como a utilização de flashbacks como forma principal de narrativa. Tal recurso, utilizado com razoável competência (em parte graças à edição de Tom Walls), é que serve de base para o desenvolvimento de um roteiro cujos personagens não são, a princípio, exatamente o que parecem ser. A ciranda de acontecimentos trágicos e inesperados que se sucedem conforme a trama vai se desenrolando é apresentada com um tom seco, apropriado à história, e mantém o interesse do espectador até os últimos minutos, quando finalmente toda a verdade vem à tona. É um enredo simples, tornado complexo pelas constantes reviravoltas. É um filme que cairia como uma luva nas mãos de um cineasta menos sutil, mais afeito ao roteiro do que ao estilo. Talvez Alan Rudolph seja cool demais para uma história tão sórdida, com personagens tão pequenos e rotinas tão mundanas. A impressão que se tem é que o diretor tenta enfeitar a crueldade e a aridez da trama com uma aura de cinema europeu - o que não apenas não funciona como acaba por estragar a maior qualidade do texto.

Tudo bem, Demi Moore tampouco funciona no papel principal, ainda que se esforce. Mas é louvável que tenta tentado fugir do estereótipo de símbolo sexual para viver Cynthia Kellogg, uma cabeleireira que é chamada à delegacia para dar seu depoimento a respeito de um violento homicídio. Não demora a ser revelado que a vítima é James Urbanski (Bruce Willis), o detestável marido de Joyce (Glenne Headly), sua sócia e melhor amiga. Aos poucos o detetive John Woods (Harvey Keitel) vai arrancando de Cynthia todos os detalhes da rotina doméstica do casal, recheada de brigas violentas, e chega até o dia do crime. Quem matou James? Por que? Em que circunstâncias? E o que Arthur (John Pankow), o marido de Cynthia, tem a ver com a história? Tentando responder a essas perguntas clássicas de um filme policial, o roteiro joga pistas e informações sem muita criatividade, seguindo apenas a estrutura clássica de gato e rato há muito consagrada pela literatura e pelo cinema. Bruce Willis é o grande destaque do elenco, excelente como o odioso James Urbanski, e é uma pena que sua participação seja tão curta. Mas ainda assim, a beleza de Demi e o final (mais ou menos) surpreendente fazem do resultado final um produto a que se assiste com facilidade - o problema é que, além de facilmente assistível, é também facilmente esquecível. Um Supercine de luxo!

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