quinta-feira, 27 de outubro de 2016

UM CONVIDADO BEM TRAPALHÃO

UM CONVIDADO BEM TRAPALHÃO (The party, 1968, The Mirisch Corporation, 99min) Direção: Blake Edwards. Roteiro: Blake Edwards, Tom Waldman, Frank Waldman, estória de Blake Edwards. Fotografia: Lucien Ballard. Montagem: Ralph E. Winters. Música: Henry Mancini. Figurino: Jack Baer. Direção de arte/cenários: Fernando Carrere/Reginald Allen, Jack Stevens. Produção: Blake Edwards. Elenco: Peter Sellers, Claudine Longet, Natalia Borisova, Jean Carson, Steve Franken. Estreia: 04/4/68

O dia 04 de abril de 1968 ficou marcado internacionalmente por uma tragédia ainda não totalmente digerida pela sociedade em geral e pela norte-americana em particular: o assassinato de Martin Luther King, que abalou os alicerces das lutas pelos direitos civis e - pela primeira e única vez até hoje - chegou a obrigar os organizadores da entrega do Oscar a adiar a cerimônia por dois dias, em sinal de luto. Porém, nem mesmo essa mancha na história dos EUA foi suficiente para impedir que uma das estreias do dia nos cinemas na data se transformasse em um grande sucesso de bilheteria mesmo sendo uma comédia. Talvez por causa disso, aliás, "Um convidado bem trapalhão" tenha encontrado seu público: em um período tão sombrio o que poderia ser melhor do que esconder-se em uma sala de cinema e dar gargalhadas despretensiosas com o talento superlativo de um ator como Peter Sellers? Em sua única colaboração com o cineasta Blake Edwards fora da série "A pantera cor-de-rosa", "Um convidado bem trapalhão" é também um de seus melhores e mais bem-acabados trabalhos, repleto de sequências memoráveis, tão bem conectadas que fica difícil de acreditar que boa parte delas foi improvisada durante as filmagens.

Com base em um pré-roteiro de 56 páginas criado por Edwards, "Um convidado bem trapalhão" foi construído cena a cena, de acordo com o que era filmado a cada dia - e com um cuidado extremo a detalhes e piadas constantes, muitas vezes acontecendo em segundo plano. Aproveitando ao máximo a capacidade de Peter Sellers em fazer humor sem precisar nem ao mesmo falar, o cineasta de obras tão díspares quanto "Bonequinha de luxo" (62) e "Vício maldito" (63) atinge um nível extraordinário de comédia, equilibrando com inteligência um humor visual caprichado e a extravagância típica do cinema dos anos 60, com a contracultura e o movimento hippie ocupando espaço crucial na narrativa em seu terço final - menos brilhante, mas ainda assim dotado de cenas capazes de tirar o mau-humor de qualquer um. É como se Edwards tivesse estendido por uma hora e meia a ótima sequência da festa oferecida por Audrey Hepburn em "Bonequinha de luxo", extrapolando todos os limites de destruição involuntária que fizeram a glória, décadas mais tarde, de personagens como o Mr. Bean, criado pelo inglês Rowan Atkinson. O protagonista do filme, a ator indiano Hundri Bakshi, é, sem dúvida, uma das criações mais geniais de Sellers.


A sequência inicial já deixa claro o tipo de humor que virá pela frente: tentando a sorte em Hollywood, o atrapalhado Bakshi consegue, no mesmo dia, tirar a paciência do seu diretor e explodir um dispendioso cenário construído para um filme épico. Jurado pelos produtores de jamais conseguir um novo trabalho na cidade, ele acaba, por engano, na lista de convidados para uma festa na casa justamente do produtor do filme que arruinou. Sem questionar tal incoerência - por ingenuidade pura - ele aceita o convite e, mal chega à recepção em seu carro minúsculo (que estaciona entre dois outros bem maiores) e começa uma sinfonia de destruição, a partir de seu sapato perdido no lago artificial da mansão. Tentando enturmar-se com os convidados - em especial com a bela atriz Michele Monet (Claudine Longet) - Bashki transforma a festa em uma profusão de absurdos, normalmente ignorados pelos demais presentes. Pra piorar a situação, um dos garçons, Levinson (Steve Franken), não consegue resistir às bebidas oferecidas e, completamente bêbado, colabora para o caos instaurado pelo ator indiano.

Milimetricamente calculado em seu impecável timing cômico, o desenrolar de "Um convidado bem trapalhão" é um filme que se aproveita do cotidiano para extrair seu humor. As desventuras de Bakshi acontecem com naturalidade, de forma crível, ainda que inusitada - a melhor forma de se fazer rir. Com seu rosto impassível, Peter Sellers arrebata a plateia com uma ingenuidade à toda prova, provocando o riso pela vergonha alheia e não pela vulgaridade que acometeria o cinema americano a partir dos anos 70. Mesmo tendo estreado no final da década de 60, um período mais liberal em termos de se tratar a questão no cinema, o filme de Edwards passa ao largo de qualquer conotação sexual, investindo em um humor simples, simpático e agradável, capaz de agradar a públicos de todas as idades - desde que dispostos a resgatar uma pureza imprescindível para sua melhor degustação. "Um convidado bem trapalhão" é uma comédia das boas, direta e eficaz como somente os grandes conseguem realizar - e aqui tem-se dois exemplos impecáveis do gênero, o sofisticado Blake Edwards e o camaleão Peter Sellers. Sem contra-indicações.

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