terça-feira, 18 de outubro de 2016

DR. FANTÁSTICO: OU COMO APRENDI A PARAR DE ME PREOCUPAR E AMAR A BOMBA

DR. FANTÁSTICO: OU COMO APRENDI A PARAR DE ME PREOCUPAR E AMAR A BOMBA (Dr. Strangelove or: How I learned to stop worrying and love the bomb, 1964, Columbia Pictures Corporation, 95min) Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick, Terry Southern, Peter George, romance "Red alert", de Peter George. Fotografia: Gilbert Taylor. Montagem: Anthony Harvey. Música: Laurie Johnson. Direção de arte: Ken Adam. Produção: Stanley Kubrick. Elenco: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, Keenan Wynn, Slim Pickens, James Earl Jones. Estreia: 29/01/64

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kubrick), Ator (Peter Sellers), Roteiro Adaptado

No início dos anos 60, a II Guerra Mundial já era passado para os estúdios de Hollywood, que demorariam algumas décadas até voltarem a utilizá-la como matéria-prima para suas produções mais ambiciosas. A bola da vez no começo da década do flower power era a possibilidade cada vez menos remota de um conflito nuclear, especialmente com o assassinato de John F. Kennedy, em novembro de 1963 e a Rússia se tornando uma potência mundial. Com esse panorama político à frente, a Columbia Pictures não hesitou em lançar, em 1964, não apenas um, mas dois filmes com temática similar - mas com pontos de vista bastante distintos. Quando "Limite de segurança", dirigido por Sidney Lumet e estrelado por Henry Fonda - um thriller sufocante e tenso - chegou às telas, em setembro, o público e a crítica já haviam visitado o assunto por um viés satírico, exagerado e surreal, dirigido por um cineasta pouco afeito ao convencional: o inglês Stanley Kubrick. Com base no livro "Alerta vermelho", de Peter George, um romance sério a respeito da iminência de uma nova guerra entre americanos e soviéticos, Kubrick virou a trama de pernas para o ar, alterando substancialmente o tom alarmista do original para criar uma comédia alucinada e quase nonsense. O resultado, "Dr. Fantástico: ou Como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba" acabou por transformar-se em um grande sucesso crítico e comercial, a ponto de ser indicado aos Oscar de melhor filme, diretor, ator (Peter Sellers) e roteiro adaptado e passar a ser considerado uma das melhores comédias da história do cinema, graças ao American Film Institute - que o colocou em terceiro lugar entre as maiores do gênero.

A ideia de Kubrick em transformar o livro de Peter George em uma sátira não agradou muito ao autor do original, que, no entanto, não se recusou ao crédito de corroteirista, ao lado do diretor e de Terry Southern, que só entrou no projeto quando o cineasta inglês percebeu o potencial humorístico do material que tinha em mãos. Com um roteiro repleto de humor negro e críticas nada veladas ao governo americano - e às paranoias relacionadas à incipiente Guerra Fria - a Columbia viu que o melhor a fazer seria escalar alguém que pudesse fazer jus a todas as possibilidades da história. Surgia então o nome de Peter Sellers, com quem Kubrick já havia trabalhado - e com grande êxito - na versão cinematográfica de "Lolita" (62), de Vladimir Nabokov. Como já havia acontecido no filme anterior, Sellers voltaria a interpretar múltiplos personagens - mais precisamente três, o que de certa forma contrariava os interesses do estúdio, que sonhava com um quarteto de caracterizações - e, para isso, recebeu um polpudo pagamento de 1 milhão de dólares, o que representava mais da metade do orçamento do filme inteiro. O investimento valeu a pena: não apenas Sellers roubou a cena como recebeu uma merecida indicação ao Oscar de melhor ator - prêmio que perdeu para Rex Harrison, no ultrapremiado "My fair lady".





As ironias de "Dr. Fantástico" já começam na escalação do elenco. Na pele do paranoico General Jack D. Ripper, obcecado por fantasias de uma possível invasão "vermelha" e responsável por enviar um avião norte-americano em direção à Rússia com o objetivo de bombardear o país, está o ator Sterling Hayden, notório militante do Partido Comunista à época das filmagens. É seu personagem que dá início à história, mantendo o oficial da Força Aérea Britânica Lionel Mandrake (Peter Sellers) em seu poder enquanto espera o desfecho de seu ato de rebeldia. Atônito com a situação, o presidente dos EUA, Merkin Muffley (também vivido por Sellers), resolve tentar, de todas as maneiras possíveis, impedir que tal desgraça aconteça, o que poderia causar o início de uma III Guerra Mundial. Para isso, chama à Sala de Guerra do Pentágono - reconstruída em estúdio na Inglaterra, de onde Peter Sellers não poderia sair devido a problemas com seu divórcio - o General Buck Turgidson (George C. Scott), o embaixador soviético Sadesky (Peter Bull) e o exótico cientista Dr. Strangelove (o terceiro personagem de Sellers), que tem ideias próprias a respeito de como resolver o problema. Em uma terceira linha narrativa, a tripulação do avião mandado por Ripper em direção à Rússia encontra dificuldade em comunicar-se tanto com seu comandante quanto com a sala de controle que pode lhe impedir de dar continuidade à missão.


Ao optar pelo exagero em todos os setores da produção - desde a direção de arte claustrofóbica e com tons de pesadelo até a interpretação de seus atores, o que causou estranheza ao veterano George C. Scott, que não compreendia as intenções do diretor até ver o filme finalizado - Stanley Kubrick acabou por criar um dos filmes de guerra mais contundentes da história. Retratando os detentores do poder de criar ou acabar com um conflito mundial não como heróis, mas como poltrões dominados por suas amantes, suas paranoias e seus interesses pessoais, o roteiro joga por terra o patriotismo americano que tanto serviu de base para produções hollywoodianas nas décadas seguintes e, de quebra, ridiculariza os dois lados da questão, com diálogos absurdos e situações visuais que beiram o patético - tombos, brigas, um cientista sem controle da própria mão mecânica. Em uma filmografia que não tinha muito espaço para o humor, Kubrick fez de "Dr. Fantástico" uma obra única e que, de uma forma tortuosa, serviu de alerta para um período de grande tensão política - por uma coincidência macabra, sua exibição-teste estava marcada justamente para o dia da morte de Kennedy, um dos mais importantes eventos na história ocidental do século XX e que muito interferiu no desenrolar da Guerra Fria. Mais uma vez, por obra do acaso, o cinema de Kubrick nunca pareceu tão antenado com sua realidade.

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