domingo, 23 de outubro de 2016

A DANÇA DOS VAMPIROS

A DANÇA DOS VAMPIROS (Dance with the vampires, 1967, FilmWay Pictures, 108min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Gérard Brach. Fotografia: Douglas Slocombe. Montagem: Alastair McIntyre. Música: Christopher Komeda. Figurino: Sophie Devine. Direção de arte/cenários: Wilfrid Shingleton. Produção executiva: Martin Ransohoff. Produção: Roman Polanski. Elenco: Jack McGowran, Roman Polanski, Alfie Bass, Jessie Robbins, Sharon Tate. Estreia: 13/11/67

Depois de fazer um primeiro filme em inglês que conquistou a crítica com um suspense psicológico milimetricamente calculado - "Repulsa ao sexo" (65) - e uma obra mais pessoal, repleta de um humor negro perturbador - "Armadilha do destino" (66) - o cineasta polonês Roman Polanski mais uma vez pegou todo mundo de surpresa com seu filme seguinte. Uma subversão ao mito dos vampiros, recheado de humor nonsense e realizado com um visual camp dos mais deliciosos, "A dança dos vampiros" foi uma lufada de ar fresco dentro da filmografia de Polanski, até então carregada de paranoia, tensão extrema e angústia. Apelando para o humor puro e simples, o diretor e seu corroteirista Gérard Brach, da forma mais iconoclasta e debochada possível, resolveram brincar com os paradigmas do cinema de horror britânico - em especial os filmes dos estúdios Hammer, especialista no gênero - e construíram um cult de nascença, tornado ainda mais macabramente famoso depois da violenta morte de uma de suas estrelas, a atriz Sharon Tate, assassinada aos oito meses de gravidez, em agosto de 1969, menos de dois anos depois de sua estreia.

Casada com Polanski, Sharon Tate morreu nas mãos de um grupo de jovens comandados de forma cega por Charles Manson - que se achava a reencarnação de Cristo e pregava uma supremacia branca que o levaria ao poder - e viu sua fama, ainda tímida, catapultada aos céus graças à morbidez da imprensa. Seu trabalho em "A dança dos vampiros" - como a bela e pouco recatada Sarah, objeto de desejo do personagem do próprio diretor - foi um dos primeiros a conquistar atenção da crítica e do público, e revelava nela uma presença de cena bastante forte e hipnótica que se confirmaria em um de seus filmes seguintes, a adaptação cinematográfica do best-seller "O vale das bonecas", de Jacqueline Susan - filmado por Mark Robson e lançado pouco mais de um mês depois. Substituindo a escolha inicial de Polanski para o papel, Tate aparece relativamente pouco em cena, mas é, sem dúvida, um dos maiores atrativos do filme, com sua beleza serena e uma docilidade que contrasta com o tom satírico do roteiro e das imagens criativas do cineasta, que fogem do humor óbvio ao apostar no riso discreto mas constante.


A trama se passa, como não poderia deixar de ser, na Transilvânia, mais precisamente em um remoto vilarejo onde chegam o Professor Abronsius (Jack MacGowran), especialista em morcegos, e seu tímido e atrapalhado assistente, Alfred (Roman Polanski, com bom timing para comédia). O veterano mestre procura provar a existência de vampiros e, seguindo pistas e estudos de colegas, se hospeda na pensão do misterioso Shagall (Alfie Bass), decorada com enorme quantidade de dentes de alho e frequentada por alguns habitantes locais bastante misteriosos. Abronsius passa a ter certeza acerca das criaturas que procura quando a bela filha do dono da pensão, Sarah (Sharon Tate), é sequestrada pelo assustador Conde Von Krolock (Ferdy Mayne), que a leva para sua tétrica mansão, localizada no alto de uma montanha coberta de neve. Movido pelo desejo de exterminar o vampiro, o veterano estudioso parte rumo ao castelo, acompanhado do apaixonado Alfred, que quer salvar o objeto de seu afeto de um trágico destino. Chegando no lar do monstruoso Krolock, os dois se descobrem presos e em vias de tornarem-se, eles próprios, as próximas vítimas do sanguessuga - e o que é pior, em um baile que reunirá dezenas de outros vampiros.

Transformado em espetáculo musical lançado em 1997 na Áustria em uma montagem dirigida pelo mesmo Roman Polanski do filme original, "A dança dos vampiros" é uma comédia atípica, que usa e abusa do humor visual e do deboche às regras estabelecidas dos filmes de terror. Sem poupar nada e nem ninguém, o roteiro apresenta seus heróis como dois inaptos atrapalhados, capazes de ficarem entalados em janelas ou incapazes de cravar estacas em seus algozes - além de criar um vampiro gay hilariante que não hesita em dar em cima do despreparado Alfred enquanto seu líder prepara o baile de gala que justifica o título em português. Contando ainda com uma trilha sonora discreta de Christopher Komeda - que depois criaria a tétrica música de "O bebê de Rosemary" (68) - e um ritmo que destoa substancialmente das comédias realizadas em Hollywood, que privilegiam o riso fácil, "A dança dos vampiros" não é exatamente um filme para todas as plateias, mas é capaz de divertir a quem procura subversões e criatividade. E ainda tem Sharon Tate, linda e carismática.

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