sábado, 22 de outubro de 2016

ADIVINHE QUEM VEM PARA JANTAR

ADIVINHE QUEM VEM PARA JANTAR (Guess who's coming to dinner, 1967,Columbia Pictures Productions, 108min) Direção: Stanley Kramer. Roteiro: William Rose. Fotografia: Sam Leavitt. Montagem: Robert C. Jones. Música: De Vol. Direção de arte/cenários: Robert Clatworthy/Frank Tubble. Produção: Stanley Kramer. Elenco: Katharine Hepburn, Spencer Tracy, Sidney Poitier, Katharine Houghton, Cecil Kellaway, Beah Richards. Estreia: 11/12/67

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kramer), Ator (Spencer Tracy), Atriz (Katharine Hepburn), Ator Coadjuvante (Cecil Kellaway), Atriz Coadjuvante (Beah Richards), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Katharine Hepburn), Roteiro Original

Não deixa de ser uma coincidência poética o fato de meros dois dias separarem a morte do ator Spencer Tracy e a decisão por unanimidade da Suprema Corte norte-americana em declarar inconstitucional a lei que considerava crime, em 14 estados dos EUA, o casamento interracial: o último filme do consagrado ator - e que ele havia finalizado apenas 17 dias antes de morrer - punha em discussão justamente uma das maiores chagas do país que veria, menos de um ano depois, o assassinato de Martin Luther King: o racismo muitas vezes mascarado pela hipocrisia e pelo verniz do liberalismo da classe média. Dirigido por Stanley Kramer, um dos mais politizados cineastas de sua época, "Adivinhe quem vem para jantar" marcou também a última colaboração - de nove - entre Tracy e Katharine Hepburn, um dos casais não oficiais mais queridos e respeitados de Hollywood e a primeira vez que um filme com um assunto tabu como a miscigenação deixou pra trás o fracasso de bilheteria e tornou-se um grande sucesso comercial e de crítica. Mas, à parte a importância do tema, dos veteranos atores e da competência de Kramer em tornar palatável até o mais controverso dos assuntos, o grande trunfo do filme, e o que fez neutralizar todo e qualquer risco, tinha um nome: Sidney Poitier.

Um dos nomes mais populares entre as plateias norte-americanas dos anos 60, Sidney Poitier representava o que para muitos era a epítome do bom-moço, e sua penetração junto inclusive às camadas mais preconceituosas do público era derivada justamente dessa figura respeitável, honesta e bem-sucedida que seus personagens transmitiam a cada filme. Seu sucesso era tão inquestionável que até mesmo um Oscar de melhor ator ele chegou a ganhar, em 1963, pelo filme "Uma voz nas sombras" - vale lembrar que até então nenhum ator negro havia chegado a tanto e isso era um feito considerável em um país ainda em convulsão com as frequentemente sangrentas lutas pelos direitos civis. Como era de se esperar, porém, o sucesso de Poitier e sua persona forjada ao prazer e gosto de uma audiência branca encontrava resistência justamente junto a seus pretensos semelhantes: ativistas dos movimentos negros rechaçavam com desprezo a pasteurização de sua cultura para melhor fruição de um público predominantemente WASP - branco, anglo-saxão, protestante. O filme "O mordomo da Casa Branca" (2014), de Lee Daniels, exemplifica a questão, em uma discussão entre o protagonista (Forest Whitaker), dedicado aos presidentes do país, e seu filho (David Oyleomo), radical ativista do grupo Panteras Negras que via em Poitier um exemplo a ser renegado pelo povo afro-americano. A importância do ator na indústria do entretenimento ianque é inegável - mas também o são os questionamentos levantados pelos não-entusiastas. E essa dubiedade é, talvez, o cerne de "Adivinhe quem vem para jantar", um filme repleto de boas intenções mas que, de certa forma, esbarra em um muro de escolhas questionáveis em sua narrativa.


Diretor de filmes de suma importância social e política, como "O vento será tua herança" (60) - sobre um professor do interior dos EUA que vai parar no banco dos réus por ensinar a Teoria da Evolução de Darwin aos alunos - e "Julgamento em Nuremberg" - que tratava da batalha para condenar criminosos nazistas da II Guerra Mudial - o inteligente Stanley Kramer sabia que o tema de "Adivinhe quem vem para jantar" era controverso e poderia melindrar os mais conservadores (leia-se preconceituosos) do país. Foi com esse pensamento em vista que resolveu transformar seu protagonista negro em alguém que pudesse ser mais palatável a essa parcela do público - a quem, de certa forma, a mensagem era dirigida. Entra em cena, então, Sidney Poitier, com seu jeito polido, educado, inofensivo até. No filme, ele vive o dr. John Prentice, médico bem-sucedido, viúvo e repleto de boas intenções que entra na vida da família Drayton - brancos, cultos, inteligentes e aparentemente liberais - como uma tempestade inesperada: ele é apresentado pela jovem Joey (Katharine Houghton) como seu noivo, por quem se apaixonou perdidamente durante uma viagem ao Havaí. Mais do que simplesmente um namoro inconsequente, a relação entre os dois se revela séria e urgente, já que pretendem casar-se em poucos dias. Os até então modernos Matt (Spencer Tracy) - editor de um jornal de grande circulação - e Christina (Katharine Hepburn) - dona de uma galeria de arte - se veem, então, diante de uma situação que põe em xeque suas convicções e teorias. Quando os pais de John também entram na jogada, para um jantar ao qual também comparece um padre católico (Cecil Kellaway, indicado ao Oscar de coadjuvante), a noite se transforma em um debate onde se discute não apenas o futuro do casal, mas também o amor em geral e a situação social de um país inteiro.

A questão de John Prentice ser o protótipo do bom-moço - como se apenas se ele cumprisse todas as regras impostas por uma sociedade branca ele fosse apto a receber seu aval - ainda é muito discutida, como forma de diminuir o impacto de "Adivinhe quem vem para jantar" à época de sua estreia. Lógico que não foi a escolha ideal em termos ideológicos - é o mesmo que hoje em dia se fazer um filme com personagens gays que vivem sob normas heteronormativas como forma de não chocar a audiência e angariar sua simpatia - mas é injusto não reconhecer que Kramer, juntamente com o roteirista William Rose, fez um trabalho bastante corajoso e importante, além de não esquecer jamais dos ingredientes que fazem um bom filme: uma história interessante, um roteiro ágil e vivaz, uma direção firme e um elenco de sonhos. O último dueto entre Spencer Tracy e Katharine Hepburn é digno de seus melhores trabalhos, e fica na história como um testemunho de dois astros inteligentes, talentosos e engajados. É só deixar de lado a ideia de que poderia ter sido diferente e assistir ao filme pelo que ele é para apreender sua relevância e deleite.

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