segunda-feira, 8 de maio de 2017

NOVE RAINHAS

NOVE RAINHAS (Nueve reinas, 2000, FX Sound, 114min) Direção e roteiro: Fabian Bielinski. Fotografia: Marcelo Camorino. Montagem: Sergio Zottola. Música: Cesar Lerner. Figurino: Mônica Toschi. Direção de arte/cenários: Daniela Passalaqua/Marcelo Salvioli. Produção: Pablo Bossi. Elenco: Ricardo Darin, Gastón Pauls, Leticia Brédice, Oscar Nuñez, Ignasi Abadal. Estreia: 31/8/00

A cinematografia argentina, forte, criativa e inteligente, começou a despontar com toda a sua força no início dos anos 2000, quando passou a ser respeitada não apenas pela crítica e pelos assíduos frequentadores de cinematecas, mas também pelo público em geral, que só raramente tomava conhecimento de sua qualidade - até mesmo a Academia de Hollywood já havia se rendido a ela, lhe oferecendo, em 1985, o Oscar de melhor produção estrangeira por "A história oficial", de Luis Puenzo. Um dos primeiros filmes a chamar a atenção dos espectadores por sua mistura perfeita entre entretenimento e inteligência foi "Nove rainhas", um delicioso exercício de estilo do diretor Fabián Belinski que consegue a façanha de prender a atenção da audiência do primeiro ao último minuto sem precisar apelar para cenas de ação desnecessárias ou efeitos especiais milionários. Calcado basicamente em um roteiro repleto de diálogos saborosos, uma edição ágil e atores no topo de sua forma, Belisnki criou uma diversão perfeita - a ponto de chamar a atenção de Hollywood, que quatro anos mais tarde, lançou um remake estrelado por John C. Reilly e Diego Luna, logicamente sem o mesmo brilho.

Sem perder muito tempo - até mesmo os créditos só aparecerão no final da sessão - e indo diretamente ao ponto, o roteiro de "Nove rainhas" começa quando o jovem Juan (Gastón Pauls) é flagrado tentando dar um golpe em um mini-mercado e é socorrido pelo veterano Marcos (Ricardo Darín), que, se passando por policial, consegue administrar a situação e livrá-lo de uma punição mais severa do que um simples sermão. Longe do local da contravenção, o experiente Marcos - que vive de expedientes e de passar a perna em quem quer que esteja distraído - propõe sociedade ao novato, explicando que não gosta de trabalhar sozinho e que acaba de perder o parceiro. Convencido depois de perceber que o generoso estranho tem um vasto catálogo de truques, Juan - que precisa juntar dinheiro para ajudar ao pai, que está preso - aceita ser seu companheiro por um período. Depois de um tempo juntos, em que testam a capacidade um do outro em improvisar e escapar de imprevistos, os dois finalmente tem a grande chance de dar um golpe milionário - graças à involuntária presença de Valeria (Leticia Brédice), irmã de Marcos.





Revoltada com Marcos devido a problemas na herança que recebeu do pai, Valeria acaba por ser a responsável pelo reencontro do irmão com um antigo colaborador, Sandler (Oscar Nuñez), no hotel onde ela trabalha. Com a saúde frágil e debilitada, Sandler oferece a Marcos a possibilidade única de ganhar uma bolada, ao vender uma cartela de selos falsos - intitulada Nove Rainhas - a um colecionador milionário hospedado no local. Sabendo que a oportunidade é boa demais para ser recusada, Marcos e Juan aceitam o desafio e começam uma apressada jornada para conseguir fazer com que o pretenso comprador, Vidal Gandolfo (Ignasi Abadal), não saia de Buenos Aires sem a mercadoria que pode lhes deixar ricos. Para isso, apelam para as mais variadas e criativas mentiras - enquanto Juan se sente irremediavelmente atraído por Valeria.

E a partir daí, o roteiro do diretor Fabián Belinsky convida o espectador a uma montanha-russa: enquanto acompanha Marcos e Juan em suas tentativas nem sempre bem-sucedidas de enganar o próximo, o público se sente parte do cambalacho, mesmo que não saiba exatamente quem está enganando a quem. Recheando sua trama de reviravoltas e personagens pouco confiáveis, Belinsky exige da plateia atenção redobrada em cada diálogo, em cada expressão de seus atores, em cada silêncio revelador. Inserindo um humor inteligente e sardônico na narrativa, ele consegue transformar seus protagonistas em herois, mesmo que eles tenham, logicamente, grandes falhas de caráter - até mesmo Juan, que aprendeu com o pai todos os truques que conhece mas ainda mantém uma certa ética. A química excelente entre Ricardo Darín (o maior astro do cinema argentino) e Gastón Pauls é outro dos grandes trunfos do filme, que cativa e surpreende na medida exata, oferecendo um final de deixar qualquer um com um enorme sorriso estampado no rosto. Cinema de primeira linha!

Nenhum comentário: